
Slings Sintéticos versus Não Sintéticos no Tratamento da Incontinência Urinária Feminina: Revisão Sistemática e Metanálise
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Introdução
A incontinência urinária de esforço (IUE) afeta aproximadamente uma em cada duas mulheres com o avançar da idade. Os slings de uretra média (MUS) consolidaram-se como o tratamento cirúrgico mais estudado e amplamente utilizado para IUE feminina. Entretanto, alertas regulatórios relacionados às complicações associadas às telas sintéticas (mesh) impulsionaram o interesse por alternativas não sintéticas, como os slings autólogos e materiais biológicos
Objetivo
Comparar a eficácia, a segurança e as complicações entre slings sintéticos e não sintéticos no tratamento da incontinência urinária de esforço (IUE) e da incontinência urinária mista (IUM).
Desenho do estudo
Revisão sistemática e metanálise de ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais comparativos envolvendo slings sintéticos e não sintéticos para tratamento da incontinência urinária feminina.
Número de pacientes
3.118 mulheres incluídas nas principais análises de eficácia, provenientes de 30 estudos independentes.
Período de inclusão
Trata-se de uma revisão sistemática e metanálise que incluiu estudos identificados por busca bibliográfica realizada até 22 de junho de 2022, sem restrição de período de publicação.
Materiais e Métodos
A revisão incluiu 35 artigos, correspondendo a 30 estudos independentes.
Foram analisados ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais comparativos.
Materiais comparados
- Slings sintéticos
- Tela sintética de polipropileno tipo 1.
- Slings não sintéticos
- Fáscia autóloga (reto abdominal ou fascia lata);
- Aloenxertos;
- Materiais biológicos.
Vias cirúrgicas avaliadas:
- Retropúbica (RP)
- Transobturatória (TO)
Desfechos
Primários
-
Cura objetiva: ausência ou melhora significativa da perda urinária em testes objetivos de continência utilizados pelos estudos incluídos.
-
Cura subjetiva: percepção de melhora ou resolução da incontinência relatada pela própria paciente por meio de questionários validados.
Secundários
-
Satisfação da paciente;
-
Retenção urinária;
-
Dor e dispareunia;
-
Exposição de tela sintética;
-
Reoperações;
-
Tempo cirúrgico;
-
Tempo de internação;
-
Tempo de uso de cateter vesical;
-
Perda sanguínea;
-
Complicações intraoperatórias.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão
-
Mulheres adultas com IUE ou IUM;
-
Seguimento mínimo de 6 semanas;
-
Comparação direta entre materiais sintéticos e não sintéticos.
Exclusão
-
Mini-slings;
-
Técnicas híbridas;
-
Estudos sem descrição adequada do material utilizado;
-
Estudos sem descrição adequada da via cirúrgica;
-
Revisões sistemáticas e relatos de caso.
Resultados
Principal Achado
Não houve diferença significativa na cura objetiva ou subjetiva entre slings sintéticos e não sintéticos em médio prazo (1 a 5 anos).
Eficácia
- Via retropúbica:
- Cura objetiva: 79,4% (sintéticos) vs 77,5% (autólogos)
- Cura subjetiva: 65,5% vs 56,2%
- Via transobturatória:
- Resultados semelhantes entre os grupos para continência objetiva e subjetiva.
- Maior satisfação das pacientes no grupo sintético.
Vantagens dos Slings Sintéticos
- Menor tempo cirúrgico
- Menor perda sanguínea
- Menor tempo de internação
- Menor tempo de cateterização vesical
- Menor retenção urinária pós-operatória
Complicações
- Menor incidência de dor pós-operatória e dispareunia quando comparados aos slings autólogos.
- Maior incidência de perfuração vesical nos slings sintéticos retropúbicos.
- Exposição de mesh variando entre 1% e 5%, dependendo da técnica.
Incontinência Urinária de Esforço Recorrente
Em populações com ≥25% de casos recorrentes, os slings sintéticos retropúbicos apresentaram melhor taxa de cura subjetiva em comparação aos slings autólogos.
Conclusão do Trabalho
As evidências atuais demonstram que slings sintéticos e não sintéticos apresentam eficácia semelhante no tratamento da incontinência urinária feminina.
Entretanto, os slings sintéticos estiveram associados a:
- recuperação mais rápida;
- menor morbidade operatória;
- menor retenção urinária;
- menor tempo cirúrgico;
- e melhores desfechos funcionais em alguns cenários específicos, particularmente nos casos de incontinência urinária de esforço recorrente.
A decisão sobre o uso de mesh deve ser individualizada, considerando o perfil da paciente, a experiência do cirurgião e o adequado aconselhamento sobre riscos e benefícios.
Comentário Editorial
Esta metanálise é particularmente relevante no contexto da uroginocologia, marcado pelo intenso debate sobre a segurança das telas sintéticas.
O principal achado do estudo é que os slings não sintéticos não demonstraram superioridade em eficácia quando comparados aos slings sintéticos. Pelo contrário, os slings sintéticos apresentaram vantagens consistentes em diversos aspectos perioperatórios, incluindo tempo cirúrgico, recuperação pós-operatória e retenção urinária.
Outro dado de destaque foi o melhor desempenho dos slings sintéticos retropúbicos em pacientes com incontinência urinária de esforço recorrente, um cenário tradicionalmente mais complexo e desafiador na prática clínica.
Apesar disso, a escolha entre sling sintético e não sintético não deve ser baseada exclusivamente na eficácia. Características da paciente, experiência da equipe cirúrgica, disponibilidade de materiais e discussão transparente sobre riscos e benefícios continuam sendo fundamentais para uma tomada de decisão compartilhada e individualizada.
Referência
Larouche M, Zheng MMZ, Yang EC, Konci R, Gill PK, Geoffrion R. Synthetic vs Nonsynthetic Slings for Female Stress and Mixed Urinary Incontinence: A Systematic Review and Meta-analysis. Am J Obstet Gynecol. 2024;231(2):145-160.

