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Disfunção miccional neurogênica induzida por overdose de vitamina B6

Autores do Artigo: 

T. Van den Broeck, B. Crul, J.P. Heesakkers

Journal

Continence Reports

Data da publicação

Março 2022

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

O artigo apresenta um relato de caso inusitado de um paciente que desenvolveu disfunção miccional neurogênica associada à hipervitaminose B6 decorrente do uso crônico de suplementos multivitamínicos. Trata-se de uma descrição pioneira da associação entre intoxicação por vitamina B6 e bexiga neurogênica, uma vez que, embora neuropatias periféricas induzidas por piridoxina sejam conhecidas, sua relação com disfunção miccional neurogênica não havia sido previamente documentada na literatura. O caso é particularmente relevante por demonstrar a reversibilidade completa dos sintomas após a suspensão do suplemento, ressaltando a importância da investigação de medicações e suplementos em pacientes com sintomas urinários inexplicáveis.

Objetivo

Relatar um caso de disfunção miccional neurogênica reversível causada por hipervitaminose B6 e alertar os profissionais de saúde sobre os potenciais efeitos adversos de suplementos vitamínicos, particularmente em relação aos sintomas urinários.

Desenho do estudo

Relato de caso clínico

Materiais e Métodos

O paciente foi avaliado através de história clínica detalhada, diário miccional, avaliação urodinâmica com cistometria, uretrocistoscopia e dosagem sérica de vitamina B6. A avaliação da causalidade foi realizada utilizando a escala de Naranjo, que classifica a probabilidade de uma reação adversa estar relacionada a um medicamento ou substância. O paciente em questão era um homem de 77 anos com histórico em branco para urologia, que apresentava sintomas de armazenamento urinário, principalmente poliúria noturna e urgência. Havia estado utilizando suplementos vitamínicos complexo B com alta dose de vitamina B6 (10 mg/dia) associada a vitaminas B1 e B12 por três anos. Os níveis séricos de vitamina B6 foram medidos antes e após a suspensão do suplemento.

Resultados

O paciente apresentava-se com sintomas de armazenamento urinário, incluindo oito episódios noturnos de micção com volume total de 1100 ml e frequência diurna de 5 vezes com 800 ml de volume total. Inicialmente foi tratado com tamsulosina, sem benefício, e posteriormente com desmopressina e oxibutinina, desenvolvendo retenção urinária aguda que necessitou cateterismo intermitente limpo (CIC). A cistometria revelou capacidade cistométrica máxima de 207 ml com acontractilidade detrusora. A uretrocistoscopia não evidenciou anormalidades intravesicais nem obstrução uretral. Os níveis séricos de vitamina B6 estavam suprafisiológicos (126 nmol/l; valores normais 35-110 nmol/l). Após a suspensão dos suplementos vitamínicos, houve resolução progressiva dos sintomas urinários em poucos meses, normalização dos níveis de vitamina B6 (100 nmol/l) e desaparecimento da neuropatia sensorial periférica bilateral (dormência dos pés). A micção, incluindo sintomas de bexiga hiperativa e noctúria, retornou ao normal, permitindo a suspensão do CIC e da medicação. A escala de causalidade de Naranjo obteve pontuação de 7, indicando relação provável entre a hipervitaminose B6 e os sintomas apresentados.

Conclusão do Trabalho

O aumento do uso de preparações disponíveis sem prescrição, incluindo suplementos multivitamínicos, deve criar consciência entre os médicos sobre os efeitos deletérios que esses produtos podem causar. Recomenda-se verificar os níveis séricos de vitamina B6 e suspender seu uso quando elevados. A investigação rotineira do uso de suplementos dietéticos deve ser incorporada à avaliação de pacientes com disfunção miccional neurogênica inexplicável.

Comentário Editorial

Este relato de caso apresenta uma associação inédita e clinicamente relevante entre hipervitaminose B6 e disfunção miccional neurogênica. Embora a neuropatia periférica induzida por piridoxina seja conhecida há décadas, sua manifestação como bexiga neurogênica com acontractilidade detrusora não havia sido previamente descrita.

O mecanismo fisiopatológico proposto envolve a inibição competitiva da forma ativa da vitamina B6 (piridoxal-5'-fosfato) pela forma inativa (piridoxina), resultando em redução da atividade vitamínica. As alterações neuropatológicas incluem desmielinização, células de Schwann deformadas e regressão axonal, semelhantes às observadas em neuropatia diabética.

A relevância clínica deste caso reside na reversibilidade completa dos sintomas após a suspensão do suplemento, demonstrando que a disfunção miccional não era irreversível. Este achado tem implicações práticas importantes: em pacientes com sintomas urinários neurogênicos inexplicáveis, particularmente aqueles refratários ao tratamento convencional, deve-se investigar sistematicamente o uso de suplementos vitamínicos, especialmente aqueles contendo altas doses de vitamina B6. A dosagem sérica de vitamina B6 deve ser considerada em casos selecionados.

Limitações importantes incluem a natureza anedótica do relato (um único caso), a impossibilidade ética de realizar um desafio com vitamina B6 para confirmação definitiva, e a ausência de repetição da cistometria após a normalização dos sintomas (embora o paciente tenha recusado por não ter implicações terapêuticas). Além disso, não é possível descartar completamente a contribuição de outros componentes do suplemento multivitamínico. Contudo, os níveis suprafisiológicos de vitamina B6, a cronologia temporal clara e a resolução completa dos sintomas fornecem evidência circunstancial robusta.

Perspectivas futuras incluem maior conscientização entre urologistas sobre este potencial efeito adverso, investigação rotineira de suplementos em pacientes com sintomas urinários neurogênicos, e possíveis estudos epidemiológicos para determinar a real incidência desta complicação, que provavelmente é subestimada devido ao não questionamento rotineiro sobre uso de suplementos em ambulatórios de urologia.

Referência

Van den Broeck T, Crul B, Heesakkers JP. Neurogenic voiding dysfunction induced by vitamin B6 overdose. Continence Reports. 2022;1:100004. https://doi.org/10.1016/j.contre.2022.100004