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Série Clássicos - [¹⁷⁷Lu]Lu-PSMA-617 versus cabazitaxel no câncer de próstata resistente à castração metastático: estudo randomizado de fase 2 TheraP

Autores do Artigo: 

Michael Hofman et al.

Journal

The Lancet

Data da publicação

Fevereiro 2021

Autor do Resumo

Editor de Seção

Apoio educacional:

  

Introdução

Em fevereiro de 2021 foi publicado no The Lancet o estudo TheraP, com o título, em tradução livre, “¹⁷⁷Lu-PSMA-617 versus cabazitaxel em pacientes com câncer de próstata resistente à castração metastático: estudo aberto, randomizado, de fase 2”. O estudo avaliou o ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 em pacientes com câncer de próstata resistente à castração metastático previamente tratados com docetaxel e considerados candidatos ao uso de cabazitaxel. A hipótese era que a seleção por PET PSMA/TC e PET FDG poderia identificar pacientes nos quais a terapia com radioligante apresentaria maior atividade e menor toxicidade que a quimioterapia. O estudo mostrou maior frequência de resposta de PSA, atraso da progressão, maior taxa de resposta objetiva e menos eventos adversos de graus 3–4 com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617. Confira abaixo mais detalhes do estudo:

Objetivo

Comparar a atividade antitumoral e a segurança do ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 versus cabazitaxel em pacientes com câncer de próstata resistente à castração metastático, previamente tratados com docetaxel e para os quais cabazitaxel era considerado o próximo tratamento padrão apropriado.

Desenho do estudo

O TheraP, também denominado ANZUP 1603, foi um estudo multicêntrico, aberto, randomizado, de fase 2, conduzido em 11 centros na Austrália. Após seleção por PET PSMA/TC com ⁶⁸Ga-PSMA-11 e PET FDG, os pacientes foram randomizados na proporção 1:1 para receber ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 8,5 GBq (com redução de 0,5 GBq por ciclo) a cada 6 semanas por até 6 ciclos ou cabazitaxel 20 mg/m2 IV a cada 3 semanas por até 10 ciclos. A randomização foi estratificada de acordo com a carga de doença no PET PSMA/TC, definida como mais de 20 versus até 20 sítios metastáticos, uso prévio de enzalutamida ou abiraterona e centro participante.

Número de pacientes

Foram triados 291 pacientes. Destes, 91 foram excluídos, incluindo 29, correspondente a 10%, por baixa captação no PET PSMA/TC, e 51, correspondente a 18%, por apresentarem doença discordante, com lesões positivas no PET FDG e negativas para PSMA. Foram randomizados 200 pacientes, sendo 99 para ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 e 101 para cabazitaxel. O tratamento designado foi recebido por 98 de 99 pacientes no grupo ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, correspondente a 99%, e por 85 de 101 pacientes no grupo cabazitaxel, correspondente a 84%.

Período de inclusão

Os pacientes foram incluídos entre 6 de fevereiro de 2018 e 3 de setembro de 2019. O corte de dados ocorreu em 20 de julho de 2020, após serem alcançados os 170 eventos de progressão previstos no protocolo. O seguimento mediano foi de 18,4 meses.

Materiais e Métodos

Eram elegíveis homens com câncer de próstata resistente à castração metastático, progressão de doença definida por elevação do PSA segundo os critérios PCWG3 e tratamento prévio com docetaxel. Cabazitaxel deveria ser considerado pelo investigador como o próximo tratamento padrão apropriado. Era permitido tratamento prévio com terapias direcionadas ao receptor de androgênio. Os pacientes deveriam apresentar performance status ECOG 0–2 e funções renal, hematológica e hepática adequadas.

Todos os pacientes realizaram PET PSMA/TC com ⁶⁸Ga-PSMA-11 e PET FDG antes da randomização. A elegibilidade por imagem exigia pelo menos uma lesão com SUV máximo de 20 ou mais e captação com SUV máximo superior a 10 em todas as demais lesões mensuráveis. Também era necessária a ausência de doença discordante, definida pela presença de lesões com captação de FDG e ausência de captação de PSMA.

No grupo experimental, os pacientes receberam ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 por via intravenosa a cada 6 semanas, por até seis ciclos. A dose inicial foi de 8,5 GBq, reduzida em 0,5 GBq a cada ciclo subsequente. Dessa forma, as doses administradas variaram entre 6,0 e 8,5 GBq.

