
Estimulação transcutânea intermitente do nervo tibial ativada por urgência: viabilidade e efeitos urodinâmicos na bexiga hiperativa
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Introdução
A estimulação transcutânea do nervo tibial (TTNS) é uma técnica de neuromodulação não invasiva com reconhecido benefício na bexiga hiperativa (BHA), atuando sobre sintomas de urgência, frequência e incontinência urinária de urgência. No entanto, seus mecanismos de ação permanecem parcialmente compreendidos, envolvendo provavelmente vias espinhais e supraspinhais, incluindo inibição de sinalização aferente vesical e ativação de córtices implicados no controle miccional. Em estudo prévio, o grupo de pesquisa introduziu um protocolo inovador de TTNS intermitente, ativado de forma contingente ao surgimento de urgência durante cistometria invasiva, com demonstração de supressão imediata da hiperatividade detrusora (HD) e aumento da capacidade vesical. O presente trabalho amplia essa série conceitual, confirmando a viabilidade do protocolo em uma coorte maior e caracterizando, de forma detalhada, os efeitos urodinâmicos agudos e os distintos padrões de resposta individual.
Objetivo
Confirmar a reprodutibilidade e viabilidade do protocolo de TTNS intermitente ativado por urgência durante cistometria invasiva em uma coorte ampliada; caracterizar detalhadamente os efeitos urodinâmicos agudos; e identificar, por meio de análise exploratória de agrupamento (clustering), padrões distintos de resposta ao estímulo.
Desenho do estudo
Estudo prospectivo, de braço único, exploratório, realizado no Hospital Regional de Coyhaique, Chile. Cada paciente foi submetido a duas cistometrias consecutivas: uma basal (fase diagnóstica — UDI-DG) e outra com aplicação de TTNS ativado por urgência (UDI-TTNS), funcionando como controle pareado de cada indivíduo consigo mesmo.
Número de pacientes
21 pacientes (idade média de 57 anos; 18 mulheres e 3 homens).
Materiais e Métodos
Foram incluídos adultos com diagnóstico clínico de BH, urocultura negativa, sem uso prévio de TTNS e com suspensão de antimuscarínicos por pelo menos duas semanas antes da avaliação.
A cistometria foi realizada segundo as Boas Práticas Urodinâmicas da International Continence Society, com cateter uretral duplo-lúmen de 6 Fr, cateter retal para monitorização de pressão e infusão de solução salina à temperatura ambiente a 40–50 mL/min.
Após identificação de HD na presença de urgência e complacência vesical preservada (>20 mL/cmH₂O), realizava-se imediatamente a segunda cistometria com protocolo de TTNS.
Dispositivo testado: estimulador TENS 7000® com eletrodos de superfície posicionados sobre o nervo tibial posterior (anodo no calcanhar, catodo 3–5 cm acima do maléolo medial). Parâmetros: frequência de 30 Hz e largura de pulso de 200 μs. A colocação dos eletrodos foi verificada por flexão dos dedos durante estimulação breve, e a intensidade foi titulada individualmente até sensação confortável, não dolorosa, sem resposta motora visível.
Durante a fase UDI-TTNS, os pacientes eram instruídos a relatar o início e a resolução da urgência. A estimulação era ativada manualmente no momento do relato de urgência e descontinuada quando a sensação cesava.
Variáveis registradas: número de contrações detrusoras involuntárias (CDI), episódios de incontinência urinária de urgência (IUU), capacidade cistométrica máxima (CCM), pressão detrusora máxima (PDM) e volume vesical na primeira CDI.
Análise estatística: testes de Shapiro-Wilk para normalidade; comparações pareadas com t-test pareado ou Wilcoxon signed-rank com correção de Bonferroni; análise exploratória de agrupamento (K-means clustering) para identificar padrões de resposta, examinando soluções de k=2 a k=5, selecionando k=3 como solução pragmática.
Desfechos
Desfechos primários (comparados entre as fases basal e TTNS):
- Capacidade cistométrica máxima (CCM)
- Pressão detrusora máxima (PDM)
- número de contração detrusora involuntária (CDI)
- episódios de incontinência urinária de urgência (IUU)
Critérios de resposta:
- Critério A — supressão completa da HD;
- Critério B — melhora em pelo menos dois dos seguintes: redução ≥50% no número de CDI, aumento ≥20% na CCM, ou redução ≥30% (ou ≥10 cmH₂O) na PDM.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes:
- Idade ≥18 anos com diagnóstico clínico de BHA
- Urocultura negativa
- Sem uso prévio de TTNS
- Suspensão de antimuscarínicos por ≥2 semanas antes da avaliação
- Identificação de HD com urgência durante a cistometria basal, com complacência vesical >20 mL/cmH₂O (necessário para prosseguir para a fase TTNS)
Resultados
As etiologias da BHA incluíram obstrução do trato de saída (n=3), síndrome genitourinária da menopausa (n=1), síndrome da bexiga dolorosa (n=1) e BHA idiopática (n=16).
