Carregando...
Resumos Comentados > UroNeurologia > Infecção Urinária > As infecções urinárias recorrentes em mulheres podem ser curadas? Artigo de revisão

As infecções urinárias recorrentes em mulheres podem ser curadas? Artigo de revisão

Autores do Artigo: 

Valeerat Swatesutipun

Journal

Continence Reports

Data da publicação

Janeiro 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

A infecção do trato urinário recorrente (ITUr) representa um desafio clínico significativo na prática urológica, afetando principalmente mulheres adultas. Definida como a ocorrência de pelo menos dois episódios de cistite não complicada em seis meses ou três episódios em um ano, a ITUr impacta substancialmente a qualidade de vida das pacientes, com prevalência que aumenta progressivamente com a idade e o status menopausal. O manejo adequado dessa condição requer uma abordagem escalonada e personalizada, considerando tanto as opções antibióticas quanto as alternativas não antibióticas disponíveis atualmente.

Objetivo

Revisar sistematicamente as evidências científicas atuais sobre a fisiopatologia, diagnóstico e estratégias de manejo da infecção urinária recorrente em mulheres, avaliando a eficácia de intervenções antibióticas e não antibióticas para prevenção e tratamento.

Desenho do estudo

Artigo de revisão narrativa da literatura científica. Trata-se de uma revisão que compila dados de múltiplos ensaios clínicos, estudos observacionais e metanálises, abrangendo coletivamente milhares de pacientes em diferentes protocolos de tratamento.

Período de inclusão

A revisão abrange literatura científica publicada até dezembro de 2022.

Materiais e Métodos

O artigo analisa sistematicamente as seguintes estratégias de manejo da ITUr:

  • Modificações comportamentais e de estilo de vida: hidratação adequada, esvaziamento vesical completo e frequente, higiene perineal apropriada.
  • Tratamento antibiótico agudo: Nitrofurantoína, Trimetoprim-Sulfametoxazol (TMP-SMX) e Fosfomicina em cursos de curta duração (≤7 dias) para episódios sintomáticos.
  • Profilaxia antibiótica: regimes contínuos em baixas doses e profilaxia pós-coital.
  • Profilaxia não antibiótica: estrogênio vaginal (para mulheres na pós-menopausa), D-manose, produtos à base de cranberry, probióticos contendo Lactobacillus, instilações intravesicais de ácido hialurônico associado a sulfato de condroitina, e imunoterapias/vacinas (Uro-vaxom/OM-89, MV 140/Uromune, FimH e ExPEC4V).

Desfechos

Redução na frequência de episódios de ITUr por paciente por ano, taxa de erradicação bacteriana, segurança e tolerabilidade das terapias, impacto na qualidade de vida e desenvolvimento de resistência bacteriana.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

A revisão concentra-se em mulheres adultas com ITUr não complicada. Foram excluídos casos de ITUr complicada, incluindo aqueles associados a anomalias anatômicas ou funcionais do trato urinário, cateterismo vesical permanente ou intermitente, e infecções do trato urinário superior (pielonefrite).

Resultados

A revisão demonstra que o manejo eficaz da ITUr segue uma hierarquia de intervenções:

Nível 1 – Modificações comportamentais: constituem a base do tratamento, com impacto significativo quando implementadas adequadamente.

Nível 2 – Tratamento agudo: Nitrofurantoína, TMP-SMX e Fosfomicina mantêm-se como primeira linha, com eficácia comprovada em cursos de curta duração. A confirmação diagnóstica por cultura de urina é mandatória antes de cada tratamento.

Nível 3 – Profilaxia antibiótica: eficaz na redução de recorrências, porém limitada pelo risco crescente de resistência bacteriana e efeitos colaterais a longo prazo (toxicidade pulmonar com nitrofurantoína, ruptura de tendão com fluoroquinolonas).

Nível 4 – Profilaxia não antibiótica:

  • Estrogênio vaginal: altamente eficaz em mulheres na pós-menopausa, restaurando a flora vaginal normal de Lactobacillus e reduzindo o pH vaginal.
  • D-manose e cranberry: mostram benefícios variáveis, com melhor resposta em subgrupos específicos.
  • Instilações intravesicais (ácido hialurônico + sulfato de condroitina): reduzem significativamente as recorrências ao restaurar a camada de glicosaminoglicanos da bexiga.
  • Probióticos: resultados inconsistentes, com alguns estudos demonstrando redução modesta de recorrências.
  • Imunoterapias: Uro-vaxom (OM-89) e MV 140 (Uromune) emergem como opções promissoras, com recomendação das diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU). Vacinas de próxima geração (FimH e ExPEC4V) encontram-se em desenvolvimento avançado.

Conclusão do Trabalho

A "cura" da ITUr não é um objetivo realista em todos os casos, mas o controle efetivo é alcançável através de uma abordagem personalizada e escalonada. O diagnóstico preciso de cada episódio, confirmado por cultura de urina, é fundamental. O manejo deve priorizar inicialmente as modificações comportamentais e, progressivamente, incorporar métodos profiláticos não antibióticos, reservando a profilaxia antibiótica contínua apenas para casos refratários. Essa estratégia minimiza o desenvolvimento de resistência antimicrobiana enquanto mantém a qualidade de vida das pacientes.

Comentário Editorial

Este artigo de revisão aborda uma questão clínica de grande relevância prática: como otimizar o manejo da ITUr em mulheres minimizando a dependência de antibióticos.

A mudança de paradigma proposta — da supressão antibiótica crônica para a restauração das defesas naturais do hospedeiro — alinha-se perfeitamente com as preocupações globais sobre resistência antimicrobiana.

Do ponto de vista prático, a hierarquização das intervenções oferece um roteiro claro para a tomada de decisão. A ênfase na confirmação diagnóstica por cultura de urina antes de cada tratamento é particularmente relevante, pois evita o tratamento empírico desnecessário e contribui para a vigilância epidemiológica de resistência.

A restauração da flora vaginal normal através do estrogênio vaginal em mulheres na pós-menopausa representa uma abordagem fisiológica elegante, com forte evidência de eficácia.

As imunoterapias emergem como uma "porta nova" promissora no arsenal terapêutico. O Uro-vaxom, já recomendado pelas diretrizes da EAU, oferece uma alternativa não antibiótica com mecanismo de ação baseado na estimulação da imunidade inata. Vacinas de próxima geração, como FimH e ExPEC4V, que visam especificamente os mecanismos de adesão bacteriana, representam perspectivas futuras interessantes.

Limitações importantes devem ser consideradas: a heterogeneidade metodológica entre os estudos compilados, a variabilidade na resposta individual às terapias não antibióticas, e a necessidade de estudos de longo prazo para avaliar a sustentabilidade das respostas. Além disso, a aplicabilidade clínica de algumas intervenções pode ser limitada por questões de custo e disponibilidade em diferentes contextos de saúde.

Em conclusão, este trabalho fornece uma base sólida para a implementação de estratégias de manejo mais racionais e sustentáveis da ITUr, com potencial significativo para reduzir o uso indiscriminado de antibióticos mantendo o controle efetivo da doença.

Referência

Swatesutipun V. Can recurrent UTIs in women be cured? Review article. Continence Reports. 2023;5:100021. https://doi.org/10.1016/j.contre.2023.100021