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Fulguração Trigonal Completa para Infecções Urinárias Recorrentes em Mulheres

Autores do Artigo: 

Leopoldo Ribeiro-Filho, Caio V. Suartz, Natalia D. S. F. Braz, Matheus Siqueira, Felipe Hirasaki, Anuar I. Mitre, Cristiano M. Gomes, William C. Nahas

Journal

Neurourology and Urodynamics

Data da publicação

Outubro 2022

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

As infecções urinárias recorrentes (IUR) representam um desafio clínico significativo, afetando aproximadamente 20% das mulheres após o primeiro episódio de cistite aguda. O tratamento convencional com antibióticos profiláticos contínuos, embora eficaz, está associado ao desenvolvimento de resistência bacteriana e efeitos colaterais indesejáveis. Este estudo apresenta uma alternativa terapêutica promissora: a fulguração endoscópica completa da mucosa trigonal e colo vesical em mulheres com IUR refratárias ao tratamento antibiótico. Os resultados demonstram que 96% das pacientes permaneceram livres de infecção durante o primeiro ano de seguimento, com redução significativa de episódios infecciosos nos dois primeiros anos pós-procedimento.

Objetivo

Avaliar a eficácia a longo prazo da fulguração endoscópica completa da mucosa trigonal e colo vesical em mulheres com infecções urinárias recorrentes refratárias ao tratamento antibiótico.

Desenho do estudo

Estudo prospectivo de série de casos com coleta sistemática de dados. 

Número de pacientes

73 mulheres

Período de inclusão

Janeiro de 2006 a janeiro de 2017

Materiais e Métodos

Procedimento de Fulguração Trigonal Completa:

O procedimento foi realizado sob anestesia raquidiana por um único urologista (L.R.F.). Inicialmente, realizou-se cistoscopia com obtenção de duas biópsias a frio da região trigonal nas áreas com lesões mais representativas. A seguir, toda a mucosa trigonal e colo vesical foi submetida a eletrocoagulação monopolar endoscópica com eletrodo tipo rollerball, utilizando potência de 80 watts em modo de coagulação. Lesões extratrigonais sugestivas de trigonite ou metaplasia escamosa também foram fulguradas. Os óstios ureterais foram poupados quando livres de lesões; nos poucos casos em que lesões inflamatórias envolviam a mucosa ao redor dos óstios, realizou-se cauterização superficial. Após o procedimento, as pacientes foram mantidas em irrigação vesical contínua com soro fisiológico por algumas horas e receberam alta sem cateter vesical de demora. Todas receberam ciprofloxacina por 10 dias após o procedimento para prevenir colonização bacteriana na área cauterizada.

Desfechos

O desfecho primário foi o tempo até a primeira infecção urinária após a fulguração. Infecções urinárias foram diagnosticadas por sintomatologia compatível com infecção do trato urinário inferior (disúria, frequência, urgência) associada a análise de urina e urocultura positiva. O fim de um episódio de infecção foi considerado após 14 dias; se persistissem sintomas ou prescrição de antibióticos, era contado como o mesmo episódio.

Análise Histopatológica:Biópsias trigonais foram analisadas para presença de metaplasia escamosa (ME), trigonite erosiva crônica (TE) e infecção por papilomavírus humano (HPV) através de hibridização in situ.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Foram incluídas mulheres com idade ≥18 anos apresentando infecção urinária recorrente definida como: (1) pelo menos três episódios de infecção urinária sintomática nos 12 meses anteriores, ou (2) pelo menos dois episódios nos 6 meses anteriores, todos confirmados por urocultura. Todas as pacientes haviam falhado com múltiplos cursos de antibióticos apropriados. Foram excluídas mulheres com anomalias estruturais ou funcionais do trato urinário (disfunção neurogênica, litíase urinária), história de radioterapia pélvica, cistocele ou outros problemas ginecológicos que pudessem justificar as infecções recorrentes.

Resultados

Características da população:

A idade mediana foi de 64 anos (variação: 17-89 anos) e o tempo mediano de seguimento após fulguração foi de 4,2 anos (variação: 2,5-14 anos). O procedimento foi bem tolerado por todas as pacientes. Em 24 de 76 pacientes (33%), havia lesões vesicais em áreas fora do trígono e colo vesical, que também foram fulguradas. Não houve complicações maiores ou reinternações. Os eventos adversos foram mínimos, sendo a disúria o mais frequente (Clavien-Dindo I).

