
Zeragem de pressões em urodinâmica: revisitando a prática atual e a interpretação de pressões
Autores do Artigo:
Journal
Data da publicação
Autor do Resumo

Editor de Seção

Introdução
A urodinâmica é considerada o padrão-ouro para avaliação da disfunção do trato urinário inferior. Desde 1976, a International Continence Society (ICS) tem priorizado a padronização de terminologia e metodologia para garantir exames de alta qualidade. Dentre as recomendações, destaca-se a zeragem dos transdutores de pressão para a pressão atmosférica antes da inserção dos cateteres — prática fundamentada primariamente em argumentos conceituais e consenso de especialistas, sem evidências diretas que comprovem superioridade clínica sobre a zeragem in vivo (com cateteres já posicionados). Na prática clínica, a zeragem in vivo representa o desvio mais frequente das recomendações da ICS, ocorrendo em até 30% dos exames. Este trabalho revisa criticamente os fundamentos conceituais e práticos da zeragem atmosférica e explora se a zeragem in vivo compromete a interpretação urodinâmica.
Objetivo
Examinar criticamente a literatura disponível sobre zeragem atmosférica versus zeragem in vivo em urodinâmica, com foco nas implicações práticas, técnicas e interpretativas na prática urodinâmica contemporânea.
Desenho do estudo
Revisão estruturada da literatura, suplementada por três registros urodinâmicos ilustrativos comparativos.
Número de pacientes
- 20 artigos incluídos na síntese qualitativa (8 da busca em base de dados, 5 publicações do escritório da ICS, 6 referências dos ICS Standards 2024 e 1 artigo de survey sobre adesão às padronizações da ICS)
- 3 pacientes submetidos a avaliações urodinâmicas ilustrativas (uma mulher com incontinência urinária de esforço, um homem com sintomas do trato urinário inferior secundários a hiperplasia benigna da próstata e um paciente com disfunção neurogênica do trato urinário inferior)
Período de inclusão
Busca abrangendo o período de 1968 a janeiro de 2025.
Materiais e Métodos
Foi conduzida uma busca estruturada nas bases PubMed e SciELO utilizando os termos "urodynamic" AND "zero" OR "zeroing" AND "pressure".
De 122 registros identificados, 104 foram excluídos após triagem de título e resumo por irrelevância ou associação com especialidades não urológicas. Dos 18 artigos restantes avaliados em texto completo, 10 foram excluídos por não abordarem calibração de pressão ou por não seguirem metodologia baseada na ICS, resultando em 8 artigos da busca em base de dados. Adicionalmente, foram incluídos documentos metodológicos complementares da ICS, totalizando 20 artigos para síntese qualitativa.
Os autores identificaram cinco justificativas distintas para a zeragem atmosférica, quatro provenientes da ICS e uma de um estudo adicional:
- Pressões de repouso são reais e não podem ser zero
- A zeragem atmosférica facilita comparações interinstitucionais
- Pressões intracavitárias são influenciadas por fatores específicos do paciente
- A zeragem in vivo pode interferir na interpretação da fase miccional
- Pressões obtidas imediatamente após inserção do cateter podem não refletir valores basais verdadeiros
Para ilustração prática, três pacientes com disfunções urinárias bem caracterizadas foram submetidos a dois estudos urodinâmicos consecutivos na mesma sessão — um com zeragem atmosférica e outro com zeragem in vivo — para comparação direta dos traçados e parâmetros derivados.
Desfechos
- Avaliação das justificativas teóricas para zeragem atmosférica à luz das evidências disponíveis
- Comparação prática entre zeragem atmosférica e in vivo quanto a valores basais de pressão, pressão detrusora, índices derivados e conclusões diagnósticas
- Avaliação da adesão às padronizações da ICS na prática clínica
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão:
- Estudos sobre urodinâmica envolvendo análise pressão-fluxo
- Discussão sobre técnicas de zeragem de pressão, seleção de pressão de referência ou padronização em urodinâmica
- Orientações, recomendações ou opiniões de especialistas alinhadas com metodologia da ICS
- Publicações em inglês indexadas no PubMed ou SciELO entre 1968 e janeiro de 2025
Exclusão:
- Estudos não relacionados à metodologia urodinâmica (ensaios farmacológicos sem descrição técnica, experimentos animais, sistemas não urológicos)
- Publicações de áreas médicas não correlacionadas
- Relatos que não abordavam zeragem de pressão ou padronização técnica
- Duplicatas, cartas, comentários, editoriais e artigos sem texto completo disponível
Resultados
A análise da literatura demonstrou que a maioria dos estudos reproduz as justificações teóricas originalmente propostas pela ICS para apoiar a zeragem atmosférica, enquanto outros apenas citam a recomendação sem fornecer justificativa adicional. Não foram identificados estudos que comparassem diretamente zeragem atmosférica e in vivo em termos de desfechos diagnósticos, prognósticos ou terapêuticos, nem estudos que desencorajassem o uso da zeragem in vivo.
Três estudos avaliaram práticas urodinâmicas e relataram que a falha na zeragem para atmosfera constitui o desvio mais frequente do protocolo da ICS, observado em até 30% dos traçados, embora os autores reconheçam que tal desvio não necessariamente compromete a interpretação.Nos três casos ilustrativos, ambos os métodos de zeragem produziram diferentes valores basais absolutos, mas resultaram em pressões detrusoras semelhantes, índices-chave preservados e conclusões diagnósticas e de manejo inalteradas:
Caso 1 (mulher com incontinência urinária de esforço):
- zeragem atmosférica resultou em Pves basal de 42,4 cmH₂O e Pabd de 39,9 cmH₂O (Pdet basal = 2,5 cmH₂O) com VLPP de 121 cmH₂O;
- zeragem in vivo resultou em pressões basais de 0 cmH₂O com VLPP de 107 cmH₂O. Diagnóstico e conduta não se alteraram.
