
Laser de CO₂ e radiofrequência comparados a grupo controle sham no tratamento da incontinência urinária de esforço: ensaio clínico randomizado (Estudo LARF – braço 3)
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Introdução
A incontinência urinária de esforço (IUE) feminina é altamente prevalente e impacta significativamente a qualidade de vida. Embora o tratamento cirúrgico com sling seja amplamente utilizado, preocupações relacionadas a complicações com telas estimularam a busca por alternativas menos invasivas.
O uso de energias vaginais, como o laser de CO₂ e a radiofrequência microablativa, tem sido proposto como alternativa ambulatorial, porém com necessidade de evidência clínica robusta que comprove sua eficácia.
Objetivo
Avaliar a eficácia do laser de CO₂ e da radiofrequência microablativa no tratamento da IUE feminina, comparando-os a um grupo controle sham (procedimento simulado).
Desenho do estudo
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Ensaio clínico randomizado
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Duplo-cego
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Controlado por grupo sham
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Alocação 1:1:1
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Seguimento de 12 meses
Análise por intenção de tratar (ITT) e por protocolo (PP)
Número de pacientes
Foram randomizadas 139 mulheres (42 laser, 47 radiofrequência e 50 sham).
Ao final de 12 meses, 114 pacientes completaram o seguimento (38 por grupo).
Período de inclusão
Agosto de 2018 a setembro de 2019.
Materiais e Métodos
As pacientes foram submetidas a três sessões mensais ambulatoriais, com duração aproximada de 15 minutos cada.
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Grupo Laser: aplicação intravaginal de laser de CO₂.
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Grupo Radiofrequência: radiofrequência microablativa fracionada.
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Grupo Sham: procedimento idêntico, porém com equipamento bloqueado, sem emissão de energia, mantendo visor e sons ativos para preservação do cegamento.
Todas as participantes receberam orientações comportamentais na primeira visita.
Avaliações incluíram:
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Teste de esforço
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Pad test de 1 hora
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Diário miccional de 7 dias
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Questionários de qualidade de vida (I-QoL e ICIQ-SF)
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Avaliação de função sexual (FSFI)
O cálculo amostral foi realizado para detectar diferença de 20% entre grupos, com poder estatístico de 80% e significância de 5%.
Desfechos
Primários
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Melhora subjetiva da IUE, definida como resposta “melhor” ou “muito melhor” na escala Likert.
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Cura objetiva (desfecho composto), definida como presença simultânea de:
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Teste de esforço negativo
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Pad test negativo
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Ausência de perda no diário miccional
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Secundários
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Redução do peso no pad test
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Redução do número de episódios de perda urinária
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Qualidade de vida
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Função sexual
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Sintomas associados (urgência, noctúria e perda urinária durante relação sexual)
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão:
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Mulheres com IUE confirmada por teste de esforço
Exclusão:
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Incontinência urinária de urgência predominante
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Prolapso genital além do hímen
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Uso recente de estrogênio vaginal ou medicação para bexiga hiperativa
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Cirurgia prévia para IUE
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Radioterapia pélvica
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Infecção urinária ativa
Resultados
Melhora subjetiva (12 meses – ITT)
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Laser: 76,2%
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Radiofrequência: 61,7%
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Sham: 30,0%
(p < 0,001)
Cura objetiva (12 meses – ITT)
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Laser: 45,2%
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Radiofrequência: 44,7%
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Sham: 14,0%
(p = 0,001)
Resultados semelhantes foram observados na análise por protocolo.
Subanálises mostraram melhores resultados em:
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IUE leve (pad test < 10 g)
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Mulheres pré-menopáusicas
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IUE pura
Houve melhora significativa na qualidade de vida e redução de urgência e perda urinária durante relação sexual nos grupos de energia.
Não houve melhora significativa no escore global de função sexual (FSFI).
Segurança:
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Complicações leves e transitórias
Sem eventos adversos graves identificados
Conclusão do Trabalho
O laser de CO₂ e a radiofrequência microablativa demonstraram eficácia clínica e segurança no seguimento de 12 meses, com resultados estatisticamente superiores ao grupo sham e desempenho semelhante entre si.
Os melhores resultados foram observados em pacientes com IUE leve, pré-menopáusicas e com quadro puro.
Comentário Editorial
Este ensaio clínico randomizado com grupo sham representa uma das evidências metodologicamente mais robustas disponíveis até o momento sobre o uso de energias vaginais no tratamento da IUE.
A inclusão de grupo controle simulado, análise por intenção de tratar e seguimento de 12 meses fortalece significativamente a validade interna do estudo, especialmente em um cenário de questionamentos regulatórios internacionais sobre o uso dessas tecnologias.
Diante dos alertas regulatórios do FDA e das recomendações cautelosas da ICS/IUGA acerca do uso indiscriminado de energias vaginais, este estudo representa um avanço importante ao oferecer evidência de maior qualidade metodológica, com grupo sham e análise robusta. Entretanto, o seguimento limitado a 12 meses e a ausência de dados sobre manutenção do efeito terapêutico ao longo do tempo indicam que, embora promissora, a incorporação dessas tecnologias ainda demanda consolidação por meio de estudos com maior horizonte temporal.
Assim, sua aplicação na prática deve envolver criteriosa seleção de pacientes e orientação clara quanto às expectativas realistas e às limitações atuais da evidência disponível.
Referência
Seki AS et al. Laser de CO₂ e radiofrequência comparados a grupo controle sham no tratamento da incontinência urinária de esforço (Estudo LARF – braço 3): ensaio clínico randomizado. International Urogynecology Journal. 2022;33(8):2247-2256.

