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Terapia Adjuvante com Pembrolizumabe e Belzutifano no Carcinoma de Células Renais

Autores do Artigo: 

T.K. Choueiri et al.

Journal

The New England Journal of Medicine

Data da publicação

Julho 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

No dia 02 de julho de 2026, foi publicado no The New England Journal of Medicine o estudo LITESPARK-022, com o título, em tradução livre, “Terapia Adjuvante com Pembrolizumabe e Belzutifano no Carcinoma de Células Renais”. Neste estudo foi avaliada a combinação de pembrolizumabe e belzutifano no cenário adjuvante em comparação ao pembrolizumabe com placebo em pacientes com carcinoma de células claras renais de risco alto ou intermediário-alto para recorrência ou pacientes com doença metastática ressecada sem evidência de doença. Confira a seguir mais detalhes do estudo:

Objetivo

Avaliar a superioridade da combinação de pembrolizumabe ao belzutifano contra o pembrolizumabe associado ao placebo em pacientes submetidos à ressecção cirúrgica de carcinoma de células renais de células claras que apresentam risco intermediário-alto ou alto para recorrência da doença, ou com metástase à distância sem evidência de doença clínica.

Desenho do estudo

Trata-se de um ensaio clínico de fase 3, duplo-cego, placebo controlado e multinacional. A randomização ocorreu na proporção 1:1. Os pacientes foram estratificados por risco de recorrência (intermediário-alto vs. alto risco vs. M1 sem evidência de doença) e grau histológico (GH 1-2 vs. GH 3-4).

Braço intervenção: Pembrolizumabe IV 400 mg a cada 6 semanas + Belzutifano oral na dose de 120 mg diários.

Braço controle: Pembrolizumabe IV 400 mg a cada 6 semanas + Placebo

Foram autorizadas reduções de dose do belzutifan, mas não do pembrolizumabe. O tratamento em ambos os grupos foi conduzido por um período de até 1 ano. A descontinuação poderia acontecer por recorrência, toxicidade limitante ou gestação. 

Número de pacientes

Foram triados 2.433 participantes, mas foram incluídos e randomizados 1.841 participantes. Dentre o total, 921 participantes foram alocados no braço de pembrolizumabe e belzutifan, enquanto 920 foram alocados no braço de pembrolizumabe e placebo.

Período de inclusão

Entre março de 2022 e maio de 2024.

Materiais e Métodos

A análise estatística das diferenças entre os grupos com relação à sobrevida livre de doença e sobrevida global foi executada por meio do teste de log-rank estratificado. As razões de risco foram estimadas por meio de um modelo de regressão de Cox estratificado, utilizando o método de Efron para o tratamento estatístico de empates. As proporções de sobrevida livre de doença e sobrevida global ao longo do seguimento foram estimadas por meio dos métodos não paramétricos de Kaplan-Meier. Foram estimados 496 eventos de sobrevida livre de doença para um poder de 95% com HR 0,72 e alfa bicaudado de 0,05. 

Desfechos

Desfecho primário: sobrevida livre de doença definida como o tempo decorrido desde a randomização até a primeira recorrência local ou à distância documentada, mediante avaliação do investigador, ou morte por qualquer causa.

Desfechos secundários: sobrevida global e segurança.

Desfecho exploratório: sobrevida livre de doença por revisão central independente cega.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Foram incluídos pacientes adultos com 18 anos ou mais, com diagnóstico histológico de carcinoma de células renais de células claras ressecado cirurgicamente, que preenchessem os critérios de recorrência: intermediário-alto risco (pT2, GH4 ou sarcomatoide, N0, M0 ou pT3, qualquer grau, N0, M0), alto risco (p4, qualquer grau, N0, M0 ou qualquer T, N+, M0) e M1 sem evidência de doença (metástases ressecadas concomitantemente ou até 2 anos da nefrectomia). A última intervenção cirúrgica devia ter sido realizada em um prazo máximo de 12 semanas antes da randomização. Participantes com margens vasculares ou de tecidos moles microscopicamente comprometidas, porém sem doença residual macroscópica foram permitidos. Os critérios de exclusão foram: terapia sistêmica ou radioterapia prévias para carcinoma de células claras renais, lesões metastáticas cerebrais ou ósseas preexistentes, contraindicação aos medicamentos do estudo e doença cardiovascular significativa nos últimos 6 meses antes da randomização.

Resultados

Os grupos foram bem balanceados em relação às características basais, contudo houve sub-representação da população negra (0,7%). Em torno de 85% dos pacientes incluídos foram de risco intermediário-alto risco (em sua maioria pT3). Na análise de CPS maior ou igual a 1, foram 59% no braço intervenção e 54% no controle, sendo que o PD-L1 foi não avaliável em 16,5% e 21,8%, respectivamente. A população metastática sem evidência de doença foi 9,1% em ambos os braços e linfonodos positivos ocorreram em torno de 4,5% dos casos.

Quanto ao desfecho primário, estavam vivos e sem recorrência em 30 meses, 75,8% dos pacientes no braço pembrolizumabe-belzutifan e 68,6% no braço pembrolizumabe-placebo, com sobrevida livre de doença estatisticamente superior no braço intervenção com HR 0,72 (IC 95% 0,59-0,87, p < 0,001).


Nesta análise interina, em 30 meses, estavam vivos 95,6% no braço intervenção e 93,8% no controle, com HR 0,78 (IC 95%, 0,51 a 1,19; p = 0,24). Sem diferença estatisticamente significante.

