
Terapia adjuvante com atezolizumabe guiada por ctDNA no câncer de bexiga músculo-invasivo (IMvigor011)
Autores do Artigo:
Journal
Data da publicação
Autor do Resumo

Editor de Seção

Introdução
O carcinoma urotelial de bexiga músculo-invasivo tem taxas de recorrência pós-cistectomia radical de aproximadamente 50%, frequentemente associadas a prognósticos desfavoráveis. Embora a imunoterapia adjuvante seja recomendada, a ausência de benefícios consistentes em sobrevida global em populações não selecionadas e o risco de tratamento desnecessário em pacientes já curados cirurgicamente impõem a necessidade de biomarcadores de precisão. A detecção de doença residual molecular via DNA tumoral circulante (ctDNA) permite a estratificação de pacientes de alto risco, possibilitando a melhor indicação da terapia adjuvante.
Em Outubro de 2025, foi publicado na revista The New England Journal of Medicine o estudo (IMvigor011) que selecionou pacientes com ctDNA positivo para placebo ou imunoterapia com atezolizumabe. Confira abaixo mais detalhes do estudo.
Objetivo
Avaliar a eficácia e a segurança do atezolizumabe adjuvante por 1 ano em comparação com placebo em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo que apresentaram ctDNA positivo no prazo de 1 ano após a cistectomia, por meio de testes seriados.
Desenho do estudo
Trata-se de um estudo de fase 3, internacional, multicêntrico, duplo-cego e randomizado. O desenho experimental compreendeu uma fase de vigilância inicial com monitoramento seriado de ctDNA utilizando ensaios tumor-informado (Signatera ou BGI). Pacientes que apresentaram positividade para ctDNA e ausência de evidência radiográfica de doença foram randomizados em uma proporção de 2:1 para receber atezolizumabe (1680 mg a cada 4 semanas por até 1 ano) ou placebo. A randomização foi estratificada por status nodal (positivo vs. negativo), estágio tumoral (≤pT2 vs. pT3/4), status de PD-L1 via ensaio SP142 (IC0/1 vs. IC2/3) e tempo até a primeira amostra ctDNA-positiva (≤20 vs. >20 semanas). Pacientes persistentemente ctDNA-negativos compuseram um braço observacional (não receberam atezolizumabe ou placebo) e foram avaliados para sobrevida livre de doença e sobrevida global.
Número de pacientes
O recrutamento para a fase de vigilância totalizou 761 pacientes em 157 centros globais. Dentre os pacientes identificados como ctDNA-positivos, 250 foram randomizados para a fase de tratamento (167 no braço atezolizumabe e 83 no braço placebo).
Período de inclusão
3 de maio de 2021 a 25 de novembro de 2024.
Materiais e Métodos
Foram realizados testes de ctDNA a cada 6 semanas nos primeiros 9 meses, com avaliação final em 12 meses pós-cistectomia. As análises estatísticas empregaram o método de Kaplan-Meier para estimativas de sobrevida e o modelo de riscos proporcionais de Cox para o cálculo de HR. A significância estatística foi avaliada pelo teste log-rank estratificado. O controle do erro alfa foi estabelecido através de um procedimento hierárquico, condicionando a análise de sobrevida gloabl à positividade estatística do desfecho primário de sobrevida livre de doença.
Desfechos
Desfecho Primário: Sobrevida Livre de Doença avaliada pelo investigador, definida como o tempo entre a randomização e a primeira recorrência (local, trato urinário ou doença à distância) ou óbito.
Desfechos Secundários: Sobrevida Global; Sobrevida Livre de Doença por revisão independente; Sobrevida livre de metástases; sobrevida doença específica (morte por carcinoma urotelial) e Taxa de Clareamento de ctDNA (conversão para status negativo no Ciclo 3 ou Ciclo 5).
Sobrevida Livre de Doença: Sobrevida Livre de Doença e Sobrevida Global na coorte persistentemente ctDNA-negativa, a partir da data da cistectomia radical.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Foram incluídos pacientes com estadiamento (y)pT2–4aN0M0 ou (y)pT0–4aN+M0; ECOG Performance Status ≤ 2; ausência de doença macroscópica em imagem radiológica realizada entre 6 e 24 semanas após a cistectomia. Para pacientes que não receberam quimioterapia neoadjuvante, a quimioterapia adjuvante deve ter sido considerada inadequada devido à inelegibilidade do paciente, à decisão do paciente de recusar o tratamento ou à decisão do médico. Foram excluídos pacientes com evidência de recorrência radiológica detectada antes da randomização ou material tumoral/sanguíneo insuficiente para a confecção do teste de ctDNA personalizado.
Resultados
Entre os pacientes ctDNA-positivo randomizados, as características demográficas e clínicas basais foram equilibradas entre os grupos, exceto pela maior proporção de pacientes submetidos à neoadjuvância no grupo intervenção (48 vs 40%). Em comparação aos pacientes com status ctDNA-negativo persistente, apresentaram maior frequência de doença com linfonodos positivos (57% no grupo atezolizumabe e 58% no grupo placebo vs. 20%) e de estágio tumoral T3–T4 (72% e 71% vs. 53%). O seguimento mediano foi de 16,1 meses entre os pacientes ctDNA-positivos que haviam sido randomizados.
