
Produtos naturais para o tratamento da incontinência urinária
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Introdução
Este artigo apresenta uma revisão abrangente sobre produtos naturais utilizados no tratamento de sintomas do trato urinário inferior e infecções urinárias. O trabalho foi desenvolvido a partir de apresentações realizadas durante um workshop intitulado "Produtos Naturais como Tratamentos para Incontinência Urinária" apresentado na conferência anual online da International Continence Society em 2021. A revisão aborda evidências clínicas e científicas sobre medicinas tradicionais chinesas, fitoestrogênios, saw palmetto, cranberry, D-manose e estratégias emergentes para restaurar a função de barreira do urotelio, particularmente relevantes em condições como cistite intersticial/síndrome da dor vesical.
Objetivo
Revisar e sintetizar as evidências científicas e clínicas sobre a eficácia de produtos naturais no tratamento de sintomas do trato urinário inferior, infecções urinárias recorrentes e potenciais terapias para restauração da função de barreira urothelial.
Desenho do estudo
Revisão narrativa de literatura científica e evidências clínicas.
Materiais e Métodos
O artigo examina quatro áreas principais de produtos naturais:
- Cranberry e D-manose para infecções urinárias: Estes agentes funcionam prevenindo a adesão bacteriana ao trato urinário. O cranberry contém proantocianidinas (PAC) e frutose como ingredientes ativos, enquanto a D-manose bloqueia a adesão bacteriana por sua estrutura similar ao sítio de ligação bacteriano no urotelio.
- Fitoestrogênios: Compostos derivados de plantas (isoflavonas, cumestanos, lignanas) encontrados em soja, legumes, linhaça, grãos e vegetais. Atuam como moduladores seletivos de receptores de estrogênio, funcionando como agonistas, agonistas parciais ou antagonistas em diferentes tecidos.
- Saw palmetto (Serenoa repens): Extrato utilizado para sintomas urinários resultantes de obstrução da saída vesical associada à hiperplasia prostática benigna. Mecanismos de ação incluem: inibição da enzima 5α-redutase, propriedades anti-androgênicas, efeitos anti-inflamatórios e relaxamento da musculatura lisa.
- Medicinas tradicionais chinesas (TCM): Formulações herbais complexas como Ba-Wei-Di-Huang-Wan (BWDHW) e Gosha-jinki-gan (GJG), compostas por múltiplas ervas com ações sinérgicas. Estudos laboratoriais demonstram mecanismos incluindo aumento da sensibilidade de receptores β3-adrenérgicos, atenuação de expressão TRPV1, inibição de sinalização via Ca2+ e via rho kinase, aumento de óxido nítrico e promoção de expressão de canais de potássio.
- Lubricina e estratégias emergentes de reposição de glicosaminoglicanos (GAG): Lubricina (proteoglicano 4) é um lubrificante natural com estrutura única em "escova de garrafa", altamente hidrofílica, que previne morte celular e diminui inflamação celular. Outras abordagens incluem biopolímeros SuperGAG de alto peso molecular, éteres GAG semi-sintéticos (SAGEs) e sistemas de entrega inovadores como biopolímeros silk-elastin-like (SELP).
Desfechos
Eficácia clínica de produtos naturais em sintomas do trato urinário inferior, infecções urinárias recorrentes e potencial para restauração de função de barreira urothelial.
Resultados
- Cranberry e D-manose: Revisões sistemáticas recentes concluem que a evidência clínica para eficácia de cranberry na prevenção de infecção urinária é inconclusiva, com apenas 50% dos ensaios incluídos sendo bem-sucedidos. D-manose mostrou maior sucesso em ensaios clínicos, porém com apenas baixo nível de evidência devido ao pequeno número de estudos. As limitações incluem pequenos tamanhos amostrais, desenhos de estudo inconsistentes e diferentes formulações.
- Fitoestrogênios: Evidências mistas. Um estudo sugeriu efeito protetor de fitoestrogênios lignana contra incontinência autorreferida em mulheres pós-menopáusicas. Uma revisão sistemática recente relatou melhora em desordens urogenitais e função sexual. Entretanto, um estudo longitudinal não encontrou evidência de que altas ou baixas ingestões dietéticas de isoflavonas, coumestrol e lignanas prevenissem incontinência de esforço ou urgência.
- Estrogênio local: Um Cochrane review de 2012 revelou que o tratamento com estrogênio local reduziu frequência e urgência miccional. Estudo piloto recente demonstrou que tratamento hormonal com estrogênio e progesterona, bem como terapia com complexo estrogênico seletivo de tecido, reduziram significativamente prevalência e incômodo de noctúria em mulheres com ≥2 vazamentos noturnos. Prasterona intravaginal (6,5 mg) mostrou-se eficaz em reduzir sintomas em mulheres pós-menopáusicas com síndrome genitourinária da menopausa e síndrome da bexiga hiperativa.
- Saw palmetto: Resultados inconsistentes. A Associação Europeia de Urologia recomenda um extrato específico de saw palmetto (extrato hexânico) para sintomas do trato urinário inferior associados a HPB. Um estudo relatou que o extrato hexânico melhorou sintomas e qualidade de vida similar ao tamsulosina, mas com menos efeitos adversos. Entretanto, outro estudo sugeriu que saw palmetto não resulta em benefício clínico em homens com sintomas do trato urinário inferior quando usado isoladamente, mas pode ser efetivo em combinação com outras fitoterapias. Um ensaio randomizado (SPRITE) mostrou que saw palmetto mais licopeno e selênio foi mais efetivo que inibidores de PDE5 isolados para obstrução da saída vesical. Contrastando, uma revisão Cochrane relatou que Serenoa repens não proporcionou melhora em medidas de fluxo urinário ou tamanho prostático em homens com sintomas do trato urinário inferior associados a HPB.