O tratamento com pembrolizumabe + belzutifano foi considerado bem tolerado e os eventos adversos manejáveis, porém houve maior incidência de toxicidades graus 3 ou maior (52,1% vs. 30,2%), além de descontinuações no grupo experimental (34,3% vs. 19,5%). Os eventos mais comuns de descontinuação foram a elevação de ALT (5,2% vs 1,8%), anemia (4% vs 0,1%) e elevação de AST (3,3% vs 1,6%). Eventos com morte ocorreram em 10 participantes no braço intervenção (1,1%) e 11 no controle (1,2%).

Conclusão do Trabalho

A terapia com a associação de pembrolizumabe e belzutifan foi associada a ganho em sobrevida livre de doença quando comparada à monoterapia adjuvante com pembrolizumabe após ressecção cirúrgica em pacientes com carcinoma de células renais de células claras de risco intermediário-alto ou alto para recidiva, às custas de maior toxicidade e descontinuações. Não houve ganho em sobrevida global nesta análise interina. Como limitações, os autores apontam o pequeno número de alguns subgrupos e sub-representação da população negra.

Comentário Editorial

Nos últimos anos, ocorreram avanços na adjuvância do carcinoma de células claras renais. Anteriormente, apenas o sunitinibe havia demonstrado ganho em sobrevida livre de doença, mas a ausência de ganho em sobrevida global e elevada toxicidade limitaram sua adoção na prática clínica. A incorporação de estratégias baseadas em imunoterapia trouxe ganhos significativos na doença avançada e posteriormente foi testada no cenário da adjuvância. Contudo, apenas o pembrolizumabe adjuvante demonstrou ganho em sobrevida livre de doença e, mais recentemente, ganho em sobrevida global. Outros anti PD-(L)1 falharam em demonstrar benefício em sobrevida livre de doença, como: nivolumabe + ipilimumabe ou nivolumabe monoterapia (Checkmate 914), atezolizumabe (IMmotion010) e nivolumabe perioperatório (PROSPER).

O estudo KEYNOTE-564, que selecionou pacientes com risco intermediário-alto e alto risco de recorrência, além de M1 SED, foi o primeiro estudo a demonstrar ganho em sobrevida global (91,2% vs. 86,0% em 48 meses; HR 0,62; IC 95% 0,44-0,87; p=0,005) com pembrolizumabe adjuvante 1 ano contra placebo. Como única imunoterapia a demonstrar benefício em SLD e SG, seria efeito direto da molécula ou a seleção da população do estudo? No estudo KEYNOTE-564, a terapia sistêmica subsequente foi majoritariamente agentes anti-VEGF no grupo pembrolizumabe (92,4%) e terapias anti-PD-1/PD-L1 no grupo placebo (69,7%). As diretrizes atuais da EAU não recomendam a administração de inibidores de checkpoint imunológico em recidivas que ocorram durante ou logo após o tratamento adjuvante com pembrolizumabe.

Neste cenário, o estudo LITESPARK-022, publicado no New England e apresentado na ASCO GU 2026, testou a associação do belzultifano, um inibidor do HIF-2-alfa, ao pembrolizumabe adjuvante em pacientes com carcinoma de células claras renais ressecado com risco intermediário-alto ou alto risco de recorrência e pacientes com metástases ressecadas sem evidência de doença. 
Ao analisar a população, nota-se um predomínio de pacientes com risco intermediário-alto (85% dos casos), pacientes com N positivo foram apenas 4% e menos de 10% eram metastáticos SED. Na discussão do artigo, os autores comparam a população deste estudo com o KEYNOTE-564, indicando maior prevalência de pacientes M1 SED (9,1 vs. 5,8%) e grau 4 (27,8% vs. 22,3%), contudo as comparações entre estudos devem ser realizadas com cautela. O estudo demonstrou que a combinação de pembrolizumabe e belzultifano teve ganho significativo em sobrevida livre de doença em comparação ao pembrolizumabe isolado (em 30 meses, 75,8% vs. 68,6%, HR 0,72 - IC 95% 0,59-0,87, p < 0,001). Na análise de subgrupos de sobrevida livre de doença incluída no Suplemento, os casos com CPS < 1% (em torno de 24% dos casos), risco alto de recidiva e M1 SED cruzaram a unidade. 


Nesta análise interina, a sobrevida global não apresentou diferença estatisticamente significativa.
Outro ponto de atenção foi a elevada toxicidade da combinação, com eventos grau 3 ou mais em 52,1% dos casos do braço intervenção contra 30,2% do controle. Com destaque para elevação de transaminases e anemia. Abaixo, a tabela dos eventos adversos que levaram à descontinuação:

Nos pacientes com recidiva de doença, não foram citadas as terapias subsequentes, o que seria fundamental na discussão, visto que ambas as drogas são ativas na doença avançada. Desta forma, os dados de seguimento de longo prazo serão fundamentais para seleção dos pacientes para esta estratégia, considerando a toxicidade elevada, a ausência de ganho em sobrevida global pode limitar a adoção desta combinação.

Referência

Choueiri TK, Motzer RJ, Karam JA, Yip W, Suárez C, Ye D, He Z, Caglevic C, Ferguson T, Chang YH, Rojas C, Iacovelli R, Ürün Y, Verzoni E, Vázquez Limón JC, Porta C, Uzzo RG, Lee JL, Venugopal B, McKay RR, Hammers H, Miyake H, Chahoud J, Liu H, Burgents JE, Sharma M, Powles TB; LITESPARK-022 Investigators. Adjuvant Pembrolizumab plus Belzutifan for Renal-Cell Carcinoma. N Engl J Med. 2026 Jul 2;395(1):32-43. doi: 10.1056/NEJMoa2518245. PMID: 42384869.