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Urodinâmica pré-operatória e o risco de sobrediagnóstico e sobretratamento de incontinência urinária oculta em mulheres continentes com prolapso de órgãos pélvicos avançado

Autores do Artigo: 

Susane Mei Hwang, Luis Gustavo Morato de Toledo, Silvia da Silva Carramão, Carolina Remesso Maximo de Jesus, Sarah Zanotto de Carvalho, Antonio Pedro Flores Auge

Journal

World Journal of Urology

Data da publicação

Abril 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

O prolapso de órgãos pélvicos (POP) avançado é uma condição frequente em mulheres. A incontinência urinária de esforço (IUE) oculta, detectada apenas após a redução do prolapso, é uma preocupação clínica importante. A urodinâmica (UD) é frequentemente utilizada no pré-operatório para identificar essa condição, porém questiona-se se essa prática realmente melhora os resultados clínicos ou se contribui para sobrediagnóstico e sobretratamento desnecessário.

Objetivo

Investigar se a urodinâmica pré-operatória em mulheres continentes com prolapso avançado de órgãos pélvicos leva ao sobrediagnóstico e sobretratamento da incontinência urinária de esforço oculta.

Desenho do estudo

Estudo observacional retrospectivo.

Número de pacientes

226 mulheres

Período de inclusão

Maio de 2015 a janeiro de 2020

Materiais e Métodos

Foram incluídas 226 mulheres continentes com prolapso de órgãos pélvicos estágio III-IV submetidas a cirurgia. A avaliação pré-operatória consistiu em exame físico com teste de esforço e realização de urodinâmica conforme critério do cirurgião. A urodinâmica foi realizada em 45,1% das pacientes (102/226), enquanto 124 pacientes (54,9%) foram avaliadas apenas com exame físico. Os desfechos foram comparados entre os dois grupos.

Desfechos

Primários: presença de incontinência urinária de esforço de novo no pós-operatório e necessidade de sling suburetral no pós-operatório. Secundários: sintomas de urgência e armazenamento urinário.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Inclusão: mulheres com prolapso de órgãos pélvicos estágio III-IV, continentes ao exame físico.

Exclusão: pacientes com incontinência urinária de esforço sintomática pré-operatória.

Resultados

A taxa geral de incontinência oculta foi de28.8% (65/226).

A urodinâmica forneceu diagnósticos adicionais em 62,7% das pacientes avaliadas (64/102), incluindo incontinência urinária de esforço oculta em 20,6% (21/102).

O resultado da urodinâmica modificou o plano cirúrgico em 19,6% dos casos (20/102), com recomendação de sling em 18 pacientes e contraindicação em 2.

No grupo de 182 pacientes continentes ao exame físico, 68 realizaram urodinâmica e 114 não.

No pós-operatório, não houve diferença significativa na incontinência urinária de esforço de novo entre os grupos (8,8% no grupo UD versus 9,6% no grupo sem UD; p > 0,05).

A necessidade de sling no pós-operatório também foi semelhante (5,9% versus 4,4%; p > 0,05).

Entretanto, o grupo submetido à urodinâmica apresentou mais sintomas de urgência e armazenamento no pós-operatório.

Conclusão do Trabalho

A urodinâmica pré-operatória aumenta a frequência do diagnóstico de IU oculta e influencia o plano cirúrgico, aumentando a taxa de sling. Porém, não melhora os resultados pós-operatórios em pacientes continentes ao exame físico, sugerindo potencial sobrediagnóstico e sobretratamento.

Comentário Editorial

Este estudo levanta uma questão clínica relevante sobre a utilidade real da urodinâmica pré-operatória em mulheres continentes com prolapso avançado.

Os resultados demonstram que, embora a urodinâmica identifique incontinência oculta em aproximadamente 20% das pacientes e modifique o plano cirúrgico em cerca de 20% dos casos, isso não se traduz em melhores desfechos clínicos pós-operatórios. Especificamente, a taxa de incontinência de esforço de novo foi praticamente idêntica entre os grupos, assim como a necessidade de procedimentos anti-incontinência no pós-operatório.

Essa observação é particularmente importante considerando que a urodinâmica é um exame invasivo, de custo elevado e que requer expertise técnica. O achado de maior frequência de sintomas de urgência e armazenamento no grupo submetido à urodinâmica também levanta a questão sobre possível viés de seleção ou efeito iatrogênico do procedimento.

Limitações relevantes incluem o desenho retrospectivo, possível viés de seleção quanto à indicação de urodinâmica (cirurgiões mais experientes podem ter maior confiança no exame físico), e o período de seguimento pós-operatório que não foi especificado. Além disso, a avaliação de sintomas foi baseada em questionários e não em urodinâmica pós-operatória.

Do ponto de vista prático, este trabalho sugere que o exame físico com teste de esforço adequado pode ser suficiente para estratificação pré-operatória em mulheres continentes com prolapso avançado, reservando a urodinâmica para casos selecionados com apresentação clínica duvidosa. Futuras investigações prospectivas com seguimento estruturado e padronizado poderão elucidar melhor essa questão e definir o verdadeiro papel da urodinâmica nessa população.

Referência

Hwang SM, Toledo LGM, Carramão SS, Jesus CRM, Carvalho SZ, Auge APF. Preoperative urodynamics and the risk of overdiagnosis and overtreatment of occult urinary incontinence in continent women with advanced pelvic organ prolapse. World Journal of Urology. 2026;44:350.