Carregando...
Resumos Comentados > UroOncologia > Câncer de Próstata > BULLSEYE: lutécio-PSMA no câncer de próstata oligometastático hormônio-sensível

BULLSEYE: lutécio-PSMA no câncer de próstata oligometastático hormônio-sensível

Autores do Artigo: 

Privé BM et al.

Journal

The Lancet Oncology

Data da publicação

Abril 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

Em abril de 2026, foi publicado no The Lancet Oncology o estudo BULLSEYE, com o título, em tradução livre, “¹⁷⁷Lu-PSMA-617 no câncer de próstata oligometastático hormônio-sensível: estudo aberto, randomizado, de fase II”. O trabalho investigou o uso do radiofármaco sem bloqueio hormonal concomitante em pacientes com recorrência após tratamento local, buscando retardar a progressão da doença e postergar o início da privação androgênica. Os resultados demonstraram prolongamento da sobrevida livre de progressão, com toxicidade predominantemente de baixo grau. Confira abaixo mais detalhes do estudo:

Objetivo

Avaliar se o tratamento com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 retarda a progressão em pacientes com câncer de próstata oligometastático hormônio-sensível recorrente após tratamento local.

Desenho do estudo

Ensaio clínico aberto, randomizado, de fase II, realizado em quatro centros nos Países Baixos e no Chipre.

Número de pacientes

Foram triados 78 pacientes e randomizados 59. A população analisada por protocolo incluiu 58 pacientes, com 29 em cada grupo.

Período de inclusão

De 20 de abril de 2020 a 29 de julho de 2024, com corte dos dados em 31 de março de 2025.

Materiais e Métodos

Os pacientes foram randomizados para ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 ou monitoramento ativo com início postergado da privação androgênica. O grupo experimental recebeu dois ciclos de 7,4 GBq, com intervalo de seis semanas. Dois ciclos adicionais eram permitidos na presença de doença residual com expressão de PSMA no PET e ausência de eventos adversos grau 3 ou maiores relacionados ao tratamento. O acompanhamento incluiu avaliações clínicas, PSA, exames de imagem, toxicidade e qualidade de vida. Pacientes do grupo controle poderiam receber o radiofármaco após progressão.

Desfechos

Os desfechos coprimários foram a proporção de pacientes com progressão nas primeiras 30 semanas e o tempo até progressão. A definição compreendia progressão clínica, incluindo início de tratamento sistêmico, progressão radiológica pelos critérios RECIST 1.1 ou aumento de 100% do PSA em relação ao basal. Os desfechos secundários incluíram tempo até o próximo tratamento sistêmico, resposta do PSA, tempo até início da privação androgênica, desenvolvimento de resistência à castração, segurança e qualidade de vida.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Foram incluídos pacientes com recorrência após prostatectomia ou radioterapia, com até cinco metástases no PET/TC PSMA, PSA maior que 1 ng/mL, tempo de duplicação do PSA menor que seis meses e SUVmax de pelo menos 15 em uma lesão. Os participantes deveriam apresentar ECOG 0 ou 1 e não ser candidatos a cirurgia ou radioterapia de resgate. Foram excluídos pacientes com metástases viscerais ou lesões maiores que 1 cm sem captação de PSMA. Privação androgênica prévia associada à radioterapia era permitida, desde que interrompida pelo menos seis meses antes da inclusão.

Resultados

As medianas de idade foram de 69 e 72 anos nos grupos experimental e controle, respectivamente. O número mediano de metástases foi de quatro em ambos os grupos, com comprometimento linfonodal em 83% e 72%. As medianas de PSA foram de 5,4 e 3,8 ng/mL, e os tempos medianos de duplicação do PSA foram de 3,5 e 3,7 meses.

Com seguimento mediano de 27 meses, a progressão nas primeiras 30 semanas ocorreu em 7% versus 93% dos pacientes (p<0,0001). A mediana de sobrevida livre de progressão foi de 25 versus 5 meses (HR 0,07; IC95% 0,03 a 0,17; p<0,0001), e o tempo mediano até o próximo tratamento sistêmico foi de 26 versus 6 meses (HR 0,09; IC95% 0,04 a 0,22; p<0,0001).

No grupo experimental, 83% apresentaram redução do PSA de pelo menos 50%, e 24% alcançaram resposta bioquímica completa.

Os eventos adversos mais frequentes com o radiofármaco foram xerostomia (66%), fadiga (55%) e náuseas (48%), predominantemente de baixo grau. Linfopenia grau 3 ocorreu em 10% e olho seco grau 3 em 3%, sem eventos relacionados ao tratamento de grau quatro ou mortes. A qualidade de vida foi mantida. No controle, 93% receberam ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 após progressão, e não houve diferença significativa entre os grupos no tempo até início da privação androgênica ou desenvolvimento de resistência à castração.

Conclusão do Trabalho

O tratamento com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 retardou a progressão da doença nessa população de pacientes com câncer de próstata oligometastático hormônio-sensível, com eventos adversos predominantemente de baixo grau.

Comentário Editorial

O BULLSEYE se insere na busca por estratégias para recorrência de doença oligometastática com objetivo de postergar a privação androgênica, explorada nos estudos STOMP e ORIOLE com terapia dirigida às metástases. Diferentemente desses ensaios, o BULLSEYE avaliou uma abordagem sistêmica com lutécio-PSMA em pacientes sem possibilidade de cirurgia ou radioterapia de resgate, o que impede comparações diretas de eficácia. O estudo de fase III PSMA-DC amplia essa investigação ao comparar ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 com observação após radioterapia estereotáxica em pacientes com doença oligometastática no PET PSMA, avaliando o benefício de acrescentar o radiofármaco ao tratamento local. Apesar dos resultados favoráveis, o BULLSEYE é um estudo pequeno, de fase II, e deve ser considerado apenas gerador de hipótese. A inclusão de progressão bioquímica no desfecho primário e o cruzamento da maioria dos controles para o radiofármaco reforçam a necessidade de confirmação antes de incorporar essa estratégia à prática.

Referência

Privé BM, Noordzij W, Muselaers CHJ, et al. [¹⁷⁷Lu]Lu-PSMA-617 in oligometastatic hormone sensitive prostate cancer (BULLSEYE): an open-label, randomised, phase 2 study. Lancet Oncol. 2026;27:461–469. doi:10.1016/S1470-2045(25)00762-4.