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Associação entre o vírus da hepatite C e bexiga hiperativa: um estudo transversal baseado no NHANES 2013–2018

Autores do Artigo: 

Yiming Ding, Tonglei Zhao, Jie Ji, Zejun Wang, Dakun Zhang, Zhicheng Ye, Ming Chen, Weipu Mao, Jianping Wu

Journal

BMC Urology

Data da publicação

Maio 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

A bexiga hiperativa (BH) é uma condição urológica comum, caracterizada principalmente por urgência urinária, frequentemente acompanhada de frequência urinária e noctúria, com ou sem incontinência urinária de urgência, na ausência de infecção do trato urinário ou outra patologia evidente. Nos Estados Unidos, a prevalência de BH é de aproximadamente 16% em homens e 16,9% em mulheres, aumentando com a idade. Estima-se que 363 milhões de pessoas sejam afetadas em oito grandes países, projetando-se 401,6 milhões para 2030. A infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) está associada a inflamação sistêmica e complicações extra-hepáticas, e estudos prévios já demonstraram prevalência elevada de BH em pacientes com cirrose relacionada à hepatite viral. No entanto, evidências populacionais em larga escala que vinculem diretamente HCV à BH permaneciam limitadas. Este estudo utilizou dados do NHANES (National Health and Nutrition Examination Survey) para investigar essa associação em adultos.

Objetivo

 Investigar a associação entre a infecção pelo vírus da hepatite C (HCV) e a bexiga hiperativa (BH) em adultos.

Desenho do estudo

Estudo transversal baseado em dados populacionais do NHANES 2013–2018. Foram empregadas regressão logística multivariada (três modelos com ajuste progressivo de covariáveis), análise de subgrupos com testes de interação, pareamento por escore de propensão (PSM), ponderação por probabilidade inversa (IPTW) e ponderamento por sobreposição (OW) para controle de fatores de confusão. Análise de E-value foi utilizada para avaliar robustez contra confundidores não medidos, e análises de sensibilidade e especificidade avaliaram o valor preditivo do HCV para BH.

Número de pacientes

14.012 participantes (3.119 com BH e 10.893 sem BH).

Período de inclusão

2013–2018 (ciclos do NHANES).

Materiais e Métodos

A população inicial do NHANES 2013–2018 compreendeu 29.400 participantes.

Foram excluídos indivíduos com dados faltantes para avaliação de BH (n = 14.526) ou de HCV (n = 862), participantes com idade inferior a 20 ou igual ou superior a 80 anos, e aqueles com condições que poderiam afetar a função vesical (infecções do trato urinário, litíase urinária, doenças prostáticas), resultando em 14.012 participantes.

A BH foi definida pelo Overactive Bladder Symptom Score (OABSS) ≥ 3, aplicado por entrevistadores treinados em questionários face a face.

A infecção por HCV foi definida por teste positivo para HCV-RNA (teste de amplificação de ácido nucleico ) ou autorrelato de diagnóstico médico prévio.

As covariáveis ajustadas incluíram idade, sexo, raça, razão de renda sobre a linha de pobreza (PIR), consumo de álcool, tabagismo, hipertensão e diabetes. O HCV-RNA foi medido quantitativamente em soro ou plasma.

Desfechos

O desfecho principal foi a associação entre HCV e BH, expressa como odds ratio (OR) com intervalo de confiança de 95%.

Desfechos secundários incluíram a consistência da associação em subgrupos demográficos e clínicos, o valor preditivo do HCV para BH (sensibilidade e especificidade) e a robustez da associação frente a confundidores não medidos.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Inclusão:

  • adultos com idade entre 20 e 80 anos,
  • participantes do NHANES 2013–2018, com dados completos para BH e HCV.

Exclusão:

  • dados faltantes para avaliação de BH ou HCV;
  • idade < 20 ou ≥ 80 anos; presença de infecção do trato urinário,
  • litíase urinária ou doenças prostáticas (condições que poderiam afetar a função vesical).

Resultados

Os grupos com e sem BH diferiram significativamente quanto a idade (média de 57,98 vs. 46,14 anos), sexo (proporção feminina de 62,61% vs. 48,98%), presença de diabetes (22,15% vs. 8,79%), hipertensão (52,36% vs. 29,65%), tabagismo (49,61% vs. 42,11%) e prevalência de HCV (1,80% vs. 0,77%).

