
Neurossífilis: uma causa incomum de disfunção do trato urinário inferior neurógeno
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Introdução
A neurossífilis é uma manifestação rara da infecção por Treponema pallidum no sistema nervoso central. Historicamente, entre os séculos XVII e XIX, a neurossífilis era extremamente prevalente, ocorrendo em 25-35% dos pacientes com sífilis e representando uma das causas mais comuns de disfunção neurogênica do trato urinário inferior (DLUIN). Com o advento da penicilina na década de 1940, houve declínio acentuado na incidência de sífilis e, consequentemente, de neurossífilis. Atualmente, a neurossífilis ocorre em apenas 6,5% dos pacientes tratados para sífilis primária, tornando-se uma condição rara nos consultórios de urologia moderna. Apesar dessa raridade, seus efeitos sobre a função vesical permanecem pouco compreendidos na era contemporânea.
Objetivo
Relatar dois casos de neurossífilis com disfunção vesical resultante e revisar a literatura contemporânea sobre o impacto urológico dessa condição.
Desenho do estudo
Série de casos clínicos com revisão de literatura.
Número de pacientes
2 casos clínicos apresentados pelos autores, com revisão de 18 casos adicionais da literatura contemporânea.
Período de inclusão
Casos clínicos apresentados em 2023, com revisão de literatura de 1937 a 2014.
Materiais e Métodos
Os dois pacientes foram submetidos a avaliação urológica completa, incluindo história clínica, exame físico, estudos de imagem (ressonância magnética de coluna vertebral) e testes de líquido cefalorraquidiano para confirmação diagnóstica de neurossífilis. Ambos realizaram estudos urodinâmicos conforme os padrões da International Continence Society (ICS), que incluíram avaliação de sensibilidade vesical, capacidade, complacência, pressões de enchimento e esvaziamento, além de eletromiografia de superfície do esfíncter externo. Um dos pacientes também foi submetido a cistoscopia.
Desfechos
Desfechos primários: achados urodinâmicos (capacidade vesical, complacência, pressões detrusoras, presença de hiperatividade detrusora neurogênica) e resposta ao tratamento clínico. Desfechos secundários: função renal, resíduo pós-miccional e sintomas urinários.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão: pacientes com diagnóstico confirmado de neurossífilis (testes sorológicos positivos e positividade no líquido cefalorraquidiano) apresentando disfunção do trato urinário inferior.
Resultados
Caso 1: Homem de 28 anos, imigrante recente da Arábia Saudita, apresentou-se com frequência urinária, urgência, retenção urinária e incontinência por urgência. O exame neurológico revelou nível sensitivo em T12, Romberg negativo e sinal de Babinski ascendente. Resíduo pós-miccional inicial superior a 300 mL. Ressonância magnética evidenciou meningite mielítica secundária a neurossífilis. Após tratamento com penicilina G de alta dose, o resíduo pós-miccional reduziu para 72 mL em 10 meses. Estudos urodinâmicos revelaram hiperatividade detrusora neurogênica (HDN) com volume de 211 mL e pressões de pico de 100 cm de água, associada a urgência e incontinência. Durante a micção, apresentou contração detrusora de pico de 50 cm H₂O, fluxo máximo de 8 mL/s e relaxamento normal do esfíncter ao eletromiograma. O paciente foi tratado com oxibutinina 10 mg oral por 6 meses com melhora parcial, seguida pela adição de mirabegron 50 mg. Utilizava preservativo coletor para aproximadamente 500 mL de incontinência diária inicialmente, reduzindo para 100-300 mL em seguimento de 4 meses. Função renal preservada e sem hidronefrose. Estava considerando injeção intravesical de toxina botulínica onabotulínica (200 unidades) para incontinência por urgência.
