
Cinética Sensorial Identifica Novos Padrões de Curvas Sensação-Capacidade Vesical durante Urodinâmica em Pacientes com Urgência Urinária
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Introdução
A urgência urinária é o sintoma-chave da bexiga hiperativa (OAB), definida como desejo súbito e compulsório de urinar que é difícil de adiar. Afeta aproximadamente 12-18% da população adulta, com prevalência aumentando com a idade. Embora medicações anticolinérgicas e técnicas comportamentais sejam primeira linha de tratamento, muitos pacientes não respondem adequadamente ou não toleram estes tratamentos, necessitando de abordagens terapêuticas alternativas. A urodinâmica (UDS) é o padrão-ouro para avaliação objetiva da função vesical, permitindo medição de pressão, volume e contrações involuntárias do detrusor. Entretanto, a avaliação da sensação vesical durante UDS permanece predominantemente qualitativa, baseada em descrições verbais do paciente em pontos discretos durante o enchimento (sensação de primeiro desejo, desejo normal, desejo forte). Esta abordagem qualitativa não captura a dinâmica contínua da sensação durante o enchimento vesical e pode não refletir adequadamente a experiência sensorial do paciente.Estudos prévios demonstraram que pacientes com OAB apresentam alterações na sensação vesical, incluindo sensação aumentada (hipersensibilidade) ou alterações na relação entre sensação e volume. Entretanto, a heterogeneidade na apresentação clínica de OAB sugere que diferentes mecanismos fisiopatológicos podem estar envolvidos. Uma abordagem mais objetiva e contínua para avaliar a sensação vesical durante UDS poderia permitir melhor fenotipar de pacientes com OAB, potencialmente levando a tratamentos mais direcionados. O desenvolvimento de tecnologia de tablet permitiu a criação de um "Sensation Meter" que coleta dados de sensação em tempo real durante UDS, oferecendo uma oportunidade para análise mais sofisticada da cinética sensorial vesical.
Objetivo
Desenvolver e validar um método de análise de cinética sensorial utilizando um "Sensation Meter" baseado em tablet para identificar padrões distintos de curvas sensação-capacidade durante a urodinâmica em pacientes com urgência urinária, e investigar a associação entre estes padrões de curva e características clínicas de bexiga hiperativa, incluindo severidade de urgência e presença de hiperatividade detrusora.
Desenho do estudo
Estudo prospectivo de coorte conduzido na Virginia Commonwealth University. Adultos com idade ≥21 anos agendados para estudo de urodinâmica clinicamente indicado foram recrutados. Participantes foram divididos em dois grupos baseado na severidade de sintomas: Grupo 1 (controle) consistiu de pacientes sem urgência urinária significativa, e Grupo 2 consistiu de pacientes com urgência urinária severa. Durante o procedimento de UDS, um "Sensation Meter" baseado em tablet foi utilizado para coletar dados de sensação vesical em tempo real. Os participantes foram instruídos a indicar seu nível de sensação vesical em uma escala contínua durante todo o enchimento vesical. Os dados foram então analisados utilizando cálculos de área sob a curva (AUC) para categorizar as curvas sensação-capacidade em três formas distintas. Análises estatísticas foram realizadas para investigar associações entre formas de curva e características clínicas.
Número de pacientes
69 participantes totais foram incluídos no estudo
Materiais e Métodos
Participantes:Adultos com idade ≥21 anos agendados para estudo de urodinâmica clinicamente indicado foram recrutados. Os critérios de inclusão incluíram capacidade de fornecer consentimento informado e capacidade de completar o procedimento de UDS com o Sensation Meter. Foram excluídos pacientes com anomalias neurológicas significativas que pudessem afetar a sensação vesical, história de cirurgia vesical prévia que alterasse a anatomia, ou incapacidade de comunicar sensações durante o procedimento.
Grupos de Participantes:Participantes foram divididos em dois grupos baseado na severidade de sintomas:
- Grupo 1 (Controle): Pacientes sem urgência urinária significativa
- Grupo 2 (Urgência Severa): Pacientes com urgência urinária severa
Sensation Meter:Um "Sensation Meter" estabelecido baseado em tablet foi utilizado para coletar dados de sensação vesical em tempo real durante UDS. O dispositivo permite que os participantes indiquem continuamente seu nível de sensação vesical em uma escala durante todo o enchimento vesical. Os dados são registrados sincronizadamente com as medições de pressão e volume da urodinâmica, permitindo análise integrada da relação entre sensação e volume vesical.
Protocolo de Urodinâmica:A UDS foi realizada de acordo com os padrões da International Continence Society (ICS). O enchimento vesical foi realizado a uma taxa padronizada, e pressões vesicais, pressões uretrais e volumes foram medidos continuamente. Contrações involuntárias do detrusor (hiperatividade detrusora) foram documentadas quando presentes. A sensação vesical foi avaliada tanto através do método tradicional qualitativo (descrições verbais em pontos discretos) quanto através do Sensation Meter contínuo.
