
Podemos Prevenir ITU Recorrente Sem Antibióticos, Tanto em Pacientes Cateterizados Quanto em Não Cateterizados?
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Introdução
As infecções do trato urinário (ITUs) figuram entre as infecções bacterianas mais frequentes no mundo, com estimativa de 150 milhões de casos anuais e impacto econômico superior a 6 bilhões de dólares. Em mulheres, o risco ao longo da vida chega a 50–60%, e até 45% delas experimenta recorrência em 12 meses. A ITU recorrente (ITUr) é definida como três ou mais episódios em 12 meses, ou dois episódios em seis meses. O uso indiscriminado de antibióticos para profilaxia e tratamento contribui de forma expressiva para a resistência antimicrobiana (RAM), identificada pela Organização Mundial da Saúde como uma das dez maiores ameaças à saúde pública global — responsável diretamente por 1,27 milhão de mortes em 2019. Diante desse cenário, a identificação e o fortalecimento de estratégias não antibióticas para prevenção de ITUr tornam-se uma prioridade clínica e científica urgente. Este artigo apresenta as discussões de um grupo de especialistas reunidos durante o encontro da International Consultation on Incontinence – Research Society (ICI-RS) de 2024, realizado em Bristol, focado exatamente nessa temática.
Objetivo
Revisar e sistematizar as estratégias não antibióticas estabelecidas e emergentes para prevenção de ITU recorrente em pacientes cateterizados e não cateterizados, além de propor questões de pesquisa relevantes para nortear investigações futuras na área.
Desenho do estudo
Revisão narrativa/artigo de revisão por convite (invited review), baseado nas discussões de um grupo de trabalho multidisciplinar (think tank) conduzido durante o encontro anual do ICI-RS 2024.
Materiais e Métodos
Foi realizada uma sessão de think tank multidisciplinar durante o encontro do ICI-RS 2024, com discussão estruturada sobre tratamentos não antibióticos estabelecidos e emergentes para prevenção de ITU, tanto em pacientes não cateterizados quanto em usuários de cateter. As discussões geraram uma lista de questões de pesquisa prioritárias para o campo. O artigo revisa tanto as evidências disponíveis para cada estratégia como os desafios metodológicos inerentes ao desenho de estudos nessa área.
Desfechos
- Descrição e nível de evidência das estratégias não antibióticas estabelecidas para prevenção de ITUr em pacientes não cateterizados
- Descrição e nível de evidência das estratégias estabelecidas para prevenção de ITU associada ao cateter (IUAC)
- Descrição de novas tecnologias e abordagens em desenvolvimento
- Identificação dos principais desafios metodológicos em pesquisa de prevenção de ITU
- Proposição de questões de pesquisa prioritárias para investigações futuras
Resultados
I. Estratégias não antibióticas estabelecidas para ITUr em pacientes não cateterizados:
- Modificações no estilo de vida: Aumento da ingestão hídrica diária em 1,5 L demonstrou redução de aproximadamente 50% nas infecções recorrentes. Controle adequado do diabetes, tratamento da constipação e técnicas aprimoradas de esvaziamento vesical (dupla micção, micção cronometrada) também contribuem para a redução do risco.
- D-manose: Anteriormente demonstrada com eficácia similar à nitrofurantoína profilática; porém, estudo randomizado recente (JAMA Internal Medicine, 2024) mostrou taxas de ITU semelhantes entre D-manose e placebo com frutose — levantando dúvidas sobre a real eficácia do composto e possível efeito confundidor do placebo utilizado.
- Produtos à base de cranberry: Contêm proantocianidinas que inibem a adesão de E. coli ao urotélio. Formulações de alta concentração mostraram modesta redução na incidência de ITU, mas a heterogeneidade entre estudos limita conclusões definitivas.
- Metenamina hipurato: Antisséptico urinário que libera formaldeído em meio ácido, reduzindo a carga bacteriana. Estudo clínico britânico de alta qualidade (BMJ, 2022) demonstrou eficácia não inferior à profilaxia antibiótica, sendo atualmente recomendado pelas diretrizes da Associação Europeia de Urologia (EAU).
- Estrogênio tópico vaginal: Eficaz na redução de ITUr especialmente em mulheres pós-menopáusicas, por restaurar a barreira mucosa vaginal e estimular a proliferação de Lactobacillus, reduzindo a adesão de uropatógenos. Revisão sistemática recente confirmou sua eficácia.
