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Pressões de Perda Abdominal Durante Tosse e Manobra de Valsalva: O que as Diferentes Manobras Ocultam?

Autores do Artigo: 

Carolina Veiga e Moura, Ana Lopes, Bercina Candoso

Journal

Cureus

Data da publicação

Fevereiro 2026

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

A incontinência urinária de esforço (IUE) representa um problema significativo em mulheres, afetando a qualidade de vida e gerando impacto social considerável. O estudo em questão investiga um aspecto fundamental da avaliação urológica: as pressões de perda abdominal (leak point pressure) obtidas durante manobras de Valsalva e tosse. A hipótese central é que diferentes manobras podem revelar mecanismos fisiopatológicos distintos da insuficiência esfincteriana. Este trabalho examina se esses dois tipos de manobra produzem resultados equivalentes ou se representam diferentes aspectos da continência uretral em mulheres com IUE.

Objetivo

Comparar as pressões de perda abdominal obtidas durante manobras de Valsalva e tosse em mulheres com incontinência urinária de esforço, avaliando se diferentes padrões de vazamento revelam mecanismos fisiopatológicos distintos.

Desenho do estudo

Estudo retrospectivo, observacional, realizado em mulheres com incontinência urinária de esforço (pura ou mista) que foram submetidas a teste urodinâmico com avaliação de pressões de perda abdominal durante o ano de 2024.

Número de pacientes

N = 87 mulheres

Materiais e Métodos

O estudo avaliou mulheres com IUE que realizaram estudo uriodinâmico completo. As pressões de perda abdominal foram obtidas através de cateterismo vesical (150-200 mL de preenchimento vesical), com medição simultânea de pressão vesical e pressão abdominal. Foram realizadas manobras de Valsalva (solicitando às pacientes que "fizessem força como se estivessem defecando ou dando à luz") e manobras de tosse (aumento súbito de pressão abdominal). As pacientes foram classificadas em três grupos conforme o padrão de vazamento: Grupo 1 (vazamento tanto em Valsalva quanto em tosse, n=57), Grupo 2 (vazamento apenas em tosse, n=20) e Grupo 3 (vazamento apenas em Valsalva, n=10). A análise estatística foi realizada utilizando IBM SPSS Statistics versão 28.0, com análise de regressão linear múltipla para identificar variáveis significativas.

Desfechos

Pressões de vazamento abdominal durante manobras de Valsalva e tosse, comparação entre grupos e análise de variáveis associadas.

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Inclusão: mulheres com diagnóstico de incontinência urinária de esforço pura ou mista submetidas a estudo uriodinâmico com avaliação de pressões de vazamento abdominal. Exclusão: pacientes sem avaliação completa de ambas as manobras (Valsalva e tosse).

Resultados

A pressão média de vazamento abdominal foi significativamente mais elevada no Grupo 2 (apenas tosse), sugerindo que a falha esfincteriana é menos associada ao vazamento por tosse. O Grupo 3 (apenas Valsalva) apresentou pacientes significativamente mais jovens e em pré-menopausa comparado aos demais grupos. Em análise de subgrupos do Grupo 1, em uma minoria de pacientes, a pressão de vazamento em Valsalva foi superior à pressão de vazamento em tosse, e esses pacientes apresentavam índice de massa corporal (IMC) significativamente mais elevado. No Grupo 2, em 25% dos casos a pressão gerada por Valsalva foi superior à pressão de tosse, também com IMC significativamente maior neste subgrupo. O IMC mostrou-se uma variável significativa nas análises de subgrupos, particularmente quando a pressão de Valsalva foi superior à pressão de tosse.

Conclusão do Trabalho

Os resultados sugerem que as manobras de Valsalva e tosse não são equivalentes na avaliação das pressões de vazamento abdominal, potencialmente indicando diferentes mecanismos de insuficiência esfincteriana. A manobra de tosse, gerando aumento súbito de pressão abdominal, desencadeia contração reflexa da musculatura do assoalho pélvico (levantador do ânus), enquanto a manobra de Valsalva requer relaxamento dessa musculatura. Ambas as manobras devem ser realizadas rotineiramente durante a avaliação uriodinâmica de mulheres com incontinência urinária de esforço, pois fornecem informações complementares sobre a continência uretral.

Comentário Editorial

Este trabalho contribui significativamente para a compreensão da fisiopatologia da incontinência urinária de esforço, destacando que diferentes estímulos podem revelar diferentes mecanismos de falha continente.

A observação de que o IMC é uma variável importante, particularmente em subgrupos onde a pressão de Valsalva supera a de tosse, abre perspectivas interessantes para investigações futuras sobre o papel do tecido adiposo e da biomecânica pélvica na continência uretral.

Do ponto de vista prático, o estudo reforça a importância de realizar ambas as manobras durante a avaliação uriodinâmica, não apenas uma delas. Isso é particularmente relevante considerando que a manobra de tosse é mais fisiológica e representa melhor as situações cotidianas de perda (riso, espirro, exercício), enquanto a manobra de Valsalva pode revelar aspectos adicionais da função esfincteriana. A inclusão de pacientes com incontinência mista e a avaliação sem cateter vesical (técnica menos invasiva) representam pontos fortes do estudo.

As limitações incluem o tamanho amostral relativamente pequeno, ausência de análise de poder estatístico prévio, falta de ajuste para comparações múltiplas, e ausência de videourodinâmica ou eletromiografia, que poderiam fornecer informações complementares sobre a atividade muscular do assoalho pélvico. Apesar dessas limitações, os achados sugerem que futuras investigações devem considerar a heterogeneidade dos mecanismos de incontinência e adaptar as estratégias diagnósticas e terapêuticas conforme o padrão específico de vazamento identificado em cada paciente.

Referência

Veiga e Moura C, Lopes A, Candoso B. Abdominal Leak Point Pressures During Cough and Valsalva: What Do the Different Maneuvers Hide? Cureus. 2026 Feb 24;18(2):e104168. DOI: 10.7759/cureus.104168