Carregando...
Resumos Comentados > UroOncologia > Câncer de Próstata > Recorrência bioquímica > Duração da Supressão Androgênica com Radioterapia Pós-operatória (DADSPORT) para Câncer de Próstata Não Metastático: Uma Revisão Sistemática Colaborativa e Meta-análise de Dados Agregados

Duração da Supressão Androgênica com Radioterapia Pós-operatória (DADSPORT) para Câncer de Próstata Não Metastático: Uma Revisão Sistemática Colaborativa e Meta-análise de Dados Agregados

Autores do Artigo: 

Sarah Burdett, David J. Fisher, Jayne F. Tierney, Adrian D. Cook, Daniel E. Spratt, James J. Dignam, Wendy F. Seiferheld, Amar U. Kishan, Yilun Sun, Sylvie Chabaud, Jason A. Efstathiou, Christopher C. Parker, Alan Pollack, Paul Sargos, Igor Latorzeff, Mer

Journal

European Urology

Data da publicação

Maio 2025

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

Em maio de 2025, foi publicada, na European Urology, a meta-análise de dados prospectivos da colaboração DADSPORT. Os dados de literatura sobre terapia de privação androgênica (TDA) associada à radioterapia pós operatória em câncer de próstata não metastático apresentam divergência. O estudo NRG/RTOG 9601 sugeriu benefício em sobrevida global com terapia de privação androgênica (TDA) 24 meses. Principalmente em resgate tardio e pacientes com PSA acima de 1,5 ng/dl pré RDT. Os ensaios GETUG-AFU-16 e NRG/RTOG 0534 demonstraram ganhos em sobrevida livre de progressão bioquímica sem ganho em sobrevida global. Confira a seguir mais detalhes desse estudo.

 

Objetivo

Determinar o efeito da adição de TDA à radioterapia pós-operatória na sobrevida global, sobrevida livre de metástases (SLM) e sobrevida câncer de próstata específica. Além de avaliar  a influência da duração da TDA (curta vs. longa) nos desfechos clínicos, incluindo os efeitos do tratamento em função de diferenças no desenho do estudo, particularmente a duração da TDA, ou das características dos participantes incluídos.

Desenho do estudo

Trata-se de uma revisão sistemática e meta-análise de dados agregados de ensaios clínicos randomizados (ECRs) sob o framework FAME. Os braços de intervenção avaliados foram  radioterapia isolada vs. radioterapia associada à TDA de curta duração (4–6 meses) vs. radioterapia associada à TDA de longa duração (24 meses).

Número de pacientes

A análise incluiu 4.411 participantes, representando 96% da evidência disponível em ECRs concluídos sobre o tema.

Período de inclusão

Os dados provêm de 5 ECRs que geraram 6 comparações entre os braços. O período de recrutamento abrangeu de 1998 a 2016, com seguimento mediano variando entre 6,2 e 13 anos.

Materiais e Métodos

A metodologia incluiu busca sistemática em bases como MEDLINE, EMBASE, ClinicalTrials.gov e CENTRAL, até abril de 2024. Foi utilizada meta-análise por variância inversa com modelo de efeitos fixos, estratificada por estudo e duração da terapia de privação androgênica. Assumindo uma sobrevida basal de 90% em 5 anos, estimou-se poder estatístico superior a 95% para detectar uma diferença absoluta de 5% em sobrevida global. No entanto, o poder é menor para diferenças mais discretas, especialmente em análises de longo prazo ou subgrupos. Utilizou-se uma abordagem frequentista baseada em contrastes, implementada em modelos de meta-análise multivariada. O método de decomposição de escore foi aplicado para estatísticas de "empréstimo de força". A heterogeneidade foi avaliada pelos testes Cochran Q e estatística  I² . Em ensaios multi-braço (como RADICALS-HD), a variância foi ajustada para evitar a dupla contagem de participantes.  Para análise de subgrupos, a sobrevida livre de metástases (SLM) foi o desfecho primário planejado para as análises de subgrupos, a fim de proporcionar maior número de eventos e poder estatístico.

Desfechos

O desfecho primário foi a sobrevida global (tempo da randomização até óbito por qualquer causa). Os desfechos secundários incluíram sobrevida livre de metástases e sobrevida câncer de próstata específica. Óbitos por causas desconhecidas após diagnóstico de doença metastática foram atribuídos ao câncer de próstata. As análises de subgrupos consideraram variáveis como PSA, escore de Gleason, margens cirúrgicas, envolvimento de vesícula seminal, escore CAPRA-S e comorbidades.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Foram incluídos pacientes com câncer de próstata não metastático submetidos à prostatectomia radical e encaminhados para radioterapia pós-operatória, seja adjuvante ou de resgate.
Na análise de sensibilidade, foram excluídos pacientes com PSA superior a 2,0 ng/mL antes da radioterapia, para avaliar especificamente o cenário de resgate precoce.

