
Terapia direcionada a metástases com ou sem pembrolizumabe para carcinoma de células claras renais oligometastático: análise agrupada de dois estudos prospectivos de fase 2 de braço único
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Introdução
Em maio de 2026 foi publicado na European Urology o estudo com o título, em tradução livre, “Terapia direcionada a metástases com ou sem pembrolizumabe para carcinoma de células claras renais oligometastático: análise agrupada de dois estudos prospectivos de fase 2 de braço único”. O estudo avaliou o uso de pembrolizumabe em associação à terapia direcionada a metástases em pacientes com carcinoma de células claras renais oligometastático. O estudo mostrou um aumento da sobrevida livre de progressão no braço que recebeu a terapia combinada em comparação à terapia direcionada a metástases isolada. Confira a seguir mais detalhes do estudo:
Objetivo
Comparar a sobrevida livre de progressão, definida por RECIST v1.1, entre pacientes tratados com terapia direcionada a metástases isolada e pacientes tratados com terapia direcionada a metástases associada ao pembrolizumabe. Além disso, avaliar dados translacionais de sinais imunomodulatórios por meio de citometria de fluxo para identificar biomarcadores de resposta e progressão. Também foram avaliadas, a sobrevida global e a sobrevida pós-progressão entre as duas coortes de tratamento.
Desenho do estudo
Trata-se de uma análise agrupada (pooled analysis) de dados individuais de pacientes provenientes de dois estudos prospectivos de fase 2, de braço único e abertos. O estudo não foi randomizado e não utilizou placebo.
As intervenções consistiram em:
- Coorte de intervenção: Terapia direcionada a metástases (radioterapia estereotáxica corporal ou cirurgia) seguida de pembrolizumabe (estudo RAPPORT).
- Coorte de controle: Terapia direcionada a metástases isolada (estudo realizado no MD Anderson Cancer Center).
Número de pacientes
O estudo incluiu 150 pacientes no total, sendo 30 pacientes na coorte de terapia direcionada a metástases associada ao pembrolizumabe e 120 pacientes na coorte de terapia direcionada a metástases isolada.
Período de inclusão
Os pacientes da coorte de terapia direcionada a metástases isolada foram recrutados entre 13 de julho de 2018 e 2 de maio de 2023. O recrutamento para o estudo RAPPORT ocorreu em período concomitante ou prévio, com resultados iniciais já publicados anteriormente.
Materiais e Métodos
Foram utilizados dados individuais de pacientes das duas coortes prospectivas. A análise estatística empregou modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox multivariáveis para ajuste de fatores de confusão, incluindo idade, terapia sistêmica prévia e número de metástases. Foi realizada uma análise por escore de propensão de risco na proporção de 2:1 para mitigar vieses de seleção entre os grupos. O tempo de acompanhamento foi estimado pelo método de Kaplan-Meier.
Análises de citometria de fluxo foram realizadas no início do tratamento, ao término da terapia direcionada a metástases e na conclusão do tratamento com pembrolizumabe.
Desfechos
O desfecho primário foi sobrevida livre de progressão, definida como o tempo desde a inclusão até a progressão da doença baseada nos critérios de avaliação de resposta em tumores sólidos versão 1.1 ou óbito por qualquer causa. O desfecho secundário foi definir alterações nas populações de células imunes no sangue periférico relacionadas aos desfechos Os desfechos exploratórios foram sobrevida global e sobrevida pós-progressão.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Os critérios de inclusão foram: Diagnóstico histológico de carcinoma de células claras renais; presença de 1 a 5 lesões metastáticas passíveis de tratamento com terapia direcionada a metástases (radioterapia estereotáxica ou ressecção cirúrgica); realização de nefrectomia prévia. Os critérios de exclusão foram: Uso prévio de inibidores de checkpoint imunológico para doença metastática (específico para a coorte de pembrolizumabe) e mais de duas linhas de terapia sistêmica prévia.
Resultados
Sobre a população do estudo, foram avaliados 150 pacientes - 30 no grupo terapia combinada (MDT+ICI) e 120 no grupo terapia local isolada). O grupo terapia combinada era discretamente mais jovem (62 vs 66 anos; p=0,06). Ambos apresentavam proporções semelhantes de risco favorável pelo IMDC (57% vs 52%; p=0,7) e de tratamento sistêmico prévio (77% vs 70%; p=0,7). Entre os previamente tratados, predominou o uso de inibidores de tirosina quinase. O grupo terapia combinada não havia recebido imunoterapia previamente, enquanto 13 pacientes do grupo terapia local isolada receberam imunoterapia e quatro receberam imunoterapia + TKI. Pacientes tratados com terapia combinada apresentavam maior carga metastática (mediana 3 vs 1; p<0,001) e maior frequência de metástases ósseas (23% vs 9%; p=0,03), sugerindo doença mais agressiva. Também houve tendência a maior frequência de doença síncrona sem nefrectomia prévia (90% vs 97%; p=0,09). Com um acompanhamento mediano de 34 meses, a sobrevida livre de progressão mediana ajustada foi de 28 meses para o grupo de terapia direcionada a metástases com pembrolizumabe versus 17 meses para o grupo isolado (razão de risco de 0,57; intervalo de confiança de 95%, 0,32–1,02; p = 0,058). Análises de subgrupo sugeriram maior benefício da combinação em pacientes previamente expostos à terapia sistêmica (P interaction=0,05).