Análise de Formas de Curva:Porque os volumes de enchimento em UDS variam amplamente, curvas sensação-capacidade padronizadas foram criadas normalizando o volume vesical para uma escala de 0-100% da capacidade. Os dados de sensação foram então plotados contra este volume normalizado. As curvas resultantes foram categorizadas em três formas distintas baseado em análises de área sob a curva (AUC):
Forma R (Reta): Aumento maior no início, seguido de crescimento linear e gradual da sensação ao longo do enchimento vesical
Forma L (Linear): Padrão similar à forma R, com aumento gradual e consistente
Forma J (em forma de J): Aumento rápido e abrupto da sensação próximo ao final do enchimento vesical, com sensação relativamente baixa durante a maior parte do enchimento
Métodos Estatísticos:Os dados foram reportados como médias ± desvio padrão. Análises estatísticas foram realizadas para investigar associações entre formas de curva sensação-capacidade e características clínicas, incluindo severidade de urgência, presença de hiperatividade detrusora, capacidade vesical e escores de qualidade de vida relacionada à bexiga (ICIQ). Testes de qui-quadrado foram utilizados para comparar proporções entre grupos, e testes t foram utilizados para comparar variáveis contínuas. Valores de p < 0,05 foram considerados estatisticamente significativos.
Desfechos
Desfechos Primários:
- Identificação e caracterização de padrões distintos de curvas sensação-capacidade durante UDS
- Associação entre formas de curva sensação-capacidade e severidade de urgência urinária
- Associação entre formas de curva e incômodo relacionado à urgência
Desfechos Secundários:
- Associação entre formas de curva e presença de hiperatividade detrusora
- Associação entre formas de curva e capacidade vesical
- Associação entre formas de curva e escores de qualidade de vida relacionada à bexiga
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Critérios de Inclusão:
- Idade ≥21 anos
- Agendado para estudo de urodinâmica clinicamente indicado
- Capacidade de fornecer consentimento informado por escrito
- Capacidade de completar o procedimento de UDS com o Sensation Meter
- Capacidade de comunicar sensações durante o procedimento
Critérios de Exclusão:
- Anomalias neurológicas significativas que pudessem afetar a sensação vesical
- História de cirurgia vesical prévia que alterasse a anatomia
- Incapacidade de comunicar sensações durante o procedimento
- Condições que impedissem a realização segura de UDS
Resultados
Características da População: Um total de 69 participantes foi incluído no estudo. A população foi dividida em dois grupos: Grupo 1 (controle, sem urgência significativa) e Grupo 2 (urgência severa). As características demográficas e clínicas foram comparáveis entre os grupos, com exceção da severidade de urgência e incômodo relacionado à urgência, que foram significativamente maiores no Grupo 2. A capacidade vesical, pressões vesicais e presença de hiperatividade detrusora foram documentados para todos os participantes.
Distribuição de Padrões de Curva Sensação-Capacidade:
A análise das curvas sensação-capacidade normalizadas identificou três padrões distintos com a seguinte distribuição:
- Forma R (Reta): 7 participantes (10%)
- Forma L (Linear): 43 participantes (62%)
- Forma J (em forma de J): 19 participantes (28%)
A análise de área sob a curva (AUC) para as curvas sensação-capacidade totais produziu uma distribuição quase idêntica (97%) de curvas em forma r, l e j.
Associações com Urgência Urinária Severa: A forma de curva em J foi significativamente associada com urgência urinária severa. Quando categorizado por severidade de urgência:
- Grupo com urgência severa (n=40): 15 participantes (37,5%) apresentavam curva em forma de J
- Grupo com urgência moderada (n=29): 4 participantes (13,8%) apresentavam curva em forma de J (Fisher's Exact Test, p=0,033)
Associações com Incômodo Relacionado à Urgência: A forma de curva em J foi significativamente associada com incômodo elevado relacionado à urgência:
- Participantes com incômodo elevado (n=44): 17 participantes (38,6%) apresentavam curva em forma de J
- Participantes com incômodo baixo/moderado (n=25): 2 participantes (8%) apresentavam curva em forma de J (Fisher's Exact Test, p=0,01)
Independência de Capacidade Vesical: Quando comparados grupos com baixa capacidade (<322 ml) versus alta capacidade (≥322 ml), não houve associação significativa com forma de curva (p=0,59). Isto confirma que as formas de curva sensação-capacidade são independentes da capacidade vesical absoluta.
Independência de Taxa de Enchimento:A taxa de enchimento em UDS foi 50 ml/min para 67% dos participantes. Para pequenos grupos com taxas de enchimento diferentes (< 49 ml/min, n=15 com 2 curvas "r", 8 "l" e 5 "j"; e > 51 ml/min, n=8 com 1 curva "r", 5 "l" e 2 "j"), a distribuição de curvas "j" e "não-j" não foi significativamente diferente (Fisher's Exact Test, p=1,0).
Associações com Hiperatividade Detrusora:Hiperatividade detrusora foi identificada em:
- Participantes com curva em forma de J (n=19): 10 participantes (52,6%)
- Participantes com curva não-J (n=50): 19 participantes (38,0%) (Fisher's Exact Test, p=0,29 - não significativo)
Entretanto, hiperatividade detrusora foi claramente associada com incômodo elevado relacionado à urgência, pois 23 de 29 pacientes (79,3%) com DO relataram incômodo elevado comparado a apenas 6 de 29 (20,7%) com incômodo baixo/moderado (p=0,025).