- Tratamentos intravesicais: Ácido hialurônico (AH) e condroitina visam repor a camada de glicosaminoglicanos da bexiga; estudos são pequenos e com risco considerável de viés. Instilação intravesical de gentamicina também foi investigada, com evidências de qualidade geral baixa.
- Vacinas:
- UroVaxom (oral, derivado de 18 cepas de E. coli uropatogênica): eficácia livre de ITU de 67% em 6 meses.
- Uromune/MV140 (sublingual, com bactérias inativadas de E. coli, Klebsiella, Proteus mirabilis e Enterococcus faecalis): eficácia de 56–58% em 12 meses em estudo randomizado com placebo ativo.
- Eletrofulguração: Procedimento com evidência emergente em mulheres com ITUr não complicada refratária às medidas de primeira linha. O mecanismo proposto envolve redução da Uroplacina IIIa, proteína transmembrana que facilita a adesão e invasão bacteriana. Necessita de estudos mais robustos antes de ser incorporado às diretrizes.
II. Estratégias não antibióticas estabelecidas para IUAC:
- A principal medida é a retirada precoce do cateter quando não mais necessário.
- Cateterismo intermitente (CI) é preferível ao cateter de demora transuretral ou suprapúbico, conforme recomendado pelas diretrizes de neurourologia da EAU. Cateteres de uso único prontos para uso reduzem ITU em comparação a cateteres reutilizáveis.
- Cateteres hidrofílicos melhoram o conforto e reduzem a frequência de IUAC. Uma alternativa em investigação é o cateter com surfactante anfifílico integrado (IAS catheter), sem revestimento, que mostrou redução de fricção e microtrauma uretral em ambiente laboratorial.
- O novo cateter com zona de microfuros (Micro-Hole Zone Catheter) permite esvaziamento vesical completo em fluxo livre, sem necessidade de reposicionamento, podendo minimizar o risco de IUAC.
- Cateteres impregnados com nitrofurazona demonstraram redução de ITU sintomática; cateteres revestidos de prata não mostraram benefício protetor contra bacteriúria. Cateteres de silicone são preferíveis em pacientes com alergia ao látex e apresentam menor incrustação.
- O uso de clorexidina antes do cateterismo tem evidência emergente na redução de IUAC.
- Intervenções educacionais e protocolos de cuidado multiprofissionais (care bundles) — incluindo revisão diária do cateter, checklists e simulações — demonstraram redução no uso desnecessário de cateter e nas taxas de ITU.
III. Novas tecnologias e abordagens em desenvolvimento:
- Mannosídeos sintéticos: O heptil-α-D-manosídeo inibiu a adesão de E. coli a células vesicais em concentração 100 vezes menor que a D-manose. O composto MM4284 reduziu a colonização intestinal por E. coli uropatogênica sem impactar a microbiota intestinal residente, com ensaios clínicos em andamento.
- Bacteriófagos: Vírus que infectam bactérias, com potencial para profilaxia e tratamento de ITU. Um caso clínico relevante foi relatado: paciente transplantada de fígado e rim desenvolveu episódios recorrentes de pielonefrite do enxerto, cistite, bacteremia e sepse por Klebsiella pneumoniae, evoluindo para doença renal crônica. Após terapia intravenosa com coquetel de fagos direcionados à cepa isolada, a paciente não apresentou nenhuma ITU nos seis meses seguintes (comparado a quatro episódios nos seis meses anteriores ao tratamento). Ensaio clínico em homens mostrou não inferioridade da fago-terapia em relação a antibióticos, mas também ausência de superioridade frente ao placebo, com perfil de segurança favorável.
- Transplante de microbiota fecal (TMF): Administração de microbiota fecal de doador para o receptor. Além de sua aplicação consolidada no tratamento de Clostridioides difficile recorrente, um caso de destaque foi descrito: mulher de 83 anos com 25 anos de histórico de ITU — cinco episódios nos quatro meses anteriores ao tratamento, com perfil de resistência que frequentemente demandava antibioticoterapia endovenosa. Após TMF indicado por C. difficile refratária, houve resolução completa das ITUs, sem recorrências em 25 meses de seguimento e sem necessidade de antibióticos. Estudo retrospectivo adicional confirmou redução na frequência de ITU e melhora do perfil de sensibilidade antimicrobiana após TMF.