Após pareamento por escore de propensão (terapia combinada: n=24; terapia local n=34), os grupos apresentaram distribuição mais equilibrada das variáveis prognósticas, sem diferenças em metástases linfonodais (p=0,9) ou ósseas (p=0,1). Na análise multivariada do grupo pareado, terapia combinada associou-se a melhor sobrevida livre de progressão (HR 0,44; IC95% 0,21–0,93; p=0,03).
A mediana de sobrevida global não foi atingida em nenhum grupo e não houve diferença significativa em sobrevida global, tanto na coorte total (HR 1,90; p=0,2) quanto na amostra pareada (HR 1,67; p=0,4). A análise de sensibilidade demonstrou sobrevida pós-progressão significativamente menor no grupo terapia combinada, tanto na coorte total (HR 7,79; IC95% 2,09–29,00; p=0,002) quanto na amostra pareada por escore de propensão (HR 9,05; IC95% 1,73–47; p=0,009). Contudo, houve baixo número de eventos observados.
Dados translacionais: terapia local e terapia combinada aumentaram monócitos, Tregs FOXP3+ e ativação/proliferação de células T CD8+, com efeito mais intenso no grupo combinação (Ki67+ 2,0% vs 0,83%; ICOS+ 2,7% vs 0,033%). Após o tratamento, Tregs permaneceram elevadas após terapia local isolada, mas retornaram ao basal com terapia combinada; além disso, células T CD8+ CD73+ reduziram-se no seguimento de 12 meses com terapia combinada (-7,4%).
Conclusão do Trabalho
Os autores concluem que a adição de manutenção com pembrolizumabe após a terapia direcionada a metástases está associada a melhores desfechos clínicos em pacientes com carcinoma de células claras renais oligometastático. Os dados sugerem que a imunoterapia após a terapia local pode aumentar o tempo para progressão sistêmica da doença. Entretanto, por se tratar de uma análise exploratória não randomizada, há risco de viés de confusão por indicação. Os autores relatam que, apesar dos ajustes multivariados, fatores prognósticos não mensurados podem ter influenciado os resultados, ressaltando a necessidade de validação em estudos randomizados.
Comentário Editorial
As evidências para combinar terapia direcionada a metástases (MDT) com imunoterapia no carcinoma renal de células claras oligometastático são promissoras, mas ainda baseadas principalmente em estudos de fase II e análises exploratórias, sem confirmação definitiva por estudos randomizados. As diretrizes do NCCN reconhecem metastasectomia, SBRT e ablação como opções para doença oligometastática, além de considerarem pembrolizumabe adjuvante após ressecção completa de metástases em pacientes selecionados.
O estudo de fase I/II RAPPORT avaliou SBRT em todos os sítios metastáticos seguida de pembrolizumabe em pacientes com 1–5 metástases. Observou-se controle de doença de 83%, sobrevida livre de progressão mediana de 15,6 meses, controle local em 2 anos de 92% e toxicidade aceitável, sugerindo atividade clínica relevante da combinação. O estudo do MD Anderson Cancer Center avaliou MDT isolada em pacientes oligometastáticos e mostrou que SBRT pode adiar o início de terapia sistêmica, com mediana de 34 meses livres de tratamento sistêmico e toxicidade manejável. Já o estudo NIVES, que combinou nivolumabe com SBRT em pacientes metastáticos previamente tratados, demonstrou atividade mais modesta (ORR 17%), provavelmente por limitações relevantes como o fato de incluir doença metastática disseminada e irradiar apenas uma lesão. O estudo KEYNOTE-564, estudo de fase III randomizado, reforça indiretamente o racional da imunoterapia após controle local completo. Embora realizado no cenário adjuvante, um subgrupo menor com 5,8% da população era M1 com metastasectomia realizada até 1 ano da nefrectomia e sem evidência de doença após metastasectomia. Este subgrupo apresentou benefício expressivo com sobrevida livre de doença em 2 anos de 78,4% vs 37,9% (pembrolizumabe vs placebo) sugerindo que pacientes oligometastáticos podem se beneficiar particularmente da imunoterapia após erradicação macroscópica da doença. Neste contexto, insere-se a análise agrupada de Sherry et al. (European Urology, 2026) que incluiu 2 estudos prospectivos que comparou MDT + pembrolizumabe (RAPPORT) versus MDT isolada (estudo do MD Anderson). Houve tendência a melhora da sobrevida livre de progressão com a combinação de 28 vs 17 meses (HR 0,57; 0,32–1,02; p=0,058), especialmente em pacientes previamente tratados sistemicamente.
Contudo, o estudo apresenta limitações metodológicas importantes. Ao comparar 2 braços únicos de estudos não randomizados distintos, as diferenças observadas podem não representar efeitos do tratamento, mas diferenças entre os estudos, como critérios de seleção. Além disso, os protocolos utilizaram esquemas distintos de SBRT e foram conduzidos em contextos institucionais diferentes (multicêntrico versus unicêntrico), o que dificulta comparações diretas. Havia, ainda, desbalanceamento basal relevante, incluindo maior número de metástases no grupo de terapia combinada e tamanho amostral muito menor (30 vs. 120 pacientes), aumentando risco de vieses. Assim, os achados devem ser considerados geradores de hipótese, justificando o desenvolvimento de estudos randomizados com os quais será possível definir quais pacientes realmente devem receber tratamento combinado
Referência
Sherry AD, To V, D’Souza C, Kiany S, Thio N, Liu S, et al. Metastasis-directed therapy with or without pembrolizumab for oligometastatic clear cell renal cell carcinoma: pooled analysis of two prospective single-arm phase 2 trials. European Urology. 2026.