Um total de 112 de 167 pacientes (67%) no grupo atezolizumabe e 66 de 83 (80%) no grupo placebo apresentaram recorrência da doença avaliada pelo investigador ou morreram. Os locais mais comuns de recorrência da doença foram linfonodos pélvicos ou distantes, pulmão ou osso. A mediana de sobrevida livre de doença foi de 9,9 meses para atezolizumabe versus 4,8 meses para placebo (HR 0,64; IC 95%, 0,47 a 0,87; p = 0,005). Houve benefício estatisticamente significativo em sobrevida global, com mediana de 32,8 meses para o braço ativo versus 21,1 meses para o placebo (HR 0,59; IC 95%, 0,39 a 0,90; p = 0,01).
Eventos adversos graus 3 ou 4 ocorreram em 28% (atezolizumabe) vs. 22% (placebo). A minoria desses eventos foi considerada pelo investigador como relacionada ao atezolizumabe ou ao placebo (em 7% e 4% dos pacientes, respectivamente). Os eventos mais comuns foram ITU e prurido. Houve uma morte por evento imunomediado (pneumonite).
O braço ctDNA-negativo demonstrou excelente prognóstico, com taxa de sobrevida livre de doença de 88% em 2 anos. No entanto, observou-se censura informativa em 15 pacientes (4%) que apresentaram recorrência precoce.
Conclusão do Trabalho
O estudo IMvigor011 demonstrou que o atezolizumabe adjuvante guiado por ctDNA positivo resultou em aumento de sobrevida livre de doença e sobrevida global em comparação ao placebo em câncer de bexiga músculo-invasivo, mesmo com seguimento curto e tamanho amostral limitado. A seleção de pacientes com ctDNA positivo aprimorou a definição de risco, além dos critérios patológicos. O monitoramento seriado de ctDNA evitou tratamento desnecessário em pacientes com ctDNA-negativo persistente, com potencial para reduzir toxicidades. O benefício do atezolizumabe foi consistente entre subgrupos, independentemente do status de PD-L1 e do momento de positividade do ctDNA. A estratégia de adiar tratamento em pacientes ctDNA-negativos não comprometeu os desfechos.
Comentário Editorial
O estudo IMvigor011 avaliou o papel do atezolizumabe adjuvante em pacientes com carcinoma urotelial músculo-invasivo após ressecção, selecionados pela presença de ctDNA positivo, em um desenho baseado na monitorização seriada a cada seis semanas. Nessa população com doença residual molecular, observou-se benefício em sobrevida livre de doença (ganho mediano de 5 meses) e em sobrevida global (ganho mediano de 11,7 meses), enquanto pacientes com ctDNA negativo apresentaram bom prognóstico e baixa taxa de recidiva, reforçando o valor prognóstico e potencial preditivo do biomarcador. Esses achados se inserem em um cenário no qual estratégias adjuvantes já demonstraram benefício em sobrevida livre de doença, como no CheckMate 274 com nivolumabe (21 versus 11 meses; HR 0,70; IC 98% 0,55–0,90) e no AMBASSADOR com pembrolizumabe (30 versus 14 meses; HR 0,73; IC 95% 0,59–0,90), ambos sem demonstração de ganho de sobrevida global até o momento, enquanto o IMvigor010 foi negativo com atezolizumabe na população não selecionada.
Apesar da coerência biológica e da consistência dos resultados, a incorporação dessa estratégia enfrenta desafios relevantes. A disponibilidade dos testes, a aprovação regulatória, o custo e questões logísticas limitam sua aplicabilidade, especialmente considerando a necessidade de monitorização frequente e a conversão dinâmica do ctDNA (41% dos pacientes inicialmente negativos tornaram-se positivos durante o seguimento). Além disso, o tempo para liberação do resultado pode impactar o timing da adjuvância no pós-operatório. Soma-se a isso o fato de que o atezolizumabe não demonstrou benefício em populações não selecionadas, o que levanta a necessidade de validação com outros agentes, como nivolumabe, em pacientes ctDNA positivos. Por fim, esses dados devem ser contextualizados em um cenário em rápida evolução, especialmente com os estudos EV-303 e EV-304 com enfortumabe vedotina associado ao pembrolizumabe, que tendem a redefinir o tratamento perioperatório do MIBC. Nesse contexto, o IMvigor011 reforça o papel do ctDNA como biomarcador prognóstico e preditivo e aponta para uma possível individualização da adjuvância, com potencial redução de sobretratamento.
Referência
Powles T, Kann AG, Castellano D, Gross-Goupil M, Nishiyama H, Bracarda S, Bjerggaard Jensen J, Makaroff L, Jiang S, Ku JH, Park SH, Reig Torras O, Ye D, Maruzzo M, Necchi A, Morales-Barrera R, Giunta EF, Lee JL, Tortora G, Ürün Y, Dolowy L, Erdem D, Pinto A, Grando F, Zou W, Assaf ZJ, Vuky J, Degaonkar V, Steinberg EE, Bellmunt J, Gschwend JE; IMvigor011 Investigators. ctDNA-Guided Adjuvant Atezolizumab in Muscle-Invasive Bladder Cancer. N Engl J Med. 2025 Dec 18;393(24):2395-2408. doi: 10.1056/NEJMoa2511885. Epub 2025 Oct 20. PMID: 41124204.

