
Eficácia terapêutica e segurança do plasma rico em plaquetas injetável em mulheres com incontinência urinária de esforço: uma revisão sistemática e metanálise
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Introdução
A incontinência urinária de esforço (IUE) afeta aproximadamente 423 milhões de mulheres em todo o mundo, com impacto substancial na qualidade de vida, bem-estar emocional e produtividade. As opções terapêuticas atuais — treinamento da musculatura do assoalho pélvico, farmacoterapia e cirurgias como as faixas suburetrais — apresentam limitações em eficácia, durabilidade ou perfil de complicações. Nesse contexto, o plasma rico em plaquetas (PRP) injetável tem emergido como uma abordagem regenerativa, fundamentada na liberação de fatores de crescimento como PDGF, TGF-β e VEGF, que estimulam angiogênese, síntese de colágeno e recrutamento de células progenitoras. Este trabalho consiste em uma revisão sistemática e metanálise que avaliou, de forma quantitativa, a eficácia e a segurança do PRP injetável no tratamento da IUE feminina.
Objetivo
Avaliar sistematicamente a eficácia e a segurança das injeções de PRP no tratamento da IUE em mulheres, com foco em gravidade dos sintomas, parâmetros urodinâmicos, qualidade de vida e eventos adversos.
Desenho do estudo
Revisão sistemática e metanálise conduzida conforme as diretrizes PRISMA, com protocolo registrado prospectivamente no PROSPERO (CRD420251118485). A avaliação de risco de viés utilizou a ferramenta Cochrane RoB 2.0 para ensaios clínicos randomizados (ECRs) e a ferramenta NHLBI para estudos quasi-experimentais.
Número de pacientes
257 participantes, distribuídos em 8 estudos incluídos (3 ECRs e 5 estudos quasi-experimentais do tipo antes-e-depois).
Período de inclusão
Buscas realizadas desde a incepção das bases de dados até 30 de abril de 2025.
Materiais e Métodos
Buscas sistemáticas foram conduzidas em três bases de dados: PubMed, Scopus e Cochrane Library, utilizando termos relacionados a "platelet-rich plasma" e "stress urinary incontinence" em populações femininas. O PRP é um concentrado autólogo derivado do sangue, enriquecido em plaquetas e fatores de crescimento bioativos (PDGF, TGF-β, VEGF, IGF e bFGF), que atuam sinergicamente na angiogênese, remodelação da matriz extracelular, miogênese e reparo neural. As técnicas de administração variaram entre os estudos: cistouretroscópica em múltiplos sítios ao longo da uretra média, transvaginal na linha média da uretra média, periuretral em 5 sítios (horários 2, 5, 7, 10 e 12 horas) e injeção na parede vaginal anterior. Os volumes aplicados variaram de 3 mL a 5 mL por sessão. A análise estatística foi realizada no software RevMan, com modelos de efeitos fixos ou aleatórios conforme a heterogeneidade (avaliada pela estatística I²).
Desfechos
- Gravidade dos sintomas: avaliada por VAS (escala visual analógica), GRA (avaliação global de resposta) e UDI-6 (Inventário de Distresse Urogenital — forma curta)
- Parâmetros urodinâmicos: pressão de perda urinária à manobra de Valsalva (ALPP), volume residual urinário (VRU), primeira sensação de urgência miccional (PSUM) e comprimento do perfil funcional uretral (FPL)
- Qualidade de vida: IIQ-7 (Questionário de Impacto da Incontinência — forma curta) e ICIQ-SF (Questionário Internacional sobre Incontinência — forma curta)
- Segurança: incidência e gravidade de eventos adversos locais e sistêmicos
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão:
- Mulheres adultas com diagnóstico clínico de IUE pura ou predominante
- PRP injetável como intervenção terapêutica primária para IUE
- Relato de ao menos um desfecho clinicamente relevante (sintomas, urodinâmica, qualidade de vida ou eventos adversos)
- Desenho de estudo ECR ou quasi-experimental
Exclusão:
- Incontinência urinária mista sem predomínio de IUE
- Estudos animais ou in vitro
- Aplicação de PRP por via tópica ou intravesical
- PRP usado exclusivamente como adjuvante a procedimentos cirúrgicos
- Relatos de caso, revisões narrativas, editoriais, cartas e resumos de congressos sem texto completo disponível
Resultados
Foram incluídos 8 estudos conduzidos em 6 países (Irã, Austrália, China, Tailândia, Egito e Estados Unidos), totalizando 257 participantes com idades médias variando de 44,5 a 68,7 anos. Os 3 ECRs foram classificados como baixo risco de viés; entre os 5 estudos quasi-experimentais, 4 foram avaliados como qualidade razoável e 1 como boa qualidade.
Gravidade dos sintomas: Redução significativa nos escores UDI-6 tanto em 1 mês (DM = −8,07; IC 95%: −12,97 a −3,17; I² = 73,3%; p = 0,001) quanto em 3 meses (DM = −8,58; IC 95%: −16,89 a −0,26; I² = 98,6%; p = 0,04). Estudos que utilizaram GRA ≥ 2 demonstraram taxas de sucesso de 50% a 60%.