- Medicinas tradicionais chinesas: Alguns ensaios clínicos mostram resultados promissores. BWDHW em ensaio randomizado, duplo-cego, controlado por placebo com 186 mulheres com bexiga hiperativa não melhorou significativamente sintomas gerais de OAB, porém relatou reduções específicas em frequência e urgência miccional. GJG reduziu significativamente frequência miccional, melhorou qualidade de vida e teve baixa incidência de efeitos adversos em mulheres com bexiga hiperativa. GJG em combinação com bloqueadores α1-adrenérgicos ou drogas antimuscarínicas melhorou sintomas do trato urinário inferior e sensibilidade ao frio em pacientes não responsivos a bloqueadores α1 ou antimuscarínicos isolados. Estudo comparando furosemida e GJG para poliúria noturna encontrou que ambos melhoraram escore de noctúria, mas furosemida foi mais efetiva em reduzir frequência noturna e volume urinário. Ensaio investigando Bu-Zhong-Yi-Qi-Tang e Sang-Piao-Xiao-San encontrou melhora significativa em frequência miccional, urgência e incontinência de urgência, com poucos efeitos colaterais (boca seca).
- Lubricina e estratégias emergentes: Estudos pré-clínicos suportam uso intravesical de lubricina para desordens da bexiga, com capacidade de restaurar integridade de barreira do urotelio. Biopolímeros SuperGAG de alto peso molecular mostraram-se efetivos em restaurar impermeabilidade urothelial e reduzir dor em modelos murinos de cistite intersticial/síndrome da dor vesical. Terapias semi-sintéticas GAG-éteres (SAGEs) podem restaurar mucosa com efeitos analgésicos e anti-inflamatórios intrínsecos. Sistemas de entrega inovadores como biopolímeros silk-elastin-like (SELP) demonstram acúmulo aprimorado de GAGs na bexiga em estudos experimentais.
Conclusão do Trabalho
Estudos laboratoriais experimentais demonstraram que muitos produtos naturais possuem ações celulares que explicariam sua popularidade no tratamento de incontinência urinária. Entretanto, existem poucos ensaios clínicos bem-controlados utilizando estes agentes para suportar seu uso em pacientes com sintomas do trato urinário inferior. A falta de evidência de efetividade não é surpreendente considerando os muitos problemas encontrados no teste destes agentes, como dificuldades em padronizar extratos de plantas com composições variáveis e diferentes métodos de extração. A estas dificuldades devem ser adicionadas as dificuldades em financiar estudos onde não há patente óbvia e recompensa financeira potencial para motivar pesquisa. Estes obstáculos dificultam a descoberta de novas terapias naturais e seu desenvolvimento para uso clínico.
Comentário Editorial
Este artigo de revisão apresenta uma síntese valiosa sobre produtos naturais no tratamento de sintomas do trato urinário inferior e infecções urinárias, abordando uma demanda crescente de pacientes e clínicos por alternativas terapêuticas. A abordagem é abrangente, cobrindo desde agentes bem estudados como cranberry e D-manose até medicinas tradicionais chinesas e estratégias emergentes de restauração de barreira urothelial.
As principais limitações do trabalho residem na heterogeneidade metodológica dos estudos clínicos disponíveis. A maioria dos ensaios com cranberry e D-manose apresenta pequenos tamanhos amostrais, desenhos inconsistentes e diferentes formulações, dificultando conclusões definitivas. Para medicinas tradicionais chinesas, a variabilidade na composição química das formulações herbais complexas, dependente de espécie de planta, método de extração e condições de armazenamento, representa desafio significativo na padronização e reprodutibilidade dos resultados. Adicionalmente, a maioria dos estudos com TCM foi realizada em países asiáticos, limitando generalização para outras populações.
Apesar destas limitações, alguns achados merecem destaque. O tratamento com estrogênio local mostrou benefício consistente em reduzir sintomas urinários em mulheres pós-menopáusicas, com perfil de segurança favorável comparado ao estrogênio sistêmico. As medicinas tradicionais chinesas, particularmente GJG, demonstraram potencial como terapia complementar ou alternativa para bexiga hiperativa, especialmente em combinação com terapias convencionais. As estratégias emergentes de restauração de barreira urotelial, incluindo lubricina e biopolímeros GAG modificados, representam direção promissora para condições como cistite intersticial/síndrome da dor vesical, com alguns agentes já em ensaios clínicos para outras indicações.
Do ponto de vista prático, este trabalho reforça a importância de uma abordagem individualizada no manejo de sintomas do trato urinário inferior, considerando preferências do paciente, perfil de segurança e potencial para terapias combinadas. A crescente evidência de mecanismos de ação celulares para muitos produtos naturais justifica investimento em ensaios clínicos mais rigorosos e bem-desenhados. Futuras pesquisas devem focar em padronização de extratos, desenhos de estudo consistentes, tamanhos amostrais adequados e investigação de terapias combinadas. A integração de conhecimento de medicina tradicional com metodologia científica moderna pode abrir novas perspectivas terapêuticas para condições urológicas funcionais.
Referência
Chess-Williams R, Mansfield K, Exintaris B, Lim I, Sellers D. Natural products for the treatment of urinary incontinence. Continence. 2023;7:100714.

