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Radiofrequência Microablativa versus Placebo para Bexiga Hiperativa: Ensaio Clínico Randomizado com Seguimento de 6 Meses

Autores do Artigo: 

Constanza Alvear, Cássia Raquel Teatin Juliato, Anna Lygia B. Lunardi, Juliana C. Fazzolari, Helena Slongo, Ana Luisa Zambelli Mesquita de Oliveira, Simone Botelho, Cássio L. Z. Riccetto

Journal

Neurourology and Urodynamics

Data da publicação

Junho 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

A bexiga hiperativa (BH) é uma condição prevalente que afeta significativamente a qualidade de vida das mulheres. O tratamento comportamental é considerado primeira linha, porém novas tecnologias têm sido investigadas como complemento terapêutico. A radiofrequência microablativa transvaginal é uma técnica minimamente invasiva que promove regeneração tecidual vaginal e potencial melhora da função do assoalho pélvico. Este estudo bicêntrico, randomizado e duplo-cego avaliou a eficácia da radiofrequência microablativa associada à terapia comportamental em comparação com placebo e terapia comportamental em mulheres com bexiga hiperativa.

Objetivo

Avaliar a eficácia da radiofrequência microablativa transvaginal combinada com terapia comportamental versus placebo e terapia comportamental no tratamento de bexiga hiperativa em mulheres, com seguimento de 6 meses.

Desenho do estudo

Ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, bicêntrico.

Número de pacientes

140 mulheres randomizadas (radiofrequência: 72; placebo: 68). Taxa de abandono: 16,4%.

Materiais e Métodos

Intervenção testada: Radiofrequência microablativa fracionada transvaginal. O dispositivo utilizado promove ablação fracionada controlada da mucosa vaginal, estimulando resposta regenerativa do epitélio. As pacientes receberam uma sessão de radiofrequência (ou placebo) associada a terapia comportamental estruturada, que incluiu orientações sobre hábitos miccional, ingestão hídrica e técnicas de contração do assoalho pélvico.Avaliações realizadas:

Componentes da Terapia Comportamental:

1. Orientações sobre Hábitos Miccional

  • Estabelecimento de padrões regulares de micção
  • Educação sobre a importância de não adiar ou antecipar a micção desnecessariamente
  • Estratégias para aumentar gradualmente o intervalo entre as micções

2. Controle da Ingestão Hídrica

  • Orientações sobre quantidade e timing da ingestão de líquidos
  • Redução de bebidas irritantes à bexiga (cafeína, álcool, bebidas ácidas)
  • Distribuição adequada da ingestão ao longo do dia, evitando grandes volumes antes de dormir

3. Técnicas de Contração do Assoalho Pélvico

  • Exercícios de fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico (Kegel)
  • Treinamento de contrações voluntárias para inibir urgência miccional
  • Uso da contração pélvica como estratégia de supressão de sintomas durante episódios de urgência

4. Estratégias Comportamentais Adicionais

  • Técnicas de distração e postergação da micção
  • Educação sobre fatores desencadeadores de urgência
  • Modificação de hábitos que pioram os sintomas

Questionários validados:

ICIQ-OAB (sintomas de bexiga hiperativa), ICIQ-OAB QoL (qualidade de vida), ICIQ-UI SF (incontinência urinária), ICIQ-VS (sintomas vaginais), FSFI (função sexual)

Avaliação do assoalho pélvico: esquema PERFECT (força, resistência, repetições, contração rápida), manometria (Peritron), avaliação de tônus e dor à palpação

Citologia vaginal para avaliar trofismo

Escala de Likert para satisfação e sintomas urinários

Avaliação de eventos adversos

Desfechos

Primário: Mudança no escore ICIQ-OAB aos 6 meses.

Secundários: Qualidade de vida, sintomas de incontinência urinária, sintomas vaginais, função sexual, função do assoalho pélvico, trofismo vaginal e segurança.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Inclusão: Mulheres com diagnóstico de bexiga hiperativa ou incontinência urinária mista, entre 45 e 65 anos, idade reprodutiva ou pós-menopausa.