Todos os desfechos primários apresentaram melhora estatisticamente significativa com TTNS:
- CCM: aumentou de 202,4 ± 81,6 mL para 281,9 ± 90,7 mL (Δ médio = +79 mL; p<0,0001)
- PDM: reduziu de 41,9 ± 36,9 cmH₂O para 15,4 ± 26,1 cmH₂O (Δ médio = −26,6 cmH₂O; p<0,0001)
- CDI: reduziram de 3,38 ± 1,36 para 0,43 ± 0,75 (Δ médio = −2,95; p<0,0001)
- IUU: reduziram de 1,10 ± 1,04 para 0,05 ± 0,22 episódios (Δ médio = −1,05; p=0,0018)
A taxa global de resposta foi de 85,7%: 71,4% (15/21) preencheram o Critério A (supressão completa da HD) e 14,3% (3/21) preencheram o Critério B.
Não houve diferenças estatisticamente significativas nas características basais entre respondedores e não respondedores.
A análise de agrupamento identificou três fenótipos de resposta:
Cluster 1 — Resposta global robusta: grande aumento da capacidade, supressão quase completa das CDI e queda significativa da PDM.
Cluster 2 — Resposta moderada equilibrada: ganho moderado de CCM, redução moderada das CDI e queda leve a moderada da PDM.
Cluster 3 — Resposta predominantemente pressórica: ganho modesto de CCM e leve redução das CDI, porém com queda muito acentuada da PDM, sugerindo efeito predominante sobre a contratilidade detrusora.
Não houve diferenças significativas nas características basais entre os três clusters.
Adicionalmente, a urgência precedeu consistentemente as CDI (volume na primeira CDI: 113,5 ± 68,2 mL vs. volume na primeira ativação do TTNS: 104,2 ± 87,7 mL; p=0,20), reforçando a hipótese de que a HD pode estar associada à desativação transitória de regiões corticais pré-frontais.
Conclusão do Trabalho
O estudo fornece evidência preliminar de que o TTNS intermitente ativado por urgência, aplicado durante cistometria, é viável e está associado a mudanças urodinâmicas agudas compatíveis com inibição da HD, com aumento da capacidade cistométrica e redução da pressão detrusora e dos episódios de IUU. Os autores também observaram evidência preliminar de diferentes padrões de resposta, sugerindo heterogeneidade nos mecanismos de neuromodulação. Os achados, contudo, derivam de um estudo urodinâmico exploratório de braço único com amostra modesta, exigindo confirmação por meio de estudos controlados.
Comentário Editorial
O trabalho de Muñoz e colaboradores amplia e confirma achados prévios do próprio grupo, adicionando robustez à hipótese de que a neuromodulação tibial ativada de forma contingente à urgência tem efeito inibitório agudo sobre a hiperatividade detrusora. Os resultados urodinâmicos são expressivos — supressão completa da HD em mais de 70% dos pacientes e aumento médio de quase 80 mL na capacidade cistométrica —, o que, se replicado em cenário clínico, poderia representar um avanço relevante no manejo da BHA.
A identificação de três fenótipos de resposta é particularmente interessante do ponto de vista uroneurológico. A heterogeneidade observada — desde uma resposta global robusta até um padrão predominantemente pressórico — corrobora a noção emergente de que a BHA não é uma entidade uniforme, podendo refletir disfunções distintas em vias inibitórias espinhais e supraspinhais. Essa perspectiva é coerente com evidências recentes de que a BHA pode ser primariamente um distúrbio de disregulação autonômica, e não apenas de disfunção detrusora intrínseca. Se confirmados em coortes maiores, esses padrões podem pavimentar o caminho para uma abordagem terapêutica personalizada, com o TTNS ajustado ao fenótipo individual de cada paciente.
Importa destacar, contudo, as limitações estruturais do estudo. Trata-se de um desenho de braço único, sem grupo controle ou sham, com amostra modesta (n=21) e realizado em centro único. A natureza do procedimento — segunda cistometria com maior interação paciente-profissional e expectativa de alívio — introduz potencial viés de atenção e placebo que não pode ser isolado. Os desfechos são puramente urodinâmicos e fisiológicos, obtidos com taxa de infusão não fisiológica, sem correlação com diários miccionais ou desfechos reportados pelo paciente.
A análise de agrupamento, embora inovadora, é claramente geradora de hipóteses e pode refletir variação aleatória em uma amostra pequena.No contexto da evidência existente, o estudo se soma a um corpo crescente de dados que sustenta o papel da TTNS na BHA, mas introduz um conceito original: a ativação contingente ao sintoma. Diferentemente dos protocolos convencionais de TTNS com horário fixo, a abordagem ativada por urgência aproxima-se do princípio da neuromodulação fechada (closed-loop), alinhando-se à tendência contemporânea de terapias mais fisiológicas e individualizadas. A patentear o conceito e validá-lo em ensaios sham-controlados adequadamente dimensionados, essa estratégia poderá representar um marco evolutivo no campo da neuromodulação para BHA. Por ora, os achados devem ser interpretados como promissores, porém preliminares, e não extrapoláveis para a prática clínica habitual.
Referência
Muñoz JA, Heesakkers JPFA, Leiva D, García JO, Gálvez PA. Intermittent urgency-activated, transcutaneous tibial nerve stimulation: Feasibility and urodynamic effects in overactive bladder. Continence. 2026;17:102310. DOI: https://doi.org/10.1016/j.cont.2025.102310