Achados histopatológicos:
Metaplasia escamosa: 31 pacientes (42%)
Trigonite erosiva crônica: 42 pacientes (58%)
Infecção por HPV: presente em 4 de 31 pacientes (13%) no grupo com metaplasia escamosa; ausente no grupo com trigonite erosiva

Eficácia no controle de infecções:

Primeiro ano de seguimento: 70 pacientes (96%) permaneceram livres de infecção urinária, incluindo 29 de 31 (94%) no grupo com metaplasia escamosa e 41 de 42 (98%) no grupo com trigonite erosiva.
Segundo ano de seguimento: 15 de 31 pacientes (48%) no grupo com metaplasia escamosa permaneceram livres de infecção versus 27 de 42 (64%) no grupo com trigonite erosiva.
Características das infecções recorrentes: Quando ocorreram, as infecções foram tipicamente esparsas, com sintomas leves e causadas por bactérias multissensíveis.

Avaliação de imagem:

Todas as pacientes realizaram ultrassom de controle entre 3 e 6 meses após o procedimento, sem alterações morfológicas no trato urinário superior.

Conclusão do Trabalho

A fulguração completa da mucosa trigonal e do colo vesical promoveu uma redução significativa dos episódios de ITU durante os primeiros 2 anos de acompanhamento. Estudos prospectivos controlados são necessários para determinar o papel da EF em mulheres com ITU recorrente.

Comentário Editorial

Este artigo apresenta resultados promissores de uma estratégia terapêutica alternativa para um grupo de pacientes com infecções urinárias recorrentes refratárias ao tratamento antibiótico convencional. A fulguração trigonal completa demonstrou eficácia significativa no primeiro ano de seguimento (96% de pacientes livres de infecção), com manutenção de benefício substancial até o segundo ano (53% livres de infecção). A inovação metodológica deste estudo reside na abordagem de fulguração completa do trígono e colo vesical, em contraste com estudos anteriores que realizavam fulguração seletiva apenas de lesões macroscópicas. Essa estratégia mais agressiva pode explicar as taxas de sucesso superiores comparadas a trabalhos prévios (96% versus 49% em um ano). A hipótese subjacente é que a fulguração completa elimina nichos bacterianos na mucosa trigonal que perpetuam a infecção recorrente, mesmo em áreas sem lesões macroscópicas aparentes.Do ponto de vista prático, a fulguração trigonal representa uma opção terapêutica valiosa para mulheres que não toleram, recusam ou falharam com profilaxia antibiótica contínua. O procedimento é minimamente invasivo, bem tolerado, com morbidade baixa (principalmente disúria leve) e sem complicações maiores relatadas. A ausência de alterações morfológicas no trato urinário superior sugere segurança a longo prazo. As limitações do estudo incluem: (1) ausência de grupo controle, impossibilitando comparação direta com tratamento antibiótico contínuo; (2) natureza prospectiva não-randomizada; (3) heterogeneidade na apresentação clínica e achados histopatológicos; (4) possível viés de seleção, já que pacientes que aceitaram o procedimento podem diferir sistematicamente daquelas que optaram por continuar antibióticos. Além disso, a redução na eficácia do segundo para o terceiro ano (de 96% para 53%) sugere que o benefício pode ser temporário em uma proporção significativa de pacientes, necessitando possíveis retratamentos. Um achado intrigante foi a presença de HPV em 13% das pacientes com metaplasia escamosa, com um caso de câncer urotelial de baixo grau em área metaplásica com positividade para HPV. Embora preliminar, isso levanta questões sobre a potencial associação entre metaplasia trigonal, infecção por HPV e risco de malignidade, merecendo investigação futura. Perspectivas futuras incluem: (1) estudos prospectivos randomizados comparando fulguração trigonal com profilaxia antibiótica contínua; (2) investigação do papel do HPV na indução de metaplasia trigonal e seu potencial maligno; (3) identificação de marcadores preditivos de resposta ao tratamento para seleção adequada de pacientes; (4) padronização técnica do procedimento (potência, extensão da fulguração, necessidade de retratamento); (5) avaliação de estratégias de retratamento para pacientes com recorrência tardia. A fulguração trigonal completa pode representar um avanço importante no arsenal terapêutico para infecções urinárias recorrentes refratárias, particularmente em contexto de crescente resistência antimicrobiana.

Referência

Ribeiro-Filho L, Suartz CV, Braz NDSF, et al. Long-term efficacy of complete trigonal electrofulguration for women with recurrent urinary tract infections. Neurourology and Urodynamics. 2022;1-6. doi:10.1002/nau.25066