
Nefrolitotripsia Percutânea vs. Ureteroscopia para Cálculos Renais em Crianças e Adolescentes
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Introdução
A incidência de litíase urinária em crianças e adolescentes tem apresentado um crescimento acelerado nas últimas décadas. O manejo de cálculos volumosos (≥ 15-20 mm) nessa população é desafiador. As diretrizes da Associação Americana de Urologia (AUA) recomendam historicamente a nefrolitotripsia percutânea (PCNL) ou a litotripsia extracorpórea por ondas de choque (LEOC) como tratamentos de primeira linha para cálculos maiores que 20 mm, sem menção à ureteroscopia flexível (URS) como alternativa. Contudo, na prática contemporânea, muitos urologistas optam pela URS mesmo para cálculos grandes, sob a premissa de ser uma técnica "menos invasiva". Faltavam estudos prospectivos comparando a eficácia e, principalmente, a experiência relatada pelos pacientes entre PCNL e URS no cenário pediátrico.
Objetivo
Comparar as taxas de eliminação de cálculos (stone-free) e os desfechos relatados pelos pacientes (dor, ansiedade, sintomas urinários) entre a nefrolitotripsia percutânea e a ureteroscopia em crianças e adolescentes.
Desenho do estudo
Estudo de coorte prospectivo multicêntrico (integrado à rede de melhoria de cuidados PKIDS).
Número de pacientes
1.039 pacientes pediátricos submetidos a intervenção cirúrgica por 126 urologistas.
Período de inclusão
Março de 2020 a julho de 2023, com avaliação clínica e de imagem em 6 semanas e desfechos de qualidade de vida em 1 semana pós-operatória.
Materiais e Métodos
O estudo foi conduzido em 31 centros médicos de referência nos Estados Unidos e no Canadá. Foram incluídos pacientes de 8 a 21 anos submetidos a PCNL ou URS para o tratamento de cálculos renais e/ou ureterais. Foram realizadas 98 PCNLs e 1.069 URSs. O desfecho primário foi a taxa de eliminação de cálculos (stone clearance), definida como ausência de fragmentos ou presença de fragmentos ≤ 2 mm avaliada por protocolo de ultrassonografia padronizado realizado 6 (±2) semanas após a cirurgia. Os desfechos secundários incluíram a experiência pós-operatória relatada pelo paciente na primeira semana por meio de questionários validados do sistema PROMIS (Patient-Reported Outcomes Measurement Information System), avaliando intensidade e interferência da dor, ansiedade, estresse psicológico, distúrbios do sono e sintomas urinários. Os dados foram ajustados por modelos de escore de propensão para controlar potenciais fatores de confusão basais.
Desfechos
O desfecho primário foi a taxa de eliminação de cálculos em 6 semanas. Os desfechos secundários incluíram desfechos relatados pelos pacientes (PROs) na primeira semana pós-operatória (dor, ansiedade, distúrbios do sono, estresse e sintomas urinários).
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
•Inclusão: Pacientes com idade entre 8 e 21 anos submetidos a tratamento cirúrgico primário para cálculos renais ou ureterais em um dos centros participantes.
•Exclusão: Pacientes submetidos a cirurgias de urgência ou de revisão imediata; anomalias anatômicas complexas do trato urinário que impedissem as abordagens padrão.
Resultados
A mediana de idade dos pacientes foi de 15,6 anos, sendo 60,5% do sexo feminino. Na análise global (incluindo todos os tamanhos de cálculo), a taxa de eliminação de cálculos foi de 67,2% para PCNL e 73,4% para URS, uma diferença que não alcançou significância estatística (p = 0,57). No entanto, para o subgrupo de cálculos grandes (> 15 mm), a PCNL demonstrou superioridade estatística e clinicamente dramática, com taxa de eliminação de 94,0% (IC 95%, 83,3% a 100%) para PCNL vs. 55,0% (IC 95%, 32,9% a 77,1%) para URS, representando uma diferença de risco de 39% (IC 95%, 14,4% a 63,5%; p = 0,002). Surpreendentemente, na avaliação de qualidade de vida na primeira semana, os pacientes submetidos à PCNL relataram desfechos significativamente melhores que os submetidos à URS, incluindo menor intensidade de dor (diferença de escore T de -5,42; p = 0,03), menor interferência da dor no dia a dia (-5,88; p = 0,02), menor ansiedade (-5,74; p = 0,001), menor distúrbio do sono (-5,57; p = 0,001) e menos sintomas urinários obstrutivos ou irritativos (-6,37; p = 0,02).
Conclusão do Trabalho
Em crianças e adolescentes, a nefrolitotripsia percutânea oferece taxas de eliminação de cálculos semelhantes às da ureteroscopia na análise geral, mas é significativamente superior para cálculos maiores que 15 mm. Além disso, a PCNL está associada a uma melhor experiência de recuperação pós-operatória imediata, com menor dor, ansiedade, distúrbios do sono e sintomas urinários do que a ureteroscopia.
Comentário Editorial
Este estudo prospectivo da rede PKIDS é o maior e mais robusto corpo de evidência contemporâneo comparando PCNL e URS no cenário pediátrico. Ele desafia de forma contundente o paradigma de que a ureteroscopia, por não exigir incisões percutâneas, seria sempre a melhor opção em termos de morbidade e recuperação para o paciente pediátrico.A grande força metodológica do trabalho é a incorporação sistemática dos desfechos relatados pelos pacientes (PROs) por meio da escala PROMIS, permitindo capturar a "experiência vivida" da recuperação cirúrgica real, além de um protocolo de imagem ultrassonográfica estritamente padronizado e revisado centralmente. A principal limitação é o caráter não randomizado, embora mitigado pelo uso rigoroso de ajuste por escore de propensão para minimizar vieses de seleção.Para o urologista prático, os achados trazem duas grandes mudanças de conduta:1.Para cálculos maiores que 15 mm em crianças e adolescentes, a PCNL deve ser firmemente recomendada como a primeira escolha, dada a sua taxa de sucesso quase duas vezes maior (94% vs 55%). Insistir na URS nesses casos frequentemente resultará em procedimentos múltiplos e maior morbidade acumulada.2.A percepção de que a URS é "mais confortável" no pós-operatório é falsa. A presença frequente de cateteres duplo J após a URS pediátrica, associada a espasmos vesicais e dor à micção, impõe um sofrimento físico e psicológico (ansiedade e distúrbio do sono) significativamente maior na primeira semana do que a recuperação de uma PCNL contemporânea (frequentemente realizada com acessos de menor calibre - mini-perc - e técnicas tubeless). O aconselhamento pré-operatório deve desmistificar a PCNL e preparar adequadamente as famílias para o pós-operatório da URS.
Referência
Ellison JS, Chu DI, Nelson CP, DeFoor WR, Ziemba J, Huang J, Luan X, et al. Percutaneous Nephrolithotomy vs Ureteroscopy for Kidney Stones in Children. JAMA Netw Open. 2025;8(6):e2516749. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2025.16749.
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