Parâmetros urodinâmicos: Aumento significativo da ALPP em 3 meses (DM = 51,07; IC 95%: 36,21–65,93; p < 0,0001; I² = 0,0%), porém baseado em apenas dois estudos quasi-experimentais. O comprimento do perfil funcional uretral (FPL) não apresentou alteração significativa (DM = 1,11; IC 95%: −1,54 a 3,75; p = 0,4; I² = 64,1%).
Qualidade de vida: Melhora significativa no escore ICIQ-SF em 1 mês (DM = −6,70; IC 95%: −10,27 a −3,13; p < 0,0001; I² = 82,2%) e 3 meses (DM = −7,80; IC 95%: −10,28 a −5,32; p < 0,00001; I² = 49,1%). O escore IIQ-7 também melhorou em 3 meses (DM = −8,66; IC 95%: −15,84 a −1,48; p = 0,01; I² = 98,3%).
Segurança: Nenhum evento adverso grave foi reportado. Os eventos observados foram leves e autolimitados: disúria e hematúria leve em 28,6% dos pacientes em um estudo; spotting vaginal e desconforto em 30,7% do grupo PRP vs. 40,6% do grupo placebo em outro estudo; e um caso de esforço transitório à micção resolvido com auto-cateterismo. Todos os eventos resolveram-se de forma conservadora.
Conclusão do Trabalho
O PRP injetável demonstra eficácia promissora em curto prazo na redução dos sintomas, melhora da função urodinâmica e da qualidade de vida em mulheres com IUE, com perfil de segurança favorável e ausência de eventos adversos graves. Ensaios clínicos randomizados maiores, com padronização de protocolos e seguimento mais prolongado, são necessários para validar a durabilidade dos efeitos e definir o papel do PRP em relação às terapias estabelecidas.
Comentário Editorial
A IUE representa um dos desafios mais prevalentes da urologia feminina, com opções terapêuticas que ainda deixam lacunas importantes em eficácia, durabilidade e aceitabilidade. As intervenções cirúrgicas, embora eficazes, carregam riscos de complicações como erosão, dor e disfunção miccional, enquanto as medidas conservadoras frequentemente exigem adesão contínua do paciente com resultados modestos.
Nesse cenário, a medicina regenerativa surge como uma fronteira particularmente atraente, e o PRP injetável fundamenta-se em mecanismos biológicos plausíveis — angiogênese, miogênese e reparo neural mediados por fatores de crescimento.A presente metanálise agrega evidências quantitativas em múltiplos domínios: redução da gravidade dos sintomas (UDI-6, ICIQ-SF), melhora de parâmetros urodinâmicos objetivos (ALPP) e ganho de qualidade de vida (IIQ-7). A ausência de eventos adversos graves em todos os estudos é encorajadora e corrobora o perfil de segurança da intervenção.
Contudo, algumas limitações devem ser ponderadas com cautela. Primeiro, a maioria dos estudos incluídos (5 de 8) tem desenho quasi-experimental sem grupo controle, o que limita a inferência causal e a quantificação do eito placebo. Segundo, há heterogeneidade metodológica expressiva entre os estudos, incluindo variações no protocolo de preparo do PRP (concentração plaquetária, técnica de centrifugação, status de ativação), nas técnicas de injeção (cistouretroscópica, transvaginal, periuretral), nos volumes e nos sítios anatômicos. Essa variabilidade dificulta a padronização e a comparação direta entre estudos. Terceiro, os períodos de seguimento são curtos (1 a 12 meses), insuficientes para determinar a durabilidade do efeito terapêutico. Por fim, o achado de melhora significativa no ALPP baseou-se em apenas dois estudos quasi-experimentais, limitando a robustez desse resultado específico.
Em perspectiva, o PRP injetável pode representar uma opção terapêutica minimamente invasiva interessante para mulheres com IUE que não respondem às terapias convencionais, que não são candidatas a cirurgia ou como estratégia adjuvante. A possibilidade de aplicação ambulatorial, com produto autólogo e perfil de segurança favorável, torna a abordagem particularmente atrativa do ponto de vista prático. Estudos futuros devem adotar protocolos padronizados de preparo e aplicação do PRP, incluir grupos controle apropriados, empregar tamanhos amostrais calculados e estabelecer um núcleo comum de desfechos (core outcome set) com seguimento de longo prazo (mínimo 24 meses). Até que essas evidências estejam disponíveis, o PRP injetável deve ser considerado uma terapia experimental promissora, cujo uso clínico deve ser individualizado e preferencialmente conduzido no contexto de pesquisa ou em pacientes selecionadas com falha de terapias convencionais.
Referência
Utama BI, Birru ABA, Cuandra KN, Puspita R, Arianto S, Pranowo GY, et al. Therapeutic efficacy and safety of injectable platelet-rich plasma in women with stress urinary incontinence: a systematic review and meta-analysis. Front Med. 2026;13:1728478. doi: 10.3389/fmed.2026.1728478.

