
Marcos históricos na cirurgia de continência urinária masculina: dos suportes uretrais iniciais aos sistemas de sling modernos
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Introdução
A incontinência urinária de esforço (IUE) masculina representa um problema clínico significativo, particularmente após prostatectomia radical. Ao longo do último século, as abordagens terapêuticas evoluíram de enxertos fasciais autólogos para sistemas de sling sintéticos anatomicamente adaptados. Este artigo apresenta uma revisão histórica narrativa que descreve a evolução dos sistemas de sling uretral masculino, destacando os princípios de design, materiais e instrumentos cirúrgicos que moldaram seu desenvolvimento. Os autores identificaram três eras principais de inovação: Era I (1900-1972) estabeleceu conceitos fundamentais com procedimentos de Berry e Kaufman; Era II (1972-1998) marcou um período de desenvolvimento limitado devido à introdução do esfíncter urinário artificial; Era III (1998-presente) representa a maturação dos sistemas modernos de sling, incluindo dispositivos de âncora óssea, slings transobturadores e sistemas de compressão ajustável.
Objetivo
Explorar e descrever a trajetória histórica do desenvolvimento dos sistemas de sling uretral masculino, desde seus primórdios até as tecnologias contemporâneas.
Desenho do estudo
Revisão histórica narrativa baseada em metodologia adaptada de Ferrari, incluindo busca estruturada em bases de dados (Ovid, PubMed, Google Scholar) e literatura cinzenta.
Período de inclusão
Desde 1900 até dezembro de 2025.
Materiais e Métodos
Foram realizadas buscas estruturadas em Ovid, PubMed e Google Scholar, cobrindo desde a criação das bases até dezembro de 2025. Os termos de busca foram organizados em quatro domínios principais: (i) incontinência urinária de esforço masculina; (ii) dispositivos e procedimentos de sling masculino; (iii) instrumentos cirúrgicos urológicos; e (iv) descritores históricos ou de evolução. Além das buscas estruturadas, foram realizadas buscas manuais de literatura cinzenta, incluindo descrições iniciais de dispositivos, livros de texto cirúrgicos e documentos de sociedades profissionais relacionadas à continência. Todos os autores revisaram e sintetizaram a literatura coletada para inclusão nesta revisão histórica narrativa.
Resultados
Era I (1900-1972) — Fundações e conceitos pré-sling: O primeiro procedimento de sling foi descrito em 1907 por Giordano, utilizando retalho de músculo grácil autólogo para circundar a uretra. Em 1956, Bracht relatou o primeiro uso de material sintético (sling de náilon). Em 1961, John L. Berry descreveu a operação de Berry, implantando malha acrílica ventralmente à uretra bulbar, ancorada ao ramo púbico. Nos anos 1970, Joseph Kaufman introduziu refinamentos importantes, desenvolvendo as operações de Kaufman I-III, que utilizavam materiais sintéticos sofisticados, incluindo malha de politetrafluoroetileno (PTFE) e prótese preenchida com gel de silicone.
Era II (1972-1998) — A era do esfíncter dominante e o período de desenvolvimento limitado: Apesar dos avanços iniciais, os procedimentos de sling apresentavam altas taxas de complicações (erosão uretral, formação de fístula e dor significativa), resultando em baixa adoção clínica. De 1973 a 1990, os slings uretrais masculinos entraram em um "período dormente". Em 1972, F. Brantley Scott realizou o primeiro implante de esfíncter urinário artificial (EUA) em humanos, que rapidamente se tornou a opção mais apropriada para incontinência urinária masculina, reduzindo o interesse em desenvolver técnicas de sling. Além disso, a prostatectomia radical não se tornou amplamente adotada globalmente até o final dos anos 1980 e início dos anos 1990.
Era III (1998-presente) — Evolução e maturação dos slings modernos: A partir dos anos 1990 e início dos anos 2000, uma nova geração de conceitos de sling uretral masculino começou a emergir. Em 1998, Schaeffer e colegas descreveram uma técnica inovadora de suspensão bulbouretral usando parafusos ósseos para fixação, eliminando a necessidade de incisão abdominal. Os slings modernos foram classificados em tipos ajustáveis e não ajustáveis, colocados através de abordagem retropúbica ou transobturadora.Os principais sistemas desenvolvidos incluem:
- Slings de âncora óssea (SAO): O sistema InVance™ (2003) fornecia suporte uretral ventral com taxa de sucesso de 74,5%, mas foi retirado do mercado devido a complicações como osteíte.
