
Sacituzumabe govitecan neoadjuvante mais pembrolizumabe, seguido de pembrolizumabe adjuvante, em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo: um estudo de braço único, fase 2
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Introdução
Em abril de 2026, foi publicado na The Lancet Oncology o estudo SURE-02, com o título, em tradução livre, “Sacituzumabe govitecan neoadjuvante mais pembrolizumabe, seguido de pembrolizumabe adjuvante, em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo: um estudo de braço único, fase 2”. O estudo avaliou o uso da combinação de sacituzumabe govitecan e pembrolizumabe no cenário neoadjuvante, seguido de cistectomia radical ou re-ressecção transuretral do tumor da bexiga (re-RTU) e pembrolizumabe adjuvante, em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo que eram inelegíveis para quimioterapia baseada em cisplatina ou que recusaram o tratamento. A hipótese era que o uso perioperatório de um conjugado anticorpo-droga associado à imunoterapia poderia induzir respostas clínicas completas e permitir uma estratégia de preservação vesical em pacientes selecionados. O estudo mostrou uma taxa de resposta clínica completa de 39%, com perfil de segurança adequado. Confira a seguir mais detalhes do estudo:
Objetivo
Avaliar a eficácia clínica da combinação neoadjuvante de sacituzumabe govitecan e pembrolizumabe, seguida de pembrolizumabe adjuvante, em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo; Analisar a viabilidade de uma estratégia de preservação de órgão baseada na resposta clínica ao tratamento sistêmico inicial;
Avaliar a segurança e a tolerabilidade do esquema perioperatório nesta população; Explorar biomarcadores moleculares e genômicos associados à resposta ao tratamento.
Desenho do estudo
Foi um estudo clínico de fase 2, de braço único, aberto e realizado em centro único (IRCCS San Raffaele Hospital em Milão, Itália). Selecionou pacientes com diagnóstico histológico de câncer de bexiga músculo invasivo (cT2-cT3bN0M0) com proposta de cistectomia, inelegíveis ou com recusa de quimioterapia baseada em cisplatina. Casos com variantes histológicas eram permitidos desde que o componente de carcinoma urotelial fosse predominante. A intervenção consistiu em uma fase neoadjuvante com quatro ciclos da combinação sacituzumabe-govitecan + pembrolizumabe, seguida de avaliação de resposta para decisão cirúrgica (cistectomia radical ou re-RTU para preservação vesical em casos de recusa da cistectomia após discussão multidisciplinar) e uma fase adjuvante/manutenção com pembrolizumabe.
Número de pacientes
49 pacientes foram incluídos e avaliados para eficácia e segurança (de um total de 63 pacientes rastreados).
Período de inclusão
Entre 2 de outubro de 2023 e 26 de fevereiro de 2025.
Materiais e Métodos
A intervenção do estudo consistia em uma fase neoadjuvante com 4 ciclos de pembrolizumabe (200 mg, via intravenosa no D1) e sacituzumabe govitecan (7,5 mg/kg, via intravenosa, no D1 e D8), a cada 3 semanas. Todos os pacientes receberam fator de estimulação de colônias de granulócitos peguilado (pegGCSF) no D9 de cada ciclo para profilaxia primária de neutropenia. A avaliação de resposta foi realizada com RM de bexiga analisada por radiologistas especializados e cistoscopia foi realizada de forma sistemática para avaliação de resposta Sobre a abordagem cirúrgica, a cistectomia radical foi planejada para 4 a 6 semanas após a neoadjuvância. Após emenda do estudo, foi definido que pacientes que recusassem a cistectomia realizariam re-RTU após avaliação por comitê multidisciplinar.
Na fase adjuvante, foram realizados 13 ciclos de pembrolizumabe (200 mg, via intravenosa, a cada 3 semanas), independentemente da resposta patológica.
Também houve acompanhamento com exames de imagem periódicos, a menos que houvesse progressão de doença metastática. Foi avaliada segurança através de frequência e grau de eventos adversos pelo CTCAE versão 5 e análise de biomarcadores tumorais através do Foundation Medicine e Decipher Bladder Genomic Subtyping Classifier. Sobre a análise estatística, utilizou-se o desenho de dois estágios de Simon (MinMax) para estimar o número de pacientes necessário. A hipótese nula considerou a combinação inativa se a taxa de resposta clínica completa fosse ≤ 30%, enquanto uma taxa ≥ 45% apoiaria investigações posteriores. O tamanho total da amostra foi de 48 pacientes, com a primeira etapa composta por 23 pacientes, com poder de 80% e teste unilateral de significância ao nível de 10%. A eficácia foi analisada na população por intenção de tratar (ITT). Foram realizadas análises de regressão logística para analisar as associações entre fatores clínicos e resposta clínica completa, bem como entre assinaturas ou subtipos moleculares e resposta clínica completa. Foram aplicadas curvas de Kaplan-Meier para estimativas de sobrevida.
Desfechos
Desfecho primário: taxa de resposta clínica completa - exames de imagem negativos e ausência de doença residual viável na re-RTU de bexiga (ypT0Nx)
Desfechos secundários:
- Resposta patológica completa
- Sobrevida livre de eventos
- Sobrevida livre de eventos com preservação de bexiga
- Segurança
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Critérios de inclusão:
- Idade igual ou superior a 18 anos.
- Estado de desempenho ECOG 0 ou 1.
- Diagnóstico histológico de câncer de bexiga músculo-invasivo (estágio clínico T2–T3bN0M0).
- Inelegibilidade para quimioterapia com cisplatina ou recusa documentada do tratamento.
- Programação prévia para cistectomia radical.
Critérios de exclusão:
- Presença de variantes histológicas sem componente predominante (≥ 50%) de carcinoma urotelial.
- Evidência de metástases à distância ou linfonodos comprometidos (N+).
Resultados
A idade mediana foi de 66 anos (IIQ 61–71); 41 pacientes (84%) eram homens. Quanto à etnia, 48 pacientes (98%) eram brancos e 1 (2%) negro.
Histologia variante mista esteve presente em 21 pacientes (43%), e 33 (67%) recusaram quimioterapia baseada em cisplatina. Em relação ao estadiamