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Laser de CO₂ e radiofrequência comparados a grupo controle sham no tratamento da incontinência urinária de esforço: ensaio clínico randomizado (Estudo LARF – braço 3)

Autores do Artigo: 

Ana Silvia Seki; Ana Maria H. M. Bianchi-Ferraro; Eliana S. M. Fonseca; Marair G. F. Sartori; Manoel J. B. C. Girão; Zsuzsanna I. K. Jarmy-Di Bella

Journal

International Urogynecology Journal

Data da publicação

Março 2022

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

A incontinência urinária de esforço (IUE) feminina é altamente prevalente e impacta significativamente a qualidade de vida. Embora o tratamento cirúrgico com sling seja amplamente utilizado, preocupações relacionadas a complicações com telas estimularam a busca por alternativas menos invasivas.

O uso de energias vaginais, como o laser de CO₂ e a radiofrequência microablativa, tem sido proposto como alternativa ambulatorial, porém com necessidade de evidência clínica robusta que comprove sua eficácia.

Objetivo

Avaliar a eficácia do laser de CO₂ e da radiofrequência microablativa no tratamento da IUE feminina, comparando-os a um grupo controle sham (procedimento simulado).

Desenho do estudo

  • Ensaio clínico randomizado
     

  • Duplo-cego
     

  • Controlado por grupo sham
     

  • Alocação 1:1:1
     

  • Seguimento de 12 meses
     

Análise por intenção de tratar (ITT) e por protocolo (PP)

Número de pacientes

Foram randomizadas 139 mulheres (42 laser, 47 radiofrequência e 50 sham).
Ao final de 12 meses, 114 pacientes completaram o seguimento (38 por grupo).

Período de inclusão

Agosto de 2018 a setembro de 2019.

Materiais e Métodos

As pacientes foram submetidas a três sessões mensais ambulatoriais, com duração aproximada de 15 minutos cada.

  • Grupo Laser: aplicação intravaginal de laser de CO₂.
     

  • Grupo Radiofrequência: radiofrequência microablativa fracionada.
     

  • Grupo Sham: procedimento idêntico, porém com equipamento bloqueado, sem emissão de energia, mantendo visor e sons ativos para preservação do cegamento.
     

Todas as participantes receberam orientações comportamentais na primeira visita.

Avaliações incluíram:

  • Teste de esforço
     

  • Pad test de 1 hora
     

  • Diário miccional de 7 dias
     

  • Questionários de qualidade de vida (I-QoL e ICIQ-SF)
     

  • Avaliação de função sexual (FSFI)
     

O cálculo amostral foi realizado para detectar diferença de 20% entre grupos, com poder estatístico de 80% e significância de 5%.

 

Desfechos

Primários

  1. Melhora subjetiva da IUE, definida como resposta “melhor” ou “muito melhor” na escala Likert.
     

  2. Cura objetiva (desfecho composto), definida como presença simultânea de:
     

    • Teste de esforço negativo
       

    • Pad test negativo
       

    • Ausência de perda no diário miccional
       

Secundários

  • Redução do peso no pad test
     

  • Redução do número de episódios de perda urinária
     

  • Qualidade de vida
     

  • Função sexual
     

  • Sintomas associados (urgência, noctúria e perda urinária durante relação sexual)

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Inclusão:

  • Mulheres com IUE confirmada por teste de esforço
     

Exclusão:

  • Incontinência urinária de urgência predominante
     

  • Prolapso genital além do hímen
     

  • Uso recente de estrogênio vaginal ou medicação para bexiga hiperativa
     

  • Cirurgia prévia para IUE
     

  • Radioterapia pélvica
     

  • Infecção urinária ativa

Resultados

Melhora subjetiva (12 meses – ITT)

  • Laser: 76,2%
     

  • Radiofrequência: 61,7%
     

  • Sham: 30,0%
    (p < 0,001)

     

Cura objetiva (12 meses – ITT)

  • Laser: 45,2%
     

  • Radiofrequência: 44,7%
     

  • Sham: 14,0%
    (p = 0,001)

     

Resultados semelhantes foram observados na análise por protocolo.

Subanálises mostraram melhores resultados em:

  • IUE leve (pad test < 10 g)
     

  • Mulheres pré-menopáusicas
     

  • IUE pura
     

Houve melhora significativa na qualidade de vida e redução de urgência e perda urinária durante relação sexual nos grupos de energia.

Não houve melhora significativa no escore global de função sexual (FSFI).

Segurança:

  • Complicações leves e transitórias
     

Sem eventos adversos graves identificados

Conclusão do Trabalho

O laser de CO₂ e a radiofrequência microablativa demonstraram eficácia clínica e segurança no seguimento de 12 meses, com resultados estatisticamente superiores ao grupo sham e desempenho semelhante entre si.

Os melhores resultados foram observados em pacientes com IUE leve, pré-menopáusicas e com quadro puro.

 

Comentário Editorial

Este ensaio clínico randomizado com grupo sham representa uma das evidências metodologicamente mais robustas disponíveis até o momento sobre o uso de energias vaginais no tratamento da IUE.

A inclusão de grupo controle simulado, análise por intenção de tratar e seguimento de 12 meses fortalece significativamente a validade interna do estudo, especialmente em um cenário de questionamentos regulatórios internacionais sobre o uso dessas tecnologias.

Diante dos alertas regulatórios do FDA e das recomendações cautelosas da ICS/IUGA acerca do uso indiscriminado de energias vaginais, este estudo representa um avanço importante ao oferecer evidência de maior qualidade metodológica, com grupo sham e análise robusta. Entretanto, o seguimento limitado a 12 meses e a ausência de dados sobre manutenção do efeito terapêutico ao longo do tempo indicam que, embora promissora, a incorporação dessas tecnologias ainda demanda consolidação por meio de estudos com maior horizonte temporal.

Assim, sua aplicação na prática deve envolver criteriosa seleção de pacientes e orientação clara quanto às expectativas realistas e às limitações atuais da evidência disponível.

 

Referência

Seki AS et al. Laser de CO₂ e radiofrequência comparados a grupo controle sham no tratamento da incontinência urinária de esforço (Estudo LARF – braço 3): ensaio clínico randomizado. International Urogynecology Journal. 2022;33(8):2247-2256.