Conclusão do Trabalho
Este estudo de cinética sensorial criou um método analítico novo para avaliar objetivamente a sensação vesical durante a urodinâmica. A identificação de três padrões distintos de curvas sensação-capacidade (R, L e J) oferece uma nova abordagem para fenotipar pacientes com bexiga hiperativa e urgência urinária. A associação significativa entre a forma de curva em J e urgência severa, independente de capacidade vesical ou hiperatividade detrusora, sugere que a cinética sensorial pode representar um mecanismo fisiopatológico distinto em OAB. Estes achados sugerem que as formas de curva sensação-capacidade poderiam servir como ferramentas objetivas para fenotipar pacientes com OAB, potencialmente levando a tratamentos mais direcionados e personalizados. Pesquisa futura é necessária para validar estes achados em populações maiores e investigar se diferentes formas de curva respondem diferentemente a intervenções terapêuticas específicas.
Comentário Editorial
Este artigo apresenta uma inovação metodológica significativa na avaliação objetiva da sensação vesical durante a urodinâmica, abordando uma lacuna importante na prática clínica atual. A introdução do "Sensation Meter" baseado em tablet e a análise de cinética sensorial representam um avanço importante na compreensão da fisiopatologia da bexiga hiperativa e urgência urinária.
Achados Principais e Implicações Clínicas:O achado central de que diferentes padrões de curvas sensação-capacidade existem e que a forma em J está associada com urgência severa tem implicações clínicas significativas. Atualmente, a avaliação da sensação vesical durante UDS permanece predominantemente qualitativa, com descrições verbais do paciente em pontos discretos (sensação de primeiro desejo, desejo normal, desejo forte). Esta abordagem não captura a dinâmica contínua da sensação durante o enchimento e pode não refletir adequadamente a experiência sensorial do paciente. O método proposto oferece uma avaliação mais objetiva e contínua, potencialmente permitindo melhor compreensão dos mecanismos subjacentes à urgência urinária.A independência da forma de curva em J em relação à capacidade vesical e hiperatividade detrusora é particularmente importante. Isto sugere que a cinética sensorial representa um mecanismo fisiopatológico distinto em OAB, não simplesmente uma consequência de redução de capacidade ou contrações involuntárias. Isto alinha-se com crescente evidência de que OAB é uma síndrome heterogênea com múltiplos mecanismos subjacentes, incluindo disfunção sensorial, disfunção contrátil e fatores neurológicos. A capacidade de identificar pacientes com padrão de curva em J poderia permitir seleção mais precisa de terapias direcionadas especificamente para disfunção sensorial, como inibidores de canais TRP (transient receptor potential), que têm demonstrado promessa em estudos pré-clínicos.
Inovação Metodológica:A utilização de um "Sensation Meter" baseado em tablet para coleta de dados de sensação em tempo real durante UDS representa uma inovação metodológica importante. Isto permite análise contínua da relação sensação-volume, em contraste com a abordagem tradicional de pontos discretos. A normalização das curvas para uma escala de 0-100% de capacidade permite comparação entre pacientes com diferentes capacidades vesicais absolutas, facilitando identificação de padrões comuns. A análise de área sob a curva (AUC) fornece uma medida quantitativa que pode ser facilmente comparada entre pacientes e potencialmente utilizada em prática clínica.
Perspectivas futuras: (1) estudos em populações maiores e multicêntricas para validar os achados e aumentar generalizabilidade; (2) investigação de se diferentes formas de curva respondem diferentemente a tratamentos específicos (anticolinérgicos, inibidores de canais TRP, neuromodulação); (3) estudos longitudinais para determinar se formas de curva mudam com tratamento e se mudanças correlacionam-se com melhora clínica; (4) investigação de mecanismos fisiopatológicos subjacentes a diferentes formas de curva, incluindo estudos de expressão de receptores sensoriais e mediadores inflamatórios; (5) desenvolvimento de algoritmos de aprendizado de máquina para classificação automática de formas de curva; (6) investigação de se a cinética sensorial pode predizer resposta ao tratamento, permitindo seleção mais precisa de terapias; (7) estudos em populações pediátricas e geriátricas para determinar se padrões de curva diferem com idade; (8) integração da análise de cinética sensorial em protocolos de UDS clínicos de rotina para melhorar fenotipar de pacientes com OAB.
A cinética sensorial oferece uma nova dimensão para compreender a bexiga hiperativa e urgência urinária, potencialmente levando a tratamentos mais direcionados e personalizados. Este estudo fornece uma base importante para pesquisa futura nesta área promissora.
Referência
Speich JE, Narayanan A, Bandaru M, Jones N, Thapa D, Li R, Cullingsworth ZE, Nagle AS, Colhoun AF, Klausner AP. Sensation Kinetics Identifies Novel Bladder Sensation-Capacity Curve Shapes during Urodynamics in Patients with Urinary Urgency. Continence. 2025. https://doi.org/10.1016/j.cont.2025.102291

