
Terapia direcionada às metástases e terapia padrão versus terapia padrão no câncer de próstata oligometastático (WOLVERINE): revisão sistemática e metanálise
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Introdução
A doença oligometastática é definida pela presença de até 5 metástases e as terapias direcionadas às metástases (MDT) podem ser promissoras. Dados de fase II, como STOMP e ORIOLE, forneceram resultados de desfecho precoce, como sobrevida livre de progressão e resposta de PSA, favoráveis ao uso de MDT + terapia padrão vs. terapia padrão (SOC). Contudo, a literatura ainda carece de dados de longo prazo e estudos de fase III.
Objetivo
Avaliar desfechos de longo prazo (sobrevida livre de progressão e sobrevida global) em pacientes com câncer de próstata oligometastático submetidos à terapia direcionada às metástases (MDT) e terapia padrão (SOC) comparada à SOC.
Desenho do estudo
Foi realizada revisão sistemática com as diretrizes PRISMA para identificar ensaios clínicos randomizados em câncer de próstata oligometastático, com busca nas bases ClinicalTrials.gov, MEDLINE, CENTRAL, PubMed e Embase complementada por busca manual em ClinicalTrials.gov e em congressos oncológicos relevantes e posterior metanálise dos dados. Os braços comparadores foram MDT + SOC versus SOC. A terapia padrão (SOC) poderia ser terapia hormonal ou observação.
Número de pacientes
Foram incluídos sete estudos com total de 574 pacientes.
Período de inclusão
3 de novembro de 2023 a 4 de maio de 2025.
Materiais e Métodos
Foram utilizados formulários estruturados para coleta de dados individuais dos estudos elegíveis, incluindo PSA basal, desfechos, idade, estadiamento, número de metástases e status de castração. Os desfechos coprimários foram sobrevida livre de progressão e sobrevida global, sendo incluídos pacientes randomizados para MDT + SOC versus SOC (terapia hormonal ou observação). Foram realizadas duas análises paralelas: meta-análise em duas etapas ao nível dos estudos com modelo de efeitos aleatórios e análise ao nível dos pacientes com regressão de Cox estratificada por estudo; o benefício absoluto foi estimado pelo tempo médio de sobrevida restrito em 1 e 3 anos. O viés de publicação foi avaliado pelo teste de Egger e a heterogeneidade pelo Q de Cochran. Análises exploratórias com regressão de Cox avaliaram efeitos da MDT e prognóstico em subgrupos, com testes bicaudais e significância de 0,05.
Desfechos
Desfechos primários (coprimários):
- Sobrevida livre de progressão (SLP) - desfecho composto por falha bioquímica (conforme definição de cada estudo), progressão radiográfica (RECIST 1.1) ou óbito por qualquer causa.
- Sobrevida global (SG) - tempo até morte por qualquer causa.
Desfechos secundários:
- Sobrevida livre de progressão radiográfica (SLPr) - desfecho composto por progressão radiográfica ou óbito.
- Sobrevida livre de resistência à castração (SLRC) - desfecho composto por resistência à castração (progressão com testosterona <50 ng/dL) ou óbito, avaliado apenas em pacientes com doença sensível à castração (CSPC)
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Os critérios de inclusão foram: estudo prospectivo, randomizado, com pacientes com câncer de próstata, com doença oligometastática (até cinco metástases). Os estudos deveriam apresentar dados suficientes para determinar os desfechos primários desta meta-análise (sobrevida livre de progressão e sobrevida global) e ter publicação com capacidade de fornecer dados individuais dos pacientes. Não houve critérios de exclusão específicos.
Resultados
O estudo WOLVERINE incluiu sete estudos, sendo seis ECRs (n=472) incluídos nas análises primária e secundária, com seguimento mediano de 40,7 meses. As características basais foram globalmente equilibradas: PSA mediano 1,9 ng/mL, idade 71 vs 68 anos; maior proporção de CSPC no SOC (46% vs 38%) e de CRPC no MDT+SOC (62% vs 54%); maior uso de ADT (78% vs 71%) e ARPI (60% vs 50%) no SOC; carga metastática semelhante (predomínio 1–3 lesões) e doença visceral rara (2% em ambos).
Nas análises de eficácia (n=472), MDT+SOC reduziu significativamente o risco de eventos de SLP (64%; HR 0,44; IC95% 0,35–0,56; p<0,0001 - imagem A) e SLPr (56%; HR 0,60; IC95% 0,42–0,85; p=0,0039).
A mortalidade foi 16%, com tendência a benefício em SG sem significância estatística (HR 0,63; IC95% 0,39–1,00; p=0,051 - imagem C). Em CSPC (n=257), houve benefício em SLRC (30%; HR 0,58; IC95% 0,37–0,92; p=0,019).
Resultados foram consistentes na análise em nível de paciente (SLP HR 0,45; SLPr 0,59; SG 0,64; SLRC 0,58), com baixa heterogeneidade (exceto SLPr que foi moderada, I²=50,1%) e sem viés relevante.
Análises exploratórias mostraram benefício consistente de MDT para SLP, sendo associado ao nível de PSA basal, sem ganho consistente em SG. Na análise prognóstica (n=350), metástases ósseas associaram-se a pior SLP (HR 1,45; IC95% 1,05–2,00), enquanto ADT (HR 0,45), ADT+ARPI (HR 0,38) e PSA baixo correlacionaram-se com melhor prognóstico. Eventos adversos foram semelhantes, sem grau 5, e ≥G2 em 15% vs 17%.
Conclusão do Trabalho
Os autores concluem que a meta-análise WOLVERINE demonstrou associação consistente entre MDT e melhora da sobrevida livre de progressão, incluindo benefício em sobrevida livre de progressão radiológica (SLPr) e sobrevida livre de resistência à castração (SLRC), sem impacto significativo em sobrevida global. Os autores defendem que, na ausência de estudos fase 3, estes achados representam a evidência mais robusta disponível, reforçada pela possibilidade de crossover para MDT nos estudos.
Segundo os autores, nas análises exploratórias, o benefício foi globalmente consistente; contudo, PSA basal elevado resultou em pior SLPr e, com isso, pior prognóstico. Não houve associação relevante com número de metástases, terapia sistêmica, status CRPC ou tratamento do tumor primário. A hormonioterapia não modificou o efeito da MDT, mas associou-se a melhor prognóstico. Limitações descritas incluem heterogeneidade de definições e SOC, dificuldade na interpretação de sobrevida global, variabilidade no estadiamento, pequeno número de estudos e análises exploratórias múltiplas sem ajuste.
Comentário Editorial
O uso de terapia direcionada à metástases (MDT) tem apresentado papel crescente no tratamento do câncer de próstata oligometastático. Os estudos STOMP e ORIOLE foram estudos pioneiros a avaliar de forma prospectiva o papel da radioterapia estereotáxica vs. observação em pacientes com câncer de próstata sensível á castração (CSPC) oligometástico - demonstrando ganho em SLP e Sobrevida livre de ADT. O estudo EXTEND (comparou MDT + ADT vs ADT) também demonstrou ganho em SLP. Já o estudo RADIOSA (comparou MDT + ADT vs MDT) demonstrou benefício em SLP da associação de ADT à MDT. Apesar disso, permanece a carência de estudos de fase III com número de pacientes mais robustos e dados de longo prazo, em especial sobrevida global, corroborando a intervenção.
Neste contexto, Tang et al. publicaram a revisão sistemática e metanálise de dados individuais WOLVERINE com sete estudos de fase II com um total de 574 pacientes (375 com CSPCm), demonstrando benefício em sobrevida livre de progressão, sobrevida livre de progressão radiológica e sobrevida livre de resistência à castração. A sobrevida global não foi estatisticamente significativa. A intervenção apresentou perfil de segurança adequado.
Apesar dos dados robustos favorecendo a terapia local neste contexto, o tema permanece com lacunas importantes:
1) Seleção do paciente: A seleção adequada do paciente para esta estratégia é ponto fundamental. O estudo WOLVERINE demonstrou melhores desfechos em pacientes com PSA baixo e doença linfonodal (em contraste com valores de PSA elevados e doença óssea). Contudo, outros critérios clínicos e prognósticos, como Gleason, doença metastática de novo vs recidivada, intervalo entre tratamento da doença primária e apresentação oligometastática etc, não foram descritos. Considerando o esperado benefício em pacientes com doença de perfil menos agressivo e indolente. Ademais, a maioria dos pacientes incluídos apresentavam até 3 metástases, limitando a generalização dos dados para pacientes com maior volume de doença.
2) Estadiamento com PET-PSMA: Outro tópico de destaque é a estratégia de estadiamento. Os estudos de doença oligometastática ocorreram antes da disseminação do uso do PET-PSMA. É esperado que com a maior sensibilidade do exame de estadiamento, uma parcela dos pacientes não se enquadrem na definição de doença oligometastática (até 5 metástases). Além disso, o PET-PSMA contribui com a seleção de pacientes com melhor prognóstico, favorecendo o uso de terapia locais.
3) Papel dos ARPi na doença castração sensível: A metanálise mostrou maior uso de ARPi no grupo SOC (60% vs 50%). A hormonioterapia não modificou o efeito da MDT, embora tenha sido associada a melhor prognóstico. Estudos prévios, como o RADIOSA, demonstraram benefício da adição de ADT à MDT em sobrevida livre de progressão, porém em um contexto distinto. O papel da MDT em pacientes com CSPCm tratados com ADT + ARPi, bem como o sequenciamento ideal dessas estratégias, permanece uma questão em aberto.
O estudo WOLVERINE corrobora o uso de terapia direcionada à metástases em pacientes com câncer de próstata oligometastático com benefício em SLP, SLPr e SL de resistência à castração. Aguardamos dados de estudos em andamento para melhor entendimento no contexto dos ARPi e de imagens avançadas, como PET-PSMA.
Referência
Tang C, Sherry AD, Hwang H, et al. Metastasis-directed therapy and standard of care versus standard of care for oligometastatic prostate cancer (WOLVERINE): a systematic review and individual patient data meta-analysis from the X-MET collaboration. Lancet Oncol. 2026;27(2):181-190. doi:10.1016/S1470-2045(25)00658-8

