
Dispositivos digitalizados e conectados para avaliação do comportamento miccional fora do consultório: o ponto de vista dos pacientes
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Introdução
Sintomas do trato urinário inferior (STUI) são altamente prevalentes na população adulta e se tornam mais frequentes com o envelhecimento, configurando problema de saúde pública. Além da anamnese e dos questionários, o diário miccional é recomendado na avaliação de pacientes com STUI, e a urofluxometria é exigida na avaliação inicial de homens com esses sintomas. Como a urofluxometria isolada no consultório pode ser influenciada pelo estresse, pela variação circadiana e pela dificuldade de micção sob demanda, diversos dispositivos ambulatoriais foram desenvolvidos nos últimos anos: diários miccionais digitalizados, urofluxômetros domésticos e portáteis (conectados ou não à nuvem), sonourofluxometria (medida do fluxo a partir do som da micção captado por smartphone ou smartwatch) e video-urofluxometria (estimativa do fluxo a partir da gravação em vídeo da micção). Há, porém, poucos dados sobre a preferência dos pacientes entre essas opções.
Objetivo
Questionar a opinião a priori dos pacientes com STUI sobre os dispositivos digitalizados e conectados recentemente desenvolvidos para diário miccional e urofluxometria ambulatorial, a fim de orientar a prescrição personalizada e subsidiar o desenvolvimento futuro dessas tecnologias.
Desenho do estudo
Estudo transversal, baseado em entrevista padronizada com pacientes, realizado em centro universitário único (CHU Lille). Um mesmo investigador treinado apresentou, por meio de apresentação padronizada de 13 slides, as características, os objetivos e as limitações de cada tecnologia. Cada dispositivo foi avaliado pelos pacientes em escores de 0 (muito negativo) a 5 (muito positivo) em cinco domínios: incômodo, estigmatização, facilidade de uso, confidencialidade dos dados e higiene, somados em escore global de 0 a 25. As comparações foram realizadas pelo teste de Wilcoxon de soma de postos, com risco alfa de 5%, incluindo análises de subgrupos por sexo, idade, estilo de vida, condições de trabalho, doença neurológica subjacente e tipo de sintoma.
Número de pacientes
77 pacientes (51 mulheres; 26 homens), com idade mediana de 52 anos [43–65].
Período de inclusão
Maio a dezembro de 2022.
Materiais e Métodos
Foram avaliadas sete tecnologias: (1) diário miccional em papel, com coletor graduado; (2) diário miccional digitalizado, por aplicativos de smartphone; (3) urofluxômetro doméstico, conectado ou não, posicionado sobre o vaso sanitário (ex.: IUflow, Minze Homeflow, Hospiflow); (4) "urofluxômetro portátil" hipotético, em formato de funil transportável, derivado de um diário conectado ainda não comercializado nessa versão; (5) sonourofluxometria, que estima o fluxo urinário a partir do registro do som da micção por smartphone ou smartwatch (ex.: Men Health Uroflowmetry, Telesono Uroflow, Urosound); e (6) video-urofluxometria hipotética, com gravação em vídeo da micção por smartphone. O desfecho primário foi a comparação do escore global de cada tecnologia; os desfechos secundários incluíram os subescores por domínio e análises de subgrupos (sexo, idade, trabalho presencial ou remoto, presença de doença neurológica, frequência diurna definida como oito ou mais micções/dia e incontinência urinária de urgência).
Desfechos
Desfecho primário: escore global de cada dispositivo (soma dos cinco domínios).
Desfechos secundários: subescores por domínio e comparações por subgrupos demográficos e clínicos.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão: homens e mulheres maiores de 18 anos com STUI, atendidos em consulta urológica do centro, após assinatura de consentimento informado.
Exclusão: ausência de micção espontânea (cateterismo intermitente, sonda vesical ou suprapúbica de demora, histórico de esfinterotomia cirúrgica ou protética); não fluência no idioma francês; pacientes sob tutela ou sem capacidade de compreender o estudo e consentir.
Resultados
- A sonourofluxometria obteve o maior escore global mediano (23/25) e a video-urofluxometria, o menor (9/25).
- O diário digitalizado foi considerado menos incômodo que o de papel (p < 0,001), com preferência significativa entre pacientes com menos de 50 anos (p = 0,011).
- Urofluxômetros domésticos, conectados ou não, foram considerados mais fáceis de usar que os portáteis (p = 0,004 e p = 0,006, respectivamente).
- A confidencialidade foi bem avaliada para todos os dispositivos, exceto para a video-urofluxometria (escore mediano 2 versus 5 nos demais).
- A higiene foi moderadamente positiva para todos os dispositivos que exigem sistema coletor, sem diferença estatística entre eles (p = 0,63).
- Mulheres avaliaram melhor a sonourofluxometria (24 versus 20 nos homens; p = 0,029) e pior a video-urofluxometria e os urofluxômetros portáteis, com estigmatização percebida significativamente maior nesses dispositivos.
- Pacientes com menos de 50 anos preferiram diários digitalizados e sonourofluxometria; trabalhadores presenciais avaliaram melhor a sonourofluxometria (p = 0,005).
- Não houve diferença conforme doença neurológica subjacente, incontinência urinária de urgência ou frequência diurna.
Conclusão do Trabalho
A maioria dos diários miccionais e dispositivos de urofluxometria ambulatorial foi antecipada como conveniente e utilizável pelos pacientes, com destaque para a sonourofluxometria, especialmente entre mulheres e pacientes que trabalham presencialmente. Em mulheres, urofluxômetros domésticos devem ser preferidos aos portáteis em formato de funil. Esses resultados auxiliam o médico a oferecer uma solução personalizada para o monitoramento dos STUI e das disfunções miccionais fora do consultório.
Comentário Editorial
O trabalho agrega a perspectiva do paciente a uma literatura que já demonstra boa adesão aos dispositivos ambulatoriais — estudos de urofluxometria domiciliar excluem apenas 5% a 8% dos pacientes por incapacidade de realização regular do exame. Na prática, os achados sugerem que a escolha do dispositivo deve considerar sexo, idade e condições de trabalho, favorecendo a prescrição personalizada e potencializando o papel da telemedicina e do monitoramento remoto no seguimento dos STUI, com possível redução de consultas presenciais.
Entre as limitações, destacam-se: opiniões avaliadas a priori, sem uso real dos dispositivos; população de um único centro acadêmico, possivelmente com maior proporção de doença neurológica que a atenção primária; análises de subgrupos com baixo poder; ausência de avaliação de letramento digital e de exposição prévia dos pacientes a tecnologias semelhantes; pesos iguais atribuídos aos cinco domínios; e cautela na extrapolação para outras culturas. Além disso, o estudo não avaliou a disposição dos pacientes em pagar pelos dispositivos, aspecto relevante dado o ônus econômico já elevado dos STUI. De forma geral, trata-se de estudo exploratório útil para orientar a escolha inicial dos dispositivos e o desenvolvimento de alternativas mais simples e de menor custo, cuja adesão e confiabilidade em uso real ainda precisam ser confirmadas em estudos prospectivos.
Referência
Dequirez P-L, Schiro J, Wojtanowski A, De Jonckheere J, Biardeau X. Out-of-office digitalized and connected devices for assessing voiding behavior: patients' point of view. Neurourology and Urodynamics. 2025;44(6):1344-1350. doi:10.1002/nau.70100

