
Influência da Lateralidade Manual e Posicionamento do Eletrodo na Neuromodulação Sagrada: Análise Retrospectiva
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Introdução
A bexiga hiperativa (BHA) é uma síndrome de sintomas sem etiologia bem definida, tornando fundamental identificar qual paciente responde melhor a qual tratamento.
A neuromodulação sacral (NMS) é uma opção terapêutica estabelecida, mas sua taxa de sucesso varia significativamente entre os pacientes. Estudos recentes sugerem que existe assimetria na inervação do assoalho pélvico, com possíveis diferenças entre os lados direito e esquerdo. Este trabalho investiga se a lateralidade manual do paciente e o lado de posicionamento do eletrodo influenciam o resultado da fase de teste da NMS.
Objetivo
Avaliar a influência da lateralidade manual (destro versus canhoto) e do lado de posicionamento do eletrodo sagrado na taxa de sucesso da fase de teste da neuromodulação sacral.
Desenho do estudo
Análise retrospectiva de dados coletados durante prática clínica de rotina.
Número de pacientes
453 pacientes incluídos na análise final (de 634 pacientes identificados inicialmente).
Período de inclusão
Pacientes submetidos a NMS em instituição entre 2010 e 2024 (com registros digitalizados a partir de 2010).
Materiais e Métodos
Os pacientes foram submetidos a procedimento de eletrodo com ponta em duas fases. A efetividade foi avaliada através de diários miccional de três dias na quarta semana da fase de teste. O posicionamento do eletrodo foi realizado sob anestesia local ou geral, dependendo do período e prática clínica da instituição. Desde 2020, todos os procedimentos foram realizados sob anestesia geral.
A lateralidade manual foi obtida dos registros de prontuário ou, quando não documentada, através de contato telefônico com os pacientes. Foram coletados dados demográficos, indicação urológica, lado do eletrodo, localização do eletrodo e lateralidade manual.
Análises estatísticas foram realizadas utilizando IBM SPSS Statistics versão 28. Testes qui-quadrado foram utilizados para avaliar associações entre lateralidade e resultado, sexo e resultado, e diagnóstico e resultado. Teste t de amostras independentes foi utilizado para avaliar associação entre idade e resultado. Regressão logística binária foi utilizada para examinar se havia interação entre lateralidade do paciente e lado do eletrodo sagrado na taxa de sucesso da fase de teste. Significância estatística foi definida como p < 0,05.
Desfechos
Desfecho primário: sucesso do tratamento com NMS, definido como progressão para implante de gerador implantável (IPG). Os pacientes necessitavam de redução >50% da queixa urológica primária para receber o IPG.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Incluídos: todos os pacientes submetidos a NMS na instituição com registros digitalizados disponíveis.
Excluídos: pacientes com posicionamento bilateral de eletrodo, pacientes ambidestros, e pacientes com indicações não-urológicas.
Resultados
De 453 pacientes, a taxa geral de sucesso foi de 70%. As características demográficas mostraram idade média de 51,98 anos (DP 13,8), com 28,3% de homens.
As indicações urológicas incluíram BHA com incontinência (33,8%), retenção urinária não-obstrutiva (NOUR) (36,2%), BHA sem incontinência (25,4%), e outras condições em menor proporção.
Quanto à lateralidade, 14,8% dos pacientes eram canhotos e 28,9% receberam eletrodo no lado esquerdo.
Pacientes canhotos apresentaram odds ratio significativamente maior de sucesso (OR 6,05; IC 1,41–26,00; p = 0,015) comparado a destros. Houve uma tendência (não significativa) para maior taxa de sucesso quando a lateralidade manual correspondia ao lado ipsilateral do eletrodo, porém essa associação não atingiu significância estatística.
Análise por diagnóstico revelou: BHA úmida com taxa de sucesso de 80,4%, BHA seca 78,3%, NOUR 53,7%, cistite intersticial/síndrome da bexiga dolorosa 88,9%, e doença neurológica do trato urinário inferior 50%.
Pacientes com sucesso na fase de teste foram significativamente mais jovens (idade média 50,57 anos) comparado aos que falharam (55,28 anos; p < 0,001). Mulheres apresentaram taxa de sucesso significativamente maior (79,1%) em relação aos homens (46,9%; p < 0,001).
Conclusão do Trabalho
Este é o primeiro estudo a explorar a relação entre lateralidade manual e posicionamento do eletrodo na neuromodulação sagrada.
Os achados sugerem que a correspondência entre lateralidade manual e lado do eletrodo pode estar associada a maiores taxas de sucesso, porém essa associação não atingiu significância estatística.
Notavelmente, pacientes canhotos apresentaram odds significativamente maior de sucesso. Assim, a lateralidade manual pode ter relevância para otimizar o posicionamento do eletrodo na NMS.
Até que mais evidências estejam disponíveis, propõe-se uma abordagem simples e sem custo adicional: selecionar o forame sacral no lado ipsilateral concordante com a lateralidade manual do paciente durante o posicionamento do eletrodo.
Comentário Editorial
Este trabalho apresenta uma perspectiva inovadora ao investigar fatores anatômicos e neurobiológicos que possam influenciar o sucesso da neuromodulação sagrada.
A hipótese de que a assimetria na inervação do assoalho pélvico possa correlacionar-se com a lateralidade manual é biologicamente plausível, fundamentando-se em estudos prévios que demonstram assimetria na inervação do esfíncter anal e variações nas contribuições das raízes nervosas sacrais entre os lados direito e esquerdo.
O achado mais relevante é a maior taxa de sucesso em pacientes canhotos (OR 6,05), sugerindo que fatores neurobiológicos relacionados à lateralidade podem influenciar a resposta à neuromodulação.
Embora a correspondência entre lateralidade e lado do eletrodo não tenha atingido significância estatística, a tendência observada é promissora e merece investigação prospectiva.
É importante reconhecer as limitações do estudo. Trata-se de análise retrospectiva com inerentes vieses e controle limitado de variáveis confundidoras. A NMS evoluiu ao longo do tempo e é realizada de forma variável entre praticantes. O tipo de anestesia variou durante o período (local versus geral), afetando a avaliação de respostas sensitivas versus motoras. Além disso, a lateralidade manual não foi avaliada formalmente com escala validada, reduzindo a precisão da classificação, particularmente considerando que a lateralidade é dependente da tarefa e existe em um espectro. Um número significativo de casos foi excluído por dados faltantes, e coleta prospectiva com protocolos padronizados melhoraria a completude dos dados.Clinicamente, as implicações são moderadas. Os resultados apoiam achados da literatura prévia de que pacientes mais jovens e do sexo feminino apresentam melhor prognóstico na fase de teste, particularmente no grupo NOUR.
Se pesquisas futuras confirmarem esses achados, a lateralidade manual pode tornar-se um fator simples e específico do paciente a considerar ao determinar o posicionamento ótimo do eletrodo na NMS.
Referência
Kendall HJ, van Renterghem ARPKM, Smits MAC, Heesakkers JPFA. The influence of patient handedness and lead side placement on sacral neuromodulation test phase outcome: a retrospective analysis. Continence. 2026;18:102333.

