Carregando...
Resumos Comentados > Resultados a longo prazo do procedimento TVT retropúbico para mulheres com incontinência urinária de esforço: seguimento de 20 a 25 anos

Resultados a longo prazo do procedimento TVT retropúbico para mulheres com incontinência urinária de esforço: seguimento de 20 a 25 anos

Autores do Artigo: 

Vojka Lebar, Adolf Lukanović, Miha Matjašič, Matija Barbič, David Lukanović

Journal

European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology

Data da publicação

Junho 2025

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

A incontinência urinária de esforço (IUE) impacta de forma significativa a qualidade de vida das mulheres. O procedimento de fita vaginal sem tensão (TVT), introduzido em 1994, consolidou-se como técnica cirúrgica minimamente invasiva, com eficácia bem estabelecida a curto e médio prazo. Entretanto, dados com seguimento superior a 15 anos permanecem limitados, especialmente no que se refere à durabilidade da continência e à ocorrência de complicações tardias, como erosão da fita e recorrência dos sintomas.

Objetivo

Avaliar os resultados de 20 a 25 anos do procedimento TVT retropúbico, considerando durabilidade da continência, incidência de complicações tardias e satisfação das pacientes.

Desenho do estudo

Estudo de coorte retrospectivo.

Número de pacientes

135 mulheres completaram o seguimento de longo prazo, a partir de uma coorte inicial de 593 pacientes submetidas ao procedimento.

Período de inclusão

  • Cirurgias: 1998 a 2003
     

  • Seguimento: entrevistas telefônicas entre janeiro e março de 2024

Materiais e Métodos

Todas as cirurgias foram realizadas por dois cirurgiões experientes, utilizando a Gynecare TVT™ Sling.
Os dados foram obtidos por meio de prontuários médicos e entrevistas estruturadas, com aplicação dos seguintes questionários validados:

  • Patient Global Impression of Improvement (PGI-I)
     

  • International Consultation on Incontinence Questionnaire – Urinary Incontinence Short Form (ICIQ-UI SF)
     

  • Urinary Distress Inventory – Short Form (UDI-6)

Desfechos

  • Percepção global de melhora, avaliada pelo PGI-I
     

    • O sucesso relatado pela paciente foi definido como resposta “muito melhor” ou “bem melhor”
       

    • Todas as demais respostas (“um pouco melhor”, “igual”, “um pouco pior”, “muito pior” e “muito, muito pior”) foram consideradas falha do tratamento
       

    • Para análise, o PGI-I foi dicotomizado em duas categorias:
       

      • “Melhorou”
         

      • “Falha”
         

  • Gravidade dos sintomas urinários, avaliada pelos questionários ICIQ-UI SF e UDI-6
     

  • Ocorrência de complicações tardias
     

  • Necessidade de reintervenções cirúrgicas

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Inclusão

  • Diagnóstico de IUE confirmado clínica ou urodinamicamente
     

  • Perda urinária > 1 g/hora no teste do absorvente, confirmada por perfil de pressão uretral
     

Exclusão

  • Pacientes com idade > 90 anos no momento do seguimento (redução de viés de resposta)

Resultados

Eficácia e Satisfação

  • 76,3% das pacientes foram classificadas como “melhorou”, com base na dicotomização do PGI-I.
     

  • A mediana do PGI-I foi 2,0, indicando percepção sustentada de melhora clínica após duas décadas.
     

Sintomatologia Urinária no Longo Prazo

  • A mediana do ICIQ-UI SF foi 7,0, compatível com carga sintomática moderada.
     

  • A mediana do UDI-6 foi 22,2, sugerindo impacto urinário leve a moderado.
     

  • Sintomas de urgência clinicamente relevantes (UDI-6 > 33,3) foram observados em 20% das pacientes, achado possivelmente relacionado ao envelhecimento, e não necessariamente à falha do sling.
     

Complicações Tardias

  • 85,9% das pacientes não apresentaram complicações no seguimento de longo prazo.
     

  • Retenção urinária ocorreu em 13,3% dos casos.
     

  • Erosão da fita foi evento raro, observada em apenas 0,7% (1 caso) após 20–25 anos.
     

Reintervenções

  • A necessidade de repetição do TVT ocorreu em 9,6% das pacientes.
     

  • A repetição do procedimento esteve associada a menor satisfação, com diferença estatisticamente significativa (p = 0,002).
     

  • Intervenções adicionais, como injeção de agente de preenchimento, foram raras (1,5%) e não impactaram significativamente a satisfação global.
     

Correlação entre Satisfação e Sintomas

  • Observou-se forte correlação entre a percepção de melhora (PGI-I) e a redução do sofrimento urinário, demonstrada por:
     

    • ICIQ-UI SF: r = 0,801
       

    • UDI-6: r = 0,676
       

Esses achados indicam que a avaliação subjetiva de melhora acompanha de forma consistente a carga sintomática urinária no longo prazo.

Conclusão do Trabalho

O TVT retropúbico apresenta eficácia sustentada, alta satisfação das pacientes e baixas taxas de complicações após duas décadas de seguimento. Os resultados reforçam a durabilidade do procedimento no tratamento cirúrgico da incontinência urinária de esforço, destacando a importância do acompanhamento a longo prazo, especialmente para monitorar o surgimento de sintomas urinários associados ao envelhecimento.

Comentário Editorial

Este estudo representa um dos mais longos seguimentos já publicados sobre o TVT retropúbico e fornece evidências robustas de sua durabilidade. Apesar das restrições ao uso de telas sintéticas em alguns países, a taxa extremamente baixa de erosão (0,7%) após 20–25 anos sugere que técnica cirúrgica adequada, material utilizado e seleção criteriosa das pacientes são determinantes para bons resultados no longo prazo.

Um ponto de atenção clínica é o surgimento de sintomas de urgência em cerca de 20% das pacientes, achado que parece refletir alterações relacionadas ao envelhecimento, e não falha do sling. Esses dados reforçam a necessidade de alinhamento de expectativas, seguimento longitudinal e abordagem individualizada dos sintomas do trato urinário inferior ao longo do tempo.

Referência

Lebar V, Lukanović A, Matjašič M, Barbič M, Lukanović D. Long-term outcome of the retropubic TVT procedure for women with stress urinary incontinence: 20–25-year follow-up. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2025;312:114110.
doi: 10.1016/j.ejogrb.2025.114110