Resultados

Os ensaios incluíram entre 125 e 1523 pacientes. Foram comparadas estratégias com terapia de privação androgênica de curta duração versus ausência de tratamento hormonal, e de longa duração versus ausência de tratamento. O estudo RADICALS-HD também comparou diretamente curta versus longa duração. A maioria dos estudos utilizou radioterapia de resgate para o leito prostático, com variações no uso concomitante de terapia hormonal e, em alguns casos, inclusão de cadeias linfonodais. Os pacientes tinham idade mediana entre 64 e 67 anos, PSA pré-operatório entre 8,1 e 9,8 ng/mL e bom status funcional. Predominaram tumores estágio II a IIIa, Gleason 7 e ausência de invasão de vesículas seminais. O risco de viés foi baixo na maioria dos estudos, com algumas limitações no GETUG-AFU-22 devido à escassez de informações metodológicas. Em sobrevida global, houve tendência de benefício com terapia de privação androgênica HR de 0,86, sem significância estatística, com ganho absoluto de cerca de 2% em 8 anos (figura abaixo).

Para sobrevida livre de metástases, houve benefício com HR 0,78 (p < 0,001), com redução de risco de 22% e ganho absoluto de 4% em 8 anos.

A sobrevida câncer específica também melhorou significativamente HR de 0,61 (p<0,001), e ganho absoluto de 4% em 8 anos.

Não houve diferença estatística significativa entre curta e longa duração em sobrevida global, embora haja tendência de benefício para esquemas mais prolongados em alguns desfechos. As análises de subgrupos sugerem maior benefício em pacientes de maior risco, especialmente com PSA mais elevado antes da radioterapia e escores CAPRA-S mais altos.

Conclusão do Trabalho

A meta-análise DADSPORT concluiu que a associação de TDA, de curta ou longa duração, à radioterapia pós-operatória melhora a sobrevida livre de metastáses e a sobrevida câncer específica; entretanto, o impacto em sobrevida global tende a ser limitado e possivelmente restrito a pacientes de maior risco. Entre as principais limitações, destacam-se o uso de dados agregados, a heterogeneidade dos estudos ao longo do tempo e o uso de métodos de imagem menos sensíveis, anteriores à era do PET-PSMA.

Comentário Editorial

A metanálise DADSPORT avaliou TDA associada à radioterapia pós-operatória em câncer de próstata não metastático, incluindo 5 ECRs (4.411 pacientes), com metodologia pré-especificada e alta representatividade dos dados. Demonstrou robustez analítica, com dados obtidos diretamente dos investigadores, análises de sensibilidade e subgrupos, avaliando sobrevida global, sobrevida livre de metástases e sobrevida câncer-específica. Apesar da tendência de benefício, não houve ganho estatisticamente significativo em sobrevida global (HR 0,86; p = 0,057), com ganho absoluto discreto (~2% em 8 anos), possivelmente restrito a pacientes de maior risco.

Entre as limitações do estudo destacam-se: 
1) A heterogeneidade nas populações: os benefícios em sobrevida global parecem limitados a subgrupos específicos (pacientes com PSA pré-radioterapia mais elevado e escores CAPRA-S mais altos), sugerindo que os resultados podem não ser generalizáveis a todos os pacientes. 
2) O uso de dados agregados: A meta análise utilizou dados agregados em vez de dados individuais de pacientes, o que limita a capacidade de realizar análises de subgrupos mais detalhadas e ajustes para fatores de confusão individuais. 
3) A publicação não menciona análises de eventos adversos ou qualidade de vida, aspectos cruciais na decisão de adicionar TDA. 
Portanto, a metanálise DADSPORT demonstrou benefício consistente em desfechos intermediários, porém sem impacto significativo em sobrevida global. Esses achados reforçam a necessidade de seleção criteriosa de pacientes para associação de terapia de privação androgênica, priorizando aqueles com maior risco clínico.

Referência

Burdett S, Fisher DJ, Tierney JF, et al. Duration of Androgen Suppression with Postoperative Radiotherapy (DADSPORT) for Nonmetastatic Prostate Cancer: A Collaborative Systematic Review and Meta-analysis of Aggregate Data. Eur Urol. 2025;88(3):277-290. doi:10.1016/j.eururo.2025.05.013