- Sistemas de sling ajustável: O sistema Argus™ (2004) consiste em almofada de espuma de silicone posicionada sob a uretra bulbar com colunas de silicone ajustáveis.
- O sistema Remeex™ (2003) utiliza mecanismo de ajuste mecânico pós-operatório com taxa de sobrevida de 95,70% e taxa de explantação de 4,30%.
- O sistema ATOMS™ (2010) é um sistema transobturador ajustável com almofada de silicone conectada a uma porta de titânio no escroto, permitindo ajuste percutâneo pós-operatório, com taxa de sobrevida de implante de 88% aos 60 meses.
- Slings de reposicionamento (SR): O AdVance™ (2006) é construído de polipropileno com braços transobturadores, comprimindo e reposicionando a uretra bulbar proximalmente. O AdVance XP™ (2010) incorporou refinamentos de design.
- O Virtue™ (2009) é um sling quadrangular não ajustável com quatro braços de malha. O I-STOP TOMS™ (2009) é um design de quatro braços implantado via abordagem transobturadora.
- Sistemas híbridos: O Surgimesh® M-SLING (meados de 2010) é um sling quadrangular de quatro braços com configuração de vetor divergente.
Conclusão do Trabalho
Os sistemas de sling uretral masculino representam uma solução cirúrgica clinicamente significativa para IUE em homens, particularmente em pacientes com sintomas leves a moderados e sem radioterapia pélvica prévia. A trajetória histórica reflete inovação contínua visando melhorar os resultados de continência, minimizar complicações e aprimorar a qualidade de vida. Enquanto os sistemas iniciais mostraram sucesso moderado com altas taxas de complicações, os sistemas ajustáveis e de reposicionamento mais recentes demonstraram perfis de segurança melhorados e continência a longo prazo, embora a durabilidade permaneça variável. Pesquisas futuras devem priorizar o desenvolvimento de biomateriais com maior biocompatibilidade, sistemas de sling individualizados baseados na anatomia específica do paciente e estudos de resultados multicêntricos a longo prazo.
Comentário Editorial
Este artigo oferece uma perspectiva histórica abrangente e bem documentada sobre a evolução dos sistemas de sling masculino, destacando como refinamentos iterativos em biomecânica, biomateriais e instrumentos cirúrgicos moldaram a cirurgia de continência contemporânea. A divisão em três eras proporciona uma estrutura clara para compreender o desenvolvimento tecnológico e clínico.
Do ponto de vista prático, o trabalho reforça que os sistemas modernos de sling representam alternativas viáveis ao esfíncter urinário artificial para pacientes selecionados com IUE masculina leve a moderada. A evolução de materiais sintéticos (de acrílico para polipropileno e silicone) e mecanismos de fixação (de sutura simples para parafusos ósseos e sistemas transobturadores) demonstra progresso significativo em segurança e eficácia.
Os sistemas ajustáveis (Remeex™ e ATOMS™) oferecem vantagem teórica de otimização pós-operatória, enquanto os sistemas de reposicionamento (AdVance™ e Virtue™) proporcionam abordagens menos invasivas.
Limitações importantes devem ser consideradas: a maioria dos estudos apresenta seguimento relativamente curto, com alguns sistemas (como I-STOP TOMS™) mostrando deterioração de resultados em seguimento prolongado. A seleção adequada de pacientes é crucial, particularmente evitando aqueles com radioterapia pélvica prévia, onde os resultados são significativamente piores. Complicações como erosão de sling e infecção permanecem preocupações relevantes em alguns sistemas.
Perspectivas futuras incluem o desenvolvimento de biomateriais mais biocompatíveis, sistemas de sling personalizados baseados em características anatômicas individuais e estudos prospectivos multicêntricos com seguimento prolongado. A integração de tecnologias de imagem avançadas para planejamento pré-operatório e a padronização de técnicas cirúrgicas também são essenciais para otimizar resultados e expandir as indicações terapêuticas em populações de incontinência mais complexas.
Referência
Mak SL, Chuang YT, Chen TA. Historical milestones in male continence surgery: From early urethral supports to modern sling systems. Continence Reports. 2026;18:100115.