- Novos designs de cateter: Estratégias de engenharia para reduzir formação de biofilme incluem designs que aumentam o estresse de cisalhamento da parede (inibindo adesão bacteriana), geometria com obstáculos triangulares internos para impedir a "natação retrógrada" de bactérias (otimizada por inteligência artificial), nanopartículas para entrega de metais pesados, peptídeos antimicrobianos e interferência bacteriana por comensais competitivos.
Conclusão do Trabalho
Existe um espectro amplo de estratégias preventivas não antibióticas para ITU, tanto em pacientes cateterizados quanto em não cateterizados, com níveis variados de evidência. A metenamina hipurato e o estrogênio tópico vaginal representam as opções com melhor suporte científico atualmente. Tecnologias emergentes — como mannosídeos sintéticos, bacteriófagos, TMF e novos designs de cateter — apresentam perspectivas promissoras, mas necessitam de ensaios clínicos robustos para definição de seu papel nas vias clínicas. Diante da crescente ameaça global da resistência antimicrobiana, a continuidade e o fortalecimento das pesquisas nessa área são essenciais.
Comentário Editorial
Este artigo, produzido a partir das discussões do grupo de trabalho do ICI-RS 2024, oferece uma visão abrangente e clinicamente relevante das alternativas não antibióticas para prevenção de ITU recorrente — tema de crescente importância no contexto da crise global de resistência antimicrobiana.
Do ponto de vista prático, algumas estratégias já deveriam estar incorporadas à rotina clínica do urologista e do uroneurologista: a orientação sobre hidratação adequada continua sendo a medida mais simples, segura e com bom nível de evidência; a metenamina hipurato, embora pouco difundida no Brasil, já consta das diretrizes da EAU como alternativa não inferior à profilaxia antibiótica e merece maior atenção clínica. Um problema dessa abordagem no Brasil, talvez, seja a dose, pois no estudo utilizado para essa referência, foram administrados 500mg 2x ao dia, enquanto os comprimidos habitualmente comercializados no Brasil têm 120mg.
O estrogênio vaginal tópico permanece subutilizado em mulheres pós-menopáusicas, a despeito de revisões sistemáticas que confirmam sua eficácia.
As vacinas imunoestimuladoras (UroVaxom e Uromune) representam uma fronteira terapêutica com dados encorajadores, especialmente a Uromune, já disponível em alguns países europeus e com estudo randomizado publicado.
Para a população de pacientes neurourológicos — frequentemente os mais vulneráveis a ITU recorrente e a microrganismos multirresistentes —, as discussões sobre cateter de uso único, cateteres hidrofílicos, CI asséptico e novos designs de cateter são particularmente relevantes. A incorporação de protocolos multiprofissionais de cuidado (care bundles) é uma estratégia de baixo custo com impacto demonstrado.
No horizonte das novas tecnologias, o transplante de microbiota fecal chama atenção pelo mecanismo inovador — atuando sobre o reservatório intestinal de uropatógenos — e pelos resultados preliminares surpreendentes, especialmente em pacientes com ITU recorrente e histórico de C. difficile. A fago-terapia também apresenta perspectivas interessantes, sobretudo em casos de resistência múltipla, embora os dados ainda sejam insuficientes para recomendação ampla.Como limitações, o artigo reflete discussões de especialistas e não constitui uma revisão sistemática formal, o que limita a força das recomendações. Além disso, os autores reconhecem os significativos desafios metodológicos que dificultam a condução de estudos nessa área — especialmente a definição inconsistente de ITU entre populações, a natureza esporádica dos eventos, e as dificuldades de financiamento. Esses fatores explicam, em parte, a escassez de ensaios clínicos randomizados de alta qualidade em muitas das estratégias discutidas.
Em síntese, este trabalho reforça que a prevenção não antibiótica de ITU é uma área em expansão com opções terapêuticas reais e disponíveis. A adoção progressiva dessas estratégias na prática clínica é não apenas possível, mas necessária para preservar a eficácia dos antibióticos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes mais vulneráveis.
Referência
Harding C, Clavica F, Averbeck MA, Da Silva A, Drake MJ, Gajewski JB, Khullar V, Pozniak M, Rantell AM, Tarcan T, Werneburg GT, Giarenis I. Can We Prevent Recurrent UTIs Without Antibiotics, in Both Those Who Do and Do Not Use Catheters? ICI-RS 2024. Neurourology and Urodynamics. 2024. https://doi.org/10.1002/nau.25641