Exclusão: Incontinência urinária mista com predominância de esforço; uso de terapia hormonal sistêmica ou local nos 6 meses anteriores; treinamento da musculatura do assoalho pélvico durante o mesmo período; cirurgia prévia para prolapso de órgãos pélvicos (POP) ou incontinência urinária; POP estádio III–IV (avaliado pelo sistema POP-Q); uso de marca-passo; doença cardiovascular ou metabólica não controlada; comprometimento cognitivo; distúrbios neurológicos centrais ou periféricos; histórico de câncer ou displasia cervical; e infecção do trato urinário. 

Resultados

Ambos os grupos apresentaram melhora significativa nos sintomas de bexiga hiperativa aos 6 meses, sem diferença estatisticamente significativa entre radiofrequência e placebo no escore ICIQ-OAB (desfecho primário).

Qualidade de vida, incontinência urinária e sintomas vaginais melhoraram em ambos os grupos.

Função sexual (FSFI) melhorou apenas no grupo placebo.

O grupo radiofrequência apresentou melhorias significativas na função do assoalho pélvico, incluindo aumento no número de repetições e contrações rápidas (esquema PERFECT), normalização do tônus e redução da dor à palpação.

Citologia vaginal mostrou aumento de células intermediárias no grupo radiofrequência, sugerindo resposta epitelial regenerativa.

Eventos adversos foram mais frequentes no grupo radiofrequência (44,2% versus 22,9%), predominantemente leves e transitórios (sangramento vaginal, dor, corrimento). Nenhum evento adverso grave foi relatado.

Conclusão do Trabalho

A radiofrequência microablativa combinada com terapia comportamental melhorou os sintomas de bexiga hiperativa, porém não foi superior ao placebo associado à terapia comportamental aos 6 meses de seguimento.

Comentário Editorial

Este estudo reforça um achado importante na literatura contemporânea: a terapia comportamental é uma intervenção altamente eficaz para bexiga hiperativa, com resposta terapêutica robusta que pode ser difícil de superar com tecnologias adicionais.

A ausência de superioridade da radiofrequência sobre placebo, apesar da melhora objetiva na função do assoalho pélvico e resposta epitelial regenerativa, sugere que os mecanismos de melhora sintomática em bexiga hiperativa transcendem apenas a restauração estrutural vaginal.

As limitações do estudo incluem seguimento relativamente curto (6 meses versus 12-24 meses recomendados para avaliação sustentada), inclusão de mulheres pré e pós-menopausa (variabilidade hormonal), e tamanho amostral estimado baseado em estudos de incontinência urinária de esforço, não especificamente para bexiga hiperativa. Além disso, não fica claro qual o status das pacientes quanto ao uso de medicamentos para bexiga hiperativa. 

A alta taxa de eventos adversos no grupo radiofrequência (44,2%) também merece consideração clínica, ainda que predominantemente leves.

Os pontos fortes incluem desenho duplo-cego, randomizado, controlado por placebo, aderência aos critérios CONSORT, uso de instrumentos validados e avaliação abrangente de segurança. Estudos futuros com seguimento prolongado, otimização dos parâmetros de radiofrequência e seleção mais rigorosa de pacientes (por exemplo, aquelas com disfunção do assoalho pélvico documentada) poderão esclarecer se subgrupos específicos se beneficiam dessa tecnologia. Por enquanto, a terapia comportamental permanece como primeira linha de tratamento para bexiga hiperativa, com potencial para tecnologias complementares em casos refratários após otimização comportamental.

Referência

Alvear C, Juliato CRT, Lunardi ALB, et al. Microablative Radiofrequency Versus Sham for Overactive Bladder: A Randomized Controlled Trial With 6 Months Follow up. Neurourology and Urodynamics. 2026.