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Conhecimento público, automanejo e busca por orientação sobre sintomas do trato urinário inferior e noctúria: achados de um inquérito transversal nacional no Reino Unido

Autores do Artigo: 

Austen El-Osta, Sami Altalib, Eva Riboli-Sasco, Jonathan Rees e Marcus J. Drake

Journal

BMJ Open

Data da publicação

Junho 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

Sintomas do trato urinário inferior (LUTS) e noctúria são altamente prevalentes em adultos, frequentemente normalizados como consequência do envelhecimento ou do hábito de ingestão de líquidos, o que contribui para baixa procura por cuidado profissional. Além de impactarem a qualidade de vida, esses sintomas podem sinalizar condições subjacentes, como doença cardiovascular e distúrbios do sono. O estudo avaliou, em base nacional no Reino Unido, o conhecimento público sobre LUTS e noctúria, as práticas de automanejo e os comportamentos de busca por orientação.

Objetivo

Determinar a prevalência de LUTS e noctúria em adultos na comunidade, o conhecimento da população sobre fatores de risco associados, as estratégias de automanejo utilizadas e os comportamentos de busca por informação e orientação, além de suas associações sociodemográficas.

Desenho do estudo

Estudo transversal, observacional, tipo inquérito online de base comunitária, realizado em âmbito nacional no Reino Unido.

Número de pacientes

2062 adultos acessaram a pesquisa; 2012 forneceram dados sociodemográficos completos (taxa de conclusão de 97,6%).

Período de inclusão

2 de dezembro de 2024 a 9 de janeiro de 2025.

Materiais e Métodos

Inquérito eletrônico desenvolvido por processo iterativo com teste-piloto, divulgado à população adulta (≥ 18 anos) residente no Reino Unido. A análise dos dados foi realizada com regressão de Poisson modificada, avaliando-se associações entre a presença de LUTS, o conhecimento dos sintomas e a busca por orientação com idade, sexo de nascimento, etnia, presença de doenças crônicas e incapacidade. O estudo teve aprovação ética do Imperial College Research Ethics Committee (ICREC 6958208) e envolveu participação pública no desenho e na divulgação dos resultados.

Desfechos

Prevalência de LUTS e noctúria (desfecho primário);

Reconhecimento de sintomas e fatores de risco; estratégias de automanejo; fontes de informação e orientação; associações sociodemográficas (desfechos secundários).

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Inclusão: Adultos com 18 anos ou mais, residentes no Reino Unido;
Exclusão: Foram excluídas as respostas com dados sociodemográficos incompletos.