Caso 2: Homem de 52 anos, sem-abrigo, apresentou-se com distúrbios da marcha, anormalidades comportamentais e retenção urinária associada a lesão renal aguda (LRA). Ao diagnóstico, apresentava retenção urinária com 900 mL na bexiga. Creatinina inicial de 368 μmol/L (com função prévia normal) e tomografia computadorizada não contrastada evidenciou hidronefrose bilateral. Ressonância magnética de coluna revelou alterações inespecíficas em sinal T2 intramedular na coluna torácica, compatível com neurossífilis. Testes de líquido cefalorraquidiano confirmaram neurossífilis. Recebeu alta com cateter urinário após resolução da LRA. Estudos urodinâmicos realizados 4 meses após diagnóstico revelaram primeira sensação a 69 mL, desejo forte a 102 mL e capacidade vesical de 187 mL. Na capacidade máxima, apresentava HDN com pressões de pico de 40 cm de água. Não havia contração detrusora voluntária mesmo com enchimento adicional. Eletromiografia de superfície não sugeriu dissinergia detrusor-esfincteriana, embora isso não pudesse ser completamente excluído. Cistoscopia revelou trabecularização leve e próstata pequena. Atualmente em manejo com cateter urinário permanente, com planos de transição para cateterismo intermitente limpo se suas circunstâncias sociais melhorarem.
Revisão de literatura: A análise de 18 casos adicionais da literatura contemporânea revelou apresentações variáveis. Os achados urodinâmicos mais comuns incluem capacidade vesical aumentada, hiperatividade detrusora neurogênica e pressões de esvaziamento baixas a normais. Alguns casos apresentaram dissinergia detrusor-esfincteriana e complacência vesical reduzida. Os tratamentos variaram desde medidas conservadoras (esvaziamento programado) até cateterismo intermitente com medicações anticolinérgicas, e em alguns casos, procedimentos cirúrgicos como enterocistoplastia e incisão do colo vesical.
Conclusão do Trabalho
Os dois casos apresentados demonstram que a neurossífilis pode resultar em disfunção vesical significativa, com achados urodinâmicos variáveis. Ambos os pacientes apresentavam hiperatividade detrusora com capacidade vesical reduzida no momento da avaliação urodinâmica, porém com apresentações clínicas distintas: um com incontinência por urgência e outro com retenção urinária associada a comprometimento renal. Diferentemente da maioria dos relatos da literatura, ambos foram avaliados precocemente durante o curso ativo da doença enquanto recebiam tratamento para neurossífilis. A avaliação urológica e urodinâmica precoce mostrou-se benéfica em ambos os casos, permitindo manejo apropriado e preservação da função renal em um deles.
Comentário Editorial
A neurossífilis representa uma causa rara, porém importante, de disfunção do trato urinário inferior que não deve ser negligenciada na prática urológica contemporânea. Historicamente, essa condição foi amplamente estudada nas décadas de 1920 a 1950, quando era mais prevalente, fornecendo dados valiosos sobre sua apresentação clínica e achados urodinâmicos. A literatura mais recente, incluindo os casos apresentados, demonstra que as manifestações urológicas podem ser significativas e variáveis, com alguns pacientes apresentando complicações graves como lesão renal aguda e hidronefrose.A principal limitação do conhecimento atual é a escassez de dados sobre a evolução natural da disfunção vesical durante e após o tratamento da neurossífilis. Os casos apresentados sugerem que a avaliação urológica precoce e os estudos urodinâmicos são ferramentas valiosas para orientar o manejo apropriado e prevenir complicações renais. O tratamento deve ser individualizado com base nos achados urodinâmicos, variando desde terapias conservadoras com anticolinérgicos e agonistas beta-3 até cateterismo intermitente ou permanente, conforme necessário.Recomenda-se que pacientes com diagnóstico de neurossífilis sejam avaliados precocemente por especialista em urologia funcional e neuro-urologia, particularmente aqueles com sintomas urinários, para permitir estratificação de risco e implementação de estratégias de manejo que preservem a função renal e a qualidade de vida. Estudos prospectivos futuros seriam valiosos para melhor compreender a história natural dessa condição e otimizar as estratégias terapêuticas na era moderna.
Referência
Playfair M, Welk B. Neurosyphilis-an uncommon cause of neurogenic lower urinary tract dysfunction. Continence Reports. 2023;6:100024.