A regressão logística demonstrou associação significativa entre HCV e BH em todos os modelos:

  • Modelo 1 (não ajustado): OR = 2,92 (IC 95% 2,12–4,02; p < 0,001)
  • Modelo 2 (ajustado por idade, sexo e raça): OR = 2,60 (IC 95% 1,85–3,63; p < 0,001)
  • Modelo 3 (ajustado por idade, sexo, raça, PIR, tabagismo, consumo de álcool, hipertensão e diabetes): OR = 2,06 (IC 95% 1,46–2,90; p < 0,001)

O E-value para o Modelo 3 foi de 2,91, indicando robustez frente a confundidores não medidos.

Após pareamento por escore de propensão (PSM 1:1), a associação se manteve significativa: Modelo 3 OR = 1,86 (IC 95% 1,24–2,79; p = 0,003).

As análises de sensibilidade por IPTW (OR = 2,02; IC 95% 1,42–2,86; p < 0,001) e OW (OR = 1,99; IC 95% 1,40–2,83; p < 0,001) confirmaram esses achados.

A análise de subgrupos demonstrou maior prevalência de BH entre pacientes com HCV nos seguintes grupos: idade ≥ 59 anos (OR = 10,24), sexo feminino (OR = 6,96), PIR < 1,3 (OR = 2,87), negros não hispânicos (OR = 8,91), tabagistas (OR = 3,77), consumidores de álcool (OR = 2,14), hipertensos (OR = 3,39) e diabéticos (OR = 6,75).

Todos os testes de interação foram não significativos (P > 0,05), indicando consistência da associação em todos os subgrupos.

O HCV como critério diagnóstico positivo para BH apresentou sensibilidade de 40,3% e especificidade de 77,9%, sugerindo valor preditivo moderado.

Conclusão do Trabalho

Os achados indicam correlação significativa entre HCV e BH. Recomenda-se que estratégias de saúde pública incluam a triagem de BH em indivíduos infectados por HCV, integrando o manejo de sintomas urinários à via clínica do HCV. Estudos prospectivos de coorte e investigações mecanísticas são necessários para validar a relação causal e explorar os alvos de intervenção.

Comentário Editorial

Este estudo representa a primeira investigação de base populacional em larga escala a explorar a associação entre HCV e BH, utilizando a robusta amostra do NHANES 2013–2018. A consistência dos achados por múltiplos métodos estatísticos (regressão logística com ajustes progressivos, PSM, IPTW e OW) e a análise de E-value conferem credibilidade à associação observada, mesmo considerando a inerente limitação do delineamento transversal, que impede o estabelecimento de causalidade.

Os autores propõem quatro mecanismos potenciais para a associação: (1) inflamação sistêmica — pacientes com HCV apresentam biomarcadores inflamatórios elevados (SII, NLR, PLR), que também estão correlacionados à BH; (2) disfunção imune — a hepatopatia crônica compromete a barreira imunológica, favorendo infecções periuretrais; (3) envolvimento neurológico — hepatovírus podem invadir o sistema nervoso e comprometer a inervação vesical ou do esfíncter uretral; (4) resistência insulínica — a associação entre HCV e resistência insulínica pode ligar-se à síndrome metabólica, que por sua vez induz dano isquêmico à parede vesical. Tais hipóteses são plausíveis e fundamentadas em evidências indiretas, mas ainda carecem de validação experimental.

Entre as limitações relevantes, destacam-se o caráter transversal do estudo (impossibilidade de inferência causal), a dependência de questionários autorreferidos para diagnóstico de BH e algumas covariáveis (potencial viés de recordação) e a impossibilidade de excluir todos os confundidores não medidos, apesar do ajuste estatístico rigoroso.

A sensibilidade de 40,3% para predição de BH pelo HCV, embora modesta, reflete a natureza multifatorial da BH, na qual o HCV representa um entre vários fatores de risco possivelmente envolvidos.

No contexto prático, os resultados sugerem que urologistas e hepatologistas devem estar atentos à possibilidade de sintomas de BH em pacientes com HCV, especialmente em subgrupos de maior risco (idade avançada, sexo feminino, diabéticos e hipertensos).

A integração de avaliação de sintomas do trato urinário inferior no acompanhamento clínico de pacientes com HCV pode representar uma oportunidade de diagnóstico precoce e manejo multidisciplinar. Em perspectiva, o surgimento de terapias antivirais de ação direta (DAAs) com altas taxas de cura sustenta o interesse em estudos que avaliem se a erradicação do HCV impacta a evolução dos sintomas vesicais, o que poderia fortalecer a hipótese causal e abrir novas frentes terapêuticas para a BH.

Referência

Ding Y, Zhao T, Ji J, Wang Z, Zhang D, Ye Z, Chen M, Mao W, Wu J. Association between hepatitis C virus and overactive bladder: a cross-sectional study based on the 2013–2018 NHANES. BMC Urology. 2026;26:183. DOI: 10.1186/s12894-026-02170-w.