Resultados

  • Resumo demográfico - Homens 49,2% e Mulheres 50,8%. Idade: 18-34 anos: 35% / 35-49 anos: 35% / 50-64 anos: 23,8% / 65+: 5,7%
  • Noctúria presente em 52,7% dos respondentes; 47,1% acordavam pelo menos duas vezes por noite e 42,2% tinham sintomas todas as noites;
  • Sintomas de armazenamento em 61,4%, pós-miccional em 32% e miccionais em 18,7%; entre os que apresentavam sintomas de armazenamento, 85,6% referiam noctúria;
  • Quanto às causas da noctúria, a idade foi a mais reconhecida (91,4%), seguida por gravidez, parto ou menopausa (63,0%) e distúrbios prostáticos (57,8%) 
  • A frequência urinária aumentada (68,4%) e a incontinência urinária (66,5%) foram os LUTS mais conhecidos, enquanto o jato urinário lento foi reconhecido por menos de um terço dos respondentes (30,9%). 
  • Em contrapartida, os fatores não urológicos foram pouco reconhecidos, como hipertensão (17,4%), doença cardíaca (10,2%), síndrome das pernas inquietas (7,2%) e edema de membros inferiores (8,6%), enquanto os contribuidores comportamentais tiveram maior reconhecimento — ingestão excessiva de líquidos antes de dormir (90,5%), uso de medicamentos (74,4%) e cafeína (69,4%), com o consumo excessivo de sal menos reconhecido (36,4%)
  • O reconhecimento da ingestão de líquidos antes de dormir como causa foi alto (90,5%), mas o conhecimento sobre fatores de risco não urológicos (doença cardiovascular, consumo de sal, distúrbios do sono) foi limitado;
  • A idade foi fortemente associada a maior conhecimento de sintomas: em comparação com os participantes de 18–34 anos, a razão de prevalências ajustada (aPR) cresceu progressivamente com a idade para noctúria, incontinência urinária e jato urinário lento, destacando-se, entre os de 65 anos ou mais, o maior reconhecimento do jato urinário lento (aPR 2,47; IC 95% 1,81–3,37; p<0,001) e da noctúria (aPR 1,24; IC 95% 1,03–1,49; p=0,023), enquanto a consciência sobre incontinência aumentou de aPR 1,21 (35–49 anos) para 1,39 (≥65 anos; p=0,001). 
  • Quanto ao sexo, pessoas do sexo feminino ao nascer apresentaram maior consciência de incontinência (aPR 1,28; IC 95% 1,20–1,37; p<0,001) e de urgência (aPR 1,37; IC 95% 1,27–1,48; p<0,001), porém menor consciência de jato urinário lento (aPR 0,75; IC 95% 0,65–0,86; p<0,001) e de gotejamento urinário (aPR 0,86; IC 95% 0,79–0,94; p=0,001) em relação aos homens.
  • Automanejo: 62,4% reduziram líquidos à noite e 30,3% reduziram cafeína; 26,1% não adotaram nenhuma medida;
  • Entre os participantes que apresentavam LUTS, quase metade (44,5%) relatou não buscar nenhuma orientação ou informação sobre seus sintomas. Entre os que buscaram, prevaleceram as fontes online: buscadores da internet (30,0%) e o site do sistema público de saúde britânico, o National Health Service — NHS (28,8%), foram mais consultados do que os profissionais de saúde (24,3%); orientação de familiares ou amigos foi procurada por 14,2%, fóruns online por 8,6%, enquanto grupos comunitários e bibliotecas tiveram participação marginal (menos de 1% cada).
  • 83,5% dos participantes sem LUTS afirmaram que procurariam um profissional caso desenvolvessem sintomas;
  • Barreiras relatadas: sintomas considerados pouco incômodos (74%), desconforto em discutir sintomas urinários (18%) e falta de oportunidade durante as consultas (26,7%);

Conclusão do Trabalho

A noctúria é altamente prevalente na população adulta do Reino Unido, mas a busca por orientação profissional é baixa, com sintomas frequentemente normalizados como parte do envelhecimento. Os autores defendem campanhas nacionais de alfabetização em saúde, ferramentas de autocuidado baseadas em evidências e maior engajamento dos profissionais de saúde, incluindo a investigação proativa de LUTS nas consultas e a integração da avaliação da noctúria em diretrizes nacionais.

Comentário Editorial

O trabalho reforça, em base populacional, o descompasso entre a alta prevalência de LUTS e noctúria e a baixa procura por cuidado formal, achado consistente com a literatura prévia, como o estudo EpiLUTS, que reportou prevalências ainda maiores de noctúria (69% nos homens e 76% nas mulheres), diferença possivelmente explicada pela coorte mais jovem e pelas diferenças metodológicas. A baixa percepção de incômodo emergiu como principal barreira, enquanto a internet superou os profissionais de saúde como fonte de orientação — o que amplia o risco de informações sem curadoria clínica. Como pontos fortes, destacam-se o tamanho amostral expressivo e o escopo nacional; entre as limitações, o desenho transversal não permite inferência causal, a amostragem por conveniência, o recrutamento exclusivamente online (com coorte mais jovem) e o autorrelato podem introduzir vieses de seleção e de informação. Na prática, os achados sustentam que enfermeiros e farmacêuticos podem atuar como porta de entrada para orientação sobre noctúria, e que uma pergunta rotineira sobre sono e micção noturna em consultas por outros motivos representa uma oportunidade simples de identificação precoce de causas tratáveis e de condições cardiometabólicas associadas.

Referência

El-Osta A, Altalib S, Riboli-Sasco E, Rees J, Drake MJ. Public knowledge, self-management and advice-seeking for lower urinary tract symptoms and nocturia: findings from a national UK cross-sectional survey. BMJ Open 2026;16:e117157. doi:10.1136/bmjopen-2026-117157