Após cada administração, era realizada imagem planar e SPECT/TC em 24 horas para avaliar a retenção do radiofármaco nas lesões e nos tecidos normais. O tratamento poderia ser suspenso nos pacientes com resposta excepcional ou com redução importante da captação de PSMA e reiniciado posteriormente em caso de progressão, desde que os critérios de imagem continuassem preenchidos.

No grupo controle, os pacientes receberam cabazitaxel na dose de 20 mg/m² por via intravenosa a cada 3 semanas, por até 10 ciclos. Durante o tratamento, os pacientes eram avaliados a cada 3 semanas, com exames laboratoriais e dosagem do PSA. Tomografia de tórax, abdome e pelve e cintilografia óssea eram realizadas a cada 12 semanas.

Desfechos

O desfecho primário foi resposta de PSA, definida como redução de pelo menos 50% em relação ao valor basal.

Os desfechos secundários incluíram sobrevida livre de progressão, sobrevida livre de progressão radiográfica, sobrevida livre de progressão do PSA, taxa de resposta objetiva pelo RECIST 1.1, resposta da dor, tempo até progressão da dor, segurança e qualidade de vida relacionada à saúde.

A sobrevida livre de progressão foi definida como o tempo entre a randomização e progressão do PSA, progressão radiográfica, início de outro tratamento antineoplásico ou morte por qualquer causa.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Os principais critérios de inclusão foram câncer de próstata resistente à castração metastático, progressão após docetaxel, elevação do PSA conforme PCWG3, indicação clínica de cabazitaxel, ECOG 0–2, função orgânica adequada e doença com alta expressão de PSMA. Os pacientes deveriam apresentar pelo menos uma lesão com SUV máximo de 20 ou mais e SUV máximo superior a 10 nas demais lesões mensuráveis. Foram excluídos pacientes com baixa expressão de PSMA ou com doença discordante, caracterizada por lesões positivas no PET FDG e negativas no PET PSMA/TC.

Resultados

As características basais foram semelhantes entre os grupos. A idade mediana foi de 72,1 anos no grupo ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 e 71,8 anos no grupo cabazitaxel. Mais de 20 metástases estavam presentes em 77 de 99 pacientes (78%) no grupo experimental, correspondente a 78%, e em 79 de 101 no grupo controle (78%(. O PSA mediano basal foi de 93,5 ng/mL no grupo experimental e 110 ng/mL no grupo controle. Tratamento prévio com abiraterona ou enzalutamida havia sido realizado por 91% dos pacientes em cada grupo.

No grupo ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, 45 de 98 pacientes tratados, correspondente a 46%, completaram o tratamento previsto. A mediana foi de cinco ciclos, com intervalo interquartil de três a seis. No grupo cabazitaxel, 31 de 85 pacientes tratados (36%) receberam os dez ciclos planejados, com mediana de oito ciclos.

Na análise por intenção de tratar, redução de pelo menos 50% do PSA ocorreu em 65 de 99 pacientes no grupo ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, correspondente a 66%, versus 37 de 101 pacientes no grupo cabazitaxel, correspondente a 37%. A diferença absoluta foi de 29%, IC95% 16–42; p<0,0001. Na análise de acordo com o tratamento recebido, a resposta de PSA ocorreu em 65 de 98 pacientes tratados com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, correspondente a 66%, versus 37 de 85 pacientes tratados com cabazitaxel, correspondente a 44%. A diferença absoluta foi de 23%, IC95% 9–37; p=0,0016.

O ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 reduziu o risco de progressão ou morte em comparação com cabazitaxel, com HR 0,63, IC95% 0,46–0,86; p=0,0028. A sobrevida livre de progressão em 12 meses foi de 19%, IC95% 12–27, com o radioligante, versus 3%, IC95% 1–9, com cabazitaxel. Apesar disso, a mediana de sobrevida livre de progressão foi de 5,1 meses em ambos os grupos, refletindo maior separação das curvas após os primeiros 6 meses. A sobrevida livre de progressão radiográfica favoreceu o ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, com HR 0,64, IC95% 0,46–0,88; p=0,0070. A sobrevida livre de progressão do PSA também foi superior, com HR 0,60, IC95% 0,44–0,83; p=0,0017.

Entre os 78 pacientes com doença mensurável pelo RECIST 1.1, a taxa de resposta objetiva foi de 49% com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 versus 24% com cabazitaxel, com risco relativo de 2,12, IC95% 1,10–4,08; p=0,019.

Entre os 90 pacientes com intensidade de dor basal de pelo menos 2 pontos, resposta da dor ocorreu em 29 de 48 pacientes no grupo ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, correspondente a 60%, versus 18 de 42 no grupo cabazitaxel, correspondente a 43%. A diferença não foi estatisticamente significante, com risco relativo de 1,4, IC95% 0,9–2,2; p=0,10. O tempo até progressão da dor favoreceu o radioligante, com HR 0,72, IC95% 0,53–0,97; p=0,033. A proporção de pacientes livres de deterioração do estado global de saúde em 6 meses foi de 29% com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 versus 13% com cabazitaxel; p=0,0002

Eventos adversos grau 3 ou 4 ocorreram em 32 de 98 pacientes tratados com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, correspondente a 33%, versus 45 de 85 pacientes tratados com cabazitaxel, correspondente a 53%. Trombocitopenia grau 3 ou 4 foi mais frequente com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, ocorrendo em 11% versus nenhum paciente com cabazitaxel. Neutropenia grau 3 a 4 ocorreu em 4% dos pacientes tratados com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 versus 13% com cabazitaxel. Não houve neutropenia febril no grupo experimental, enquanto esse evento ocorreu em 8% dos pacientes tratados com cabazitaxel. Anemia grau 3 ou 4 ocorreu em 8% em ambos os grupos.

Os eventos adversos de qualquer grau mais frequentes com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 foram fadiga em 75%, dor em 72%, boca seca em 60%, náusea em 41% e olho seco em 30%. Diarreia, neuropatia, alteração do paladar, perda de cabelo e sintomas cutâneos foram mais frequentes com cabazitaxel.

O tratamento foi interrompido por toxicidade em 1 de 98 pacientes tratados com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617, correspondente a 1%, e em 3 de 85 pacientes tratados com cabazitaxel, correspondente a 4%. Não houve mortes atribuídas ao tratamento com ¹⁷⁷Lu-PSMA-617.

Conclusão do Trabalho

O estudo TheraP mostrou que o ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 apresentou maior atividade antitumoral que cabazitaxel em pacientes com câncer de próstata resistente à castração metastático previamente tratados com docetaxel e selecionados por PET PSMA/TC e PET FDG. O tratamento aumentou a frequência de resposta de PSA, melhorou a taxa de resposta objetiva e retardou a progressão, com menor frequência de eventos adversos grau 3 ou 4 e melhores resultados relatados pelos pacientes.

Comentário Editorial

O TheraP foi o primeiro estudo randomizado a comparar diretamente o ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 com uma quimioterapia. A escolha de cabazitaxel como controle tornou o estudo particularmente relevante, já que esse agente havia demonstrado benefício em sobrevida após docetaxel e progressão a um inibidor da via do receptor de androgênio. A maior resposta de PSA, o melhor controle tardio da doença e a menor toxicidade estabeleceram o radioligante como uma alternativa terapêutica consistente nesse cenário.

Um aspecto central foi a seleção por imagem, mais rigorosa que a utilizada posteriormente no VISION. No TheraP, era necessária pelo menos uma lesão com SUV máximo de 20 ou mais, SUV máximo superior a 10 nas demais lesões mensuráveis e ausência de doença discordante, definida por lesões positivas no PET FDG e negativas no PET PSMA/TC. Já o VISION utilizou apenas o PET PSMA/TC, com critério visual de captação superior à do fígado e exclusão de lesões volumosas PSMA-negativas, sem exigir PET FDG. Essa seleção mais estrita provavelmente enriqueceu o TheraP com tumores de maior expressão de PSMA e menor heterogeneidade biológica, o que pode ter contribuído para a resposta de PSA ≥50% de 66%, superior à observada no VISION.

Por outro lado, 28% dos pacientes avaliados no TheraP foram excluídos pelos critérios de imagem, o que limita a generalização dos resultados. Além disso, o estudo era de fase 2 e tinha resposta de PSA como desfecho primário e não tendo poder estatístico suficiente para demonstrar benefício em sobrevida global. Assim, o TheraP demonstrou elevada atividade e melhor tolerabilidade do ¹⁷⁷Lu-PSMA-617 em pacientes selecionados, e permanece importante por demonstrar que a seleção molecular por imagem pode direcionar uma alternativa mais ativa e menos tóxica que a quimioterapia em pacientes cuidadosamente selecionados.

Referência

Hofman MS, Emmett L, Sandhu S, et al. [¹⁷⁷Lu]Lu-PSMA-617 versus cabazitaxel in patients with metastatic castration-resistant prostate cancer (TheraP): a randomised, open-label, phase 2 trial. Lancet. 2021;397:797-804. doi:10.1016/S0140-6736(21)00237-3.