Nadir de testosterona e desfechos clínicos em pacientes com câncer de próstata avançado: análise post hoc de estudos de fase 3 com triptorrelina
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Introdução
Em Janeiro de 2024 foi publicado na revista BJUI Compass o estudo que avaliou a associação entre o nadir de testosterona durante tratamento com triptorrelina, um agonista do LHRH, e desfechos clínicos em pacientes com câncer de próstata avançado. A hipótese era que níveis mais profundos de supressão da testosterona estariam associados a melhores desfechos oncológicos. O estudo demonstrou que o nadir de testosterona inferior a 0,35 nmol/L é associado a maior sobrevida global. Confira abaixo mais detalhes do estudo:
Objetivo
Avaliar se os níveis atingidos no nadir de testosterona durante tratamento com triptorrelina estão associados a melhor sobrevida global e sobrevida câncer-específica em pacientes com câncer de próstata avançado.
Desenho do estudo
Análise retrospectiva combinada de três estudos de fase 3, prospectivos, conduzidos na África do Sul, avaliando triptorrelina em monoterapia.
Número de pacientes
592 pacientes (análise por intenção de tratar)
Período de inclusão
Os estudos tiveram duração de 9 meses (252 dias) ou 12 meses (336 dias). A análise principal considerou o período de Dias 1 a 518 (seguimento mediano para sobrevida global de 254 dias; intervalo 29–518 dias).
Materiais e Métodos
Foram combinados dados de três estudos de fase 3: DEB-96-TRI-01 (primeira fase), DEB-96-TRI-01 (segunda fase) e DEB-TRI6M-301 (NCT00751790). As formulações avaliadas foram triptorrelina 3,75 mg intramuscular mensal, 11,25 mg intramuscular trimestral e 22,5 mg intramuscular semestral.
Os pacientes foram categorizados conforme o nadir de testosterona atingido durante o tratamento:
- <0,35 nmol/L
- ≥0,35 a <0,7 nmol/L
- ≥0,7 a <1,7 nmol/L
- ≥1,7 nmol/L
A sobrevida global foi definida como o tempo entre a primeira dose e morte por qualquer causa. A sobrevida específica por câncer foi definida como o tempo até morte por câncer de próstata ou complicação relacionada ao tratamento. As curvas de sobrevida foram estimadas pelo método de Kaplan–Meier, com comparação pelo teste log-rank. Também foi realizada análise de sensibilidade (Dias 1–262) e análise landmark com marco no Dia 57.
Desfechos
Desfechos primários:
- Sobrevida global
- Sobrevida específica por câncer
Desfechos secundários:
- Proporção do tempo com testosterona abaixo do alvo
- Tempo até atingir níveis-alvo de testosterona
- Cinética de PSA
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Foram incluídos pacientes com câncer de próstata avançado. A maioria apresentava doença T3–T4. Os estudos foram conduzidos antes da disponibilidade das terapias de intensificação com antiandrógenos de segunda geração. Quatro pacientes relataram uso concomitante dessas terapias e não foram excluídos da análise.
Resultados
A idade média foi 70,6 anos. Quanto à raça, 54% eram brancos (318/592), 32% negros (187/592), 15% de raça mista (86/592) e 0,17% classificados como “outros” (1/592). Noventa e um por cento apresentavam doença T3–T4. O status de doença metastática foi M0 em 31% (186/592), M1 em 34% (202/592) e MX em 34% (204/592). O tempo mediano de diagnóstico até o tratamento foi1,1 mês.
O nadir de testosterona <0,35 nmol/L foi atingido por 570 pacientes (96%); 19 pacientes (3,2%) atingiram valores ≥0,35 a <0,7 nmol/L; 2 pacientes (0,34%) ≥0,7 a <1,7 nmol/L; e 1 paciente (0,17%) ≥1,7 nmol/L.
Observou-se associação estatisticamente significante entre níveis mais baixos de nadir de testosterona e sobrevida global na análise principal (p < 0,001), que foi mantido nas análises de sensibilidade (considerando duração entre o dia 1 e dia 262) (p < 0,001).
Na análise principal da sobrevida específica por câncer (Dias 1–518), a diferença entre os grupos não foi estatisticamente significante (p = 0,08). Entretanto, nas análises de sensibilidade, a associação tornou-se estatisticamente significante (Dias 1–262, p = 0,01; grupos combinados Dias 1–518, p = 0,03; grupos combinados Dias 1–262, p = 0,005).
Não houve associação estatisticamente significante entre sobrevida e proporção do tempo com testosterona abaixo do alvo ou tempo para atingir o nível de supressão (todos p > 0,10).
Conclusão do Trabalho
Nadir de testosterona inferior a 0,35 nmol/L durante tratamento com triptorrelina está relacionado a maior sobrevida global em pacientes com câncer de próstata avançado. A associação com sobrevida câncer-específica foi observada principalmente nas análises de sensibilidade.
Comentário Editorial
Este estudo reforça um conceito já sugerido por análises secundárias, como a do estudo PR-7, de que a profundidade da supressão androgênica pode impactar desfechos clínicos. A diferença observada entre nadir de testosterona <0,35 nmol/L e níveis entre 0,35 e 0,7 nmol/L sugere que o alvo histórico de 1,7 nmol/L pode não ser um parâmetro suficiente na prática contemporânea, sobretudo considerando a maior sensibilidade dos métodos laboratoriais atuais.Entretanto, trata-se de análise retrospectiva, com número extremamente reduzido de pacientes nos grupos com testosterona mais elevada, o que limita inferências causais. Além disso, os estudos foram conduzidos na era pré-combinação com novas terapias hormonais, restringindo a extrapolação para o cenário atual, no qual a terapia de privação androgênica isolada raramente é utilizada no contexto metastático.
Entre as limitações do estudo, destaca-se o fato de ser retrospectivo e também o fato de que a maior parte da coorte atingiu níveis inferiores a 0,35 nmol/L, o que restringe o poder comparativo entre subgrupos. Além disso, os estudos foram conduzidos antes da incorporação rotineira de combinações com terapias alvo do eixo do receptor androgênico, quimioterapia ou radiofármacos.O impacto do nadir de testosterona no contexto atual de tratamento combinado permanece incerto.
É importante destacar que esta análise não compara diferentes agonistas ou antagonistas do hormônio liberador do hormônio luteinizante. Trata-se de um conjunto de estudos avaliando exclusivamente triptorrelina, em diferentes formulações. Portanto, os resultados não permitem inferir superioridade ou equivalência entre estratégias distintas de bloqueio androgênico, tampouco extrapolar para antagonistas ou para outros agonistas. O que se avalia aqui é a associação entre o nível de supressão atingido e os desfechos clínicos dentro de uma mesma estratégia terapêutica. Outro aspecto relevante é que não houve associação entre sobrevida e o tempo para atingir o nível-alvo de testosterona, nem com a proporção do tempo em que a testosterona permaneceu abaixo do limite de supressão. O fator que se correlacionou com melhor sobrevida foi o nadir alcançado. Isso sugere que a profundidade da supressão pode ter papel prognóstico independente da velocidade de queda ou da estabilidade inicial dos níveis hormonais.
Por outro lado, o trabalho traz uma importante implicação prática: o monitoramento da testosterona durante a terapia de privação androgênica não deve ser negligenciado. Em um cenário em que discutimos intensificação terapêutica precoce e estratificação de risco, a qualidade da supressão hormonal pode representar um componente adicional na avaliação prognóstica. Uma questão que permanece aberta é se metas mais profundas de supressão devem ser incorporadas como alvo terapêutico ou se o nadir é apenas um marcador de biologia tumoral mais favorável.
Referência
Klotz L, Tat T. Testosterone nadir and clinical outcomes in patients with advanced prostate cancer: Post hoc analysis of triptorelin pamoate Phase III studies. BJUI Compass. 2024;5:392–402. doi:10.1002/bco2.318.