Caso 2 (homem com LUTS/HBP):
- zeragem atmosférica mostrou Qmax de 3 mL/s, Pdet, Qmax de 47 cmH₂O, BOOI de 41 e BCI de 62;
- zeragem in vivo mostrou Qmax de 3 mL/s, Pdet.Qmax de 44 cmH₂O, BOOI de 38 e BCI de 59.
Ambos os registros resultaram em interpretação de bexiga hipocontrátil com obstrução de via de saída.
Caso 3 (paciente com disfunção neurogênica por lesão medular torácica):
- zeragem atmosférica mostrou Pves basal de 18,6 cmH₂O e Pabd de 16 cmH₂O (Pdet basal = 2,6 cmH₂O), capacidade cistométrica máxima reduzida (210 mL) e DOLPP de 60 cmH₂O;
- zeragem in vivo mostrou pressões basais de 0 cmH₂O, capacidade máxima de 220 mL e DOLPP de 58 cmH₂O. Diagnóstico e implicações clínicas permaneceram os mesmos.
Um auditoria conduzida em 2009 no País de Gales revelou que aproximadamente 40% dos profissionais não demonstravam compreensão sobre o procedimento correto de zeragem, mesmo em centros de alto volume com cursos formais, evidenciando lacunas relevantes em educação e implementação.
Conclusão do Trabalho
A recomendação de zeragem atmosférica fundamenta-se em argumentos conceituais e carece de dados comparativos de desfechos. Os autores concluem que, em sistemas com transdutores externos preenchidos com água, a zeragem in vivo cuidadosamente realizada — após fluxo adequado dos cateteres, estabilização do sinal e confirmação de transmissão adequada de pressão — não parece comprometer a integridade ou a interpretabilidade das avaliações urodinâmicas na maioria dos cenários clinicamente relevantes. Este método não preserva valores absolutos de Pves ou Pabd referenciados à atmosfera, mas preserva a informação de mudança de pressão, a morfologia dos traçados e o Pdet calculado, que são os parâmetros que usualmente orientam a interpretação urodinâmica.
A zeragem in vivo não deve ser utilizada para compensar qualidade inadequada de sinal, desvio, amortecimento ou malposicionamento de cateter.
Comentário Editorial
A padronização liderada pela ICS ao longo de quase cinco décadas representou um avanço fundamental para a urodinâmica, estabelecendo um arcabouço metodológico robusto que sustenta reprodutibilidade, acurácia diagnóstica e segurança na tomada de decisões clínicas. O presente trabalho traz uma contribuição relevante ao questionar criticamente uma recomendação específica — a zeragem atmosférica — que, apesar de amplamente difundida, não dispõe de evidências comparativas que sustentem sua superioridade clínica sobre a zeragem in vivo.
Os autores apresentam argumentos fisiologicamente coerentes: na maioria das condições urodinâmicas, as decisões clínicas baseiam-se em variações de pressão e no cálculo do Pdet, e não em valores absolutos de repouso isolados.
Os casos ilustrativos demonstram de forma didática que, mesmo com diferenças nos valores basais entre os métodos, os parâmetros derivados e as conclusões diagnósticas permaneceram inalterados.
É importante reconhecer as limitações do estudo. Trata-se de uma revisão narrativa estruturada com número limitado de artigos, e os três casos ilustrativos têm propósito didático e não constituem análise comparativa de desfechos. A discussão aplica-se primariamente a sistemas preenchidos com água com transdutores externos, não sendo extrapolável para tecnologias como transdutores de ponta de cateter ou sistemas pressurizados a ar. Adicionalmente, a ausência de estudos comparativos prospectivos impede conclusões definitivas sobre equivalência entre os métodos.
Do ponto de vista prático, o trabalho aponta para uma questão de implementação relevante: a zeragem in vivo já é o desvio mais comum das normas da ICS na prática mundial, e insistir em padrões técnicos não validados pode, paradoxalmente, desestimular a adoção mais ampla da urodinâmica em contextos com recursos limitados. Simplificar etapas que não produzam diferenças clinicamente significativas pode liberar atenção para outros aspectos de controle de qualidade mais impactantes, como verificação de transmissão de sinal, descarga adequada de cateteres e confirmação de estabilidade basal.
Como perspectivas futuras, estudos prospectivos comparativos devem avaliar diretamente a concordância diagnóstica entre zeragem atmosférica e in vivo, a experiência do usuário, o reconhecimento de artefatos e, fundamentalmente, desfechos clínicos. Até que tais evidências estejam disponíveis, parece razoável que a comunidade urológica reconheça a zeragem in vivo como uma prática aceitável em sistemas preenchidos com água, desde que acompanhada de rigorosas medidas de controle de qualidade. A neutralidade científica deste trabalho merece aplauso: ao invés de defender o abandono da zeragem atmosférica, os autores propõem uma reavaliação crítica baseada em evidências, reconhecendo ao mesmo tempo a superioridade metodológica do padrão atmosférico e a ausência de dados que sustentem sua superioridade clínica.
Referência
Nascimento LAP, Pinto VBP, Costa CH, Gomes CM. Zeroing Pressures in Urodynamics: Revisiting Current Practice and Pressure Interpretation. Neurourology and Urodynamics. 2026;1–10. https://doi.org/10.1002/nau.70394

