Carregando...
Resumos Comentados > UroOncologia > Câncer de Próstata > Doença Localizada > PROTEUS - Apalutamida Perioperatória no Câncer de Próstata Localizado de Alto Risco

PROTEUS - Apalutamida Perioperatória no Câncer de Próstata Localizado de Alto Risco

Autores do Artigo: 

Mary-Ellen Taplin, Martin Gleave, Neal D Shore, Angela Lopez-Gitlitz, Alexander Kretschmer, Eleni Efstathiou, Paul L Nguyen, Ronaldo Damião, Toshiyuki Kamoto, Ashley Ross, Alberto Briganti, Boris A Hadaschik, Axel Heidenreich, Álvaro Juárez Soto, Huihui Y

Journal

The New England Journal of Medicine

Data da publicação

Maio 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

O estudo PROTEUS, foi publicado no NEJM em maio de 2026 com o título “Apalutamida Perioperatória no Câncer de Próstata Localizado de Alto Risco”. O estudo avaliou o uso de apalutamida com terapia de privação androgênica (TDA) perioperatórios em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco ou localmente avançado, submetidos a prostatectomia radical. Confira a seguir mais detalhes do estudo:

Objetivo

Avaliar a eficácia e a segurança de 12 ciclos de tratamento perioperatório com apalutamida mais TDA em comparação com TDA mais placebo em pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco ou localmente avançado submetidos a prostatectomia radical.

Desenho do estudo

Foi um estudo clínico de fase 3, duplo-cego, internacional, randomizado na proporção de 1:1 e controlado por placebo.
Braço de intervenção: TDA contínua (agonista ou antagonista de GnRH) mais apalutamida na dose de 240 mg por dia, por 6 ciclos (28 dias cada) neoadjuvantes e 6 ciclos adjuvantes.
Braço controle: TDA contínua mais placebo, administrados com a mesma duração do braço de intervenção. Ambos os braços realizaram prostatectomia radical com dissecção de linfonodos pélvicos.
A estratificação foi por região (América do Norte, Europa, resto do mundo), envolvimento linfonodal (N0 vs N1), Gleason (7 vs 8-10)

Número de pacientes

2109 pacientes (1057 no braço da apalutamida e 1052 no braço do placebo).

Período de inclusão

Entre julho de 2019 e junho de 2022 (mediana de acompanhamento de 61,7 meses).

Materiais e Métodos

A análise estatística calculou um tamanho amostral de 2000 pacientes para obter 94% de poder estatístico para detectar diferença de 5 pontos Para a análise final de sobrevida livre de metástase, estimou-se que 477 eventos confeririam ao ensaio 85% de poder para detectar uma diferença de 25% no risco de metástase à distância ou morte (HR 0,75; alfa bilateral 0,04) do grupo apalutamida em relação ao placebo.percentuais na resposta patológica com nível de significância bidirecional de 0,01. 
Desfechos binários foram analisados via regressão logística com razão de chances ajustada pelos fatores de estratificação (região, acometimento linfonodal regional e escore de Gleason). Desfechos de tempo até o evento utilizaram modelo de riscos proporcionais de Cox e teste de log-rank estratificado. As análises seguiram o princípio de intenção de tratar.

Desfechos

Os desfechos co-primários foram: resposta patológica completa ou doença residual mínima (definida por estágio patológico ypT2 ou inferior associado a um T menor ou igual a 5 mm, ou estágio ypT0); e sobrevida livre de metástase, definida como o tempo da randomização até a primeira ocorrência de metástase à distância (detectada por imagem convencional ou PET PSMA), achado patológico de metástase à distância, ou óbito por qualquer causa.
Os desfechos secundários foram: sobrevida livre de eventos, definida como o tempo da randomização até recorrência bioquímica (dois aumentos consecutivos do PSA), recorrência local ou regional, metástase à distância ou óbito; tempo até o primeiro tratamento subsequente; tempo até metástase à distância; ausência de doença em 4 anos; sobrevida livre de metástase por imagem convencional; e sobrevida livre do PSA com recuperação dos níveis de testosterona superiores a 200 ng/dl.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Os pacientes elegíveis precisariam ter adenocarcinoma de próstata confirmado histologicamente; pacientes deveriam ser candidatos a prostatectomia radical; diagnóstico de câncer de próstata localizado de alto risco ou localmente avançado estabelecido por critérios clínicos (NCCN) e dados de biópsia; ausência de metástase por imagem convencional (estágio N1 pélvico foi permitido); status de performance do ECOG de 0 ou 1; capacidade clínica para receber terapia de privação androgênica por no mínimo 13 meses.

Resultados

Sobre a população, a idade mediana foi de 66 anos. Na avaliação basal, 95,8% dos pacientes apresentavam escore de Gleason igual ou superior a 8, 12,8% com linfonodo comprometido e o valor mediano do PSA era de 14,8 ng/mL. Houve desbalanço na proporção de pacientes que realizou PET-PSMA (apalutamida: 53,0%; placebo: 60,7%), fizeram o exame ao menos uma vez, 64,9% (n=686) no grupo apalutamida e 71,8% (n=755) no placebo. 
Quanto aos desfechos co-primários, a resposta patológica completa ou doença residual mínima ocorreram em 8,9% no grupo da apalutamida versus 1,0% no grupo do placebo. A razão de chances foi de 10,17 (IC 95%: 5,27 a 19,64; p < 0,001). Já a sobrevida livre de metástases em 5 anos foi de 78,2% no grupo da apalutamida versus 73,5% no grupo do placebo - HR 0,80 (IC 95%: 0,67 a 0,96; p = 0,02).


