
Necessidade persistente de urinar: um sintoma sensorial comum que leva ao desconforto urinário. Um estudo de 79 casos
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Introdução
A necessidade persistente de urinar (NPU) é uma sensação desagradável, inadequada e constante frequentemente relatada por pacientes com sintomas do trato urinário inferior (STUI). Diferentemente da urgência urinária, que é intermitente e de difícil contenção, ou da síndrome da bexiga dolorosa, que melhora após a micção, a NPU caracteriza-se como um sintoma sensorial puro sem alívio pós-miccional. Apesar de sua prevalência clínica, este sintoma não possui definição clara na terminologia da Sociedade Internacional de Continência (ICS) e sua abordagem terapêutica permanece essencialmente empírica.
Objetivo
Descrever as características clínicas, urodinâmicas e neurofisiológicas de pacientes com NPU e discutir a fisiopatologia e as opções terapêuticas para este sintoma.
Desenho do estudo
Estudo retrospectivo de revisão de prontuários clínicos de pacientes atendidos em hospital universitário terciário.
Número de pacientes
79 pacientes incluídos (de 99 avaliados inicialmente; 20 foram excluídos por critérios de exclusão)
Período de inclusão
Outubro de 2019 a dezembro de 2020
Materiais e Métodos
Todos os pacientes foram submetidos a avaliação clínica detalhada, incluindo história de sintomas, intervalo entre micções e capacidade de adiar a micção.
Os achados foram investigados através de: (1) estudo urodinâmico (UDS) conforme diretrizes da ICS com taxa de enchimento de 50 mL/min; (2) ultrassonografia de bexiga; (3) cistoscopia; e (4) avaliação neurofisiológica pélvica quando pertinente, incluindo latências de reflexo sacral, latências motoras terminais do nervo pudendo e eletromiografia do músculo bulbocavernoso.
A eficácia terapêutica foi autorrelatada pelos pacientes durante seguimento e classificada como "cura total", "melhora significativa" ou "sem modificação".
Desfechos
Resposta clínica aos diferentes tratamentos propostos: exercícios de assoalho pélvico associados a treinamento vesical, estimulação transcutânea do nervo tibial, bloqueadores alfa, antimuscarínicos e fármacos de ação central (antidepressivos e antiepilépticos).
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão: Pacientes com STUI caracterizados especificamente por sintomas de NPU.
Exclusão: Disfunção neurogênica do trato urinário inferior, sintomas de bexiga hiperativa com urgência, síndrome da bexiga dolorosa crônica, histórico de cateterismo vesical permanente ou intermitente, patologias distintas do trato urinário inferior (refluxo primário, válvulas uretrais posteriores), história de transplantação renal, cirurgias prévias do trato urinário inferior, patologias do trato urinário superior (obstrução ureteropélvica, urolitíase) e insuficiência renal oligúrica.
Resultados
A amostra foi composta por 51 mulheres (65%) e 28 homens, com idade média de 49 anos (DP 18) e duração média dos sintomas de 7 anos (DP 11).
A frequência miccional estava associada em 41% dos casos, com intervalo médio entre micções de 103 minutos (DP 69).
Noctúria foi observada em 50 pacientes (63%), com média de 3 micções noturnas (DP 2,6).
Trinta e dois pacientes (41%) relataram dificuldades miccional.
Na avaliação urodinâmica, apenas 5 pacientes (6%) apresentaram hiperatividade do detrusor, com capacidade cistométrica normal (média 397 mL, DP 135). O primeiro desejo de urinar ocorreu precocemente (média 112 mL, DP 93). Quatro pacientes apresentaram instabilidade uretral sem vazamento, e o resíduo pós-miccional foi inferior a 50 mL em todos exceto um paciente.
Quanto aos achados neurofisiológicos, 43 testes foram realizados: 20 foram normais e 23 (53%) apresentaram achados leves, incluindo sinais de denervação do assoalho pélvico. Sete pacientes (16%) apresentaram aumento das latências terminais do nervo pudendo.
Nos resultados terapêuticos: estimulação do nervo tibial (n=25) resultou em cura total ou melhora significativa em 17 casos (68%); bloqueadores alfa (n=8) beneficiaram 4 pacientes (50%); antimuscarínicos (n=29) melhoraram apenas 3 pacientes (10%); antidepressivos ou antiepilépticos (n=8) beneficiaram 5 pacientes (62,5%). A eficácia de antidepressivos/antiepilépticos foi significativamente superior aos antimuscarínicos (p=0,001).
Conclusão do Trabalho
A NPU é um sintoma sensorial distinto, mal descrito na literatura, que pode ser responsável por STUI significativos. Sua fisiopatologia permanece obscura, mas provavelmente envolve alterações na integração cortical do desejo miccional ou disfunções na sinalização urotelial. O estudo sugere que a neuromodulação (estimulação do nervo tibial) e fármacos de ação central são as opções terapêuticas mais eficazes, em contraste com o uso tradicional de antimuscarínicos. Estudos futuros são necessários para elucidar os mecanismos fisiopatológicos subjacentes e validar as diferentes abordagens terapêuticas.
Comentário Editorial
Este trabalho preenche uma lacuna importante na literatura urológica ao caracterizar sistematicamente um sintoma sensorial frequentemente negligenciado.
A NPU representa um desafio diagnóstico e terapêutico relevante, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes, com duração média de sintomas de 7 anos antes do diagnóstico adequado.
A principal contribuição é demonstrar que a NPU não responde aos tratamentos convencionais baseados em antimuscarínicos (apenas 10% de eficácia), sugerindo um mecanismo fisiopatológico distinto da bexiga hiperativa clássica. A superioridade da estimulação do nervo tibial (68% de eficácia) e dos fármacos de ação central (62,5%) aponta para envolvimento de vias sensoriais aferentes ou processamento cortical anormal, não meramente motor.
As limitações incluem o desenho retrospectivo, ausência de escala quantitativa para avaliar intensidade dos sintomas, heterogeneidade da amostra e falta de diários miccional em muitos pacientes.
A ausência de achados neurofisiológicos ou urodinâmicos significativos sugere que a NPU seja uma disfunção funcional, possivelmente relacionada a fatores psicológicos ou transtornos neurológicos funcionais, aspectos não sistematicamente avaliados neste estudo.
Clinicamente, este trabalho reorienta a abordagem terapêutica inicial para pacientes com NPU, recomendando neuromodulação como primeira linha em vez de antimuscarínicos. Perspectivas futuras incluem estudos de neuroimagem funcional (ressonância magnética funcional, espectroscopia de infravermelho próximo) para mapear alterações cerebrais, investigação do papel do microbioma vesical e avaliação sistemática de comorbidades psicológicas e transtornos neurológicos funcionais. A padronização terminológica pela ICS também seria benéfica para facilitar comparações entre estudos e melhorar a comunicação clínica.
Referência
Hentzen C, Panicker JN, Pericolini M, Finazzi Agrò E, Chesnel C, Blouet E, et al. Persistent need to urinate: A common sensory symptom leading to urinary discomfort. A study of 79 cases. Continence Reports. 2022;2:100007.