Os desfechos secundários, a sobrevida livre de eventos, tempo até o primeiro tratamento subsequente e tempo até metástase à distância demonstraram diferença a favor do grupo da TDA mais apalutamida (p < 0,001 para todas as comparações).
Não foi identificada diferença estatisticamente significativa em sobrevida livre de metástases nos pacientes que realizaram apenas imagens convencionais (HR 0.84; IC 95%, 0,67-1.07) 
Os eventos de grau 3 ou 4 ocorreram em 39,6% dos pacientes no grupo da apalutamida e em 31,0% no grupo do placebo, com destaque para rash no braço intervenção.

Conclusão do Trabalho

Os autores apontam que o tratamento perioperatório com TDA e apalutamida, em comparação à TDA perioperatória, esteve associado a aumento da taxa de resposta patológica completa/doença residual mínima, da sobrevida livre de metástase, do tempo para tratamento subsequente em pacientes com câncer de próstata de alto risco localizado ou localmente avançado submetidos à prostatectomia radical. Os eventos adversos foram mais incidentes no grupo tratado com a apalutamida. Os autores apontam limitações: como a introdução do uso do PET-PSMA após emenda do estudo, uso de TDA perioperatória invés de prostatectomia radical somente (visando o cegamento), a convergência das curvas de sobrevida livre de metástase.

Comentário Editorial

Com apresentação na sessão plenária da ASCO 2026 e publicação no New England Journal of Medicine, o estudo PROTEUS foi um estudo de fase III, randomizado, internacional, placebo controlado, que testou o papel da apalutamida associada à TDA perioperatória em pacientes com câncer de próstata de alto risco ou localmente avançado submetidos à prostatectomia. 
O câncer de próstata de alto risco e localmente avançado apresenta taxas de recorrência superiores a 40% em séries retrospectivas (2-3). Neste contexto, estudos de fase II, testaram estratégias neoadjuvantes ou perioperatórias. No estudo de McKay et al (4), foi testada a terapia neoadjuvante intensificada de abiraterona + prednisona e leuprorrelina com ou sem apalutamida ambos por 6 ciclos. Neste estudo, a adição de apalutamida não resultou em aumento da taxa de resposta patológica completa ou doença residual mínima (22 x 20%). O estudo ARNEO testou terapia neoadjuvante com apalutamida e degarelix 3 meses neoadjuvante versus degarelix neoadjuvante, com aumento da taxa de doença residual mínima de 38% vs. 9,1% (ORR 4,2 , p = 0,002) (5). 
No estudo PROTEUS, em comparação à placebo e TDA perioperatória, a intervenção demonstrou aumento da taxa de resposta patológica completa e doença residual mínima, além de ganho em sobrevida livre de metástases (uso combinado de PET PSMA e imagens convencionais). No acompanhamento, também foi demonstrado ganhos em desfechos secundários, como tempo até tratamento subsequente, tempo até metástase à distância e sobrevida livre de eventos. Seria, então, o novo padrão de tratamento?
O desfecho de resposta patológica completa e doença residual mínima não apresentam validação como desfechos substitutos em câncer de próstata. Já a sobrevida livre de metástases apresenta evidências como substituto de sobrevida global em câncer de próstata (6), contudo com uso de imagens convencionais. E no estudo PROTEUS, ao analisar apenas a SLM com imagens convencionais, o desfecho secundário foi negativo. Cabe ressaltar ainda, o desbalanço no uso do PET PSMA entre os braços apalutamida com 53,0% e placebo 60,7%, podendo ter influenciado o desfecho primário, considerando a diferença de sensibilidade entre os métodos. Outro ponto significativo, é o uso de TDA perioperatória no braço controle, invés de prostatectomia radical isolada, apesar da justificativa dos autores de algo necessário para o cegamento do braço controle, o uso de TDA perioperatório não é estratégia padrão. 
Apesar das limitações citadas, o estudo selecionou pacientes de alto risco com um número robusto de casos, com desenho de fase III, internacional, randomizado e controlado por placebo, e tornará mais complexa a discussão da abordagem da doença localizada. O fator preponderante será a seleção de pacientes para adoção desta estratégia. Dados de validação do uso de sobrevida livre de metástases com PET PSMA e acompanhamento de longo prazo com desfecho de sobrevida global podem corroborar a adoção desta estratégia futuramente.

Referência

Taplin ME, Gleave M, Shore ND, Lopez-Gitlitz A, Kretschmer A, Efstathiou E, Nguyen PL, Damião R, Kamoto T, Ross A, Briganti A, Hadaschik BA, Heidenreich A, Juárez Soto Á, Ye H, Gotto G, Rooney B, Tian SK, Wetherhold L, Miladinovic B, McCarthy SA, Evans CP, Kibel AS; PROTEUS Investigators. Perioperative Apalutamide in High-Risk Localized Prostate Cancer. N Engl J Med. 2026 Aug 6;395(6):546-560. doi: 10.1056/NEJMoa2603878. PMID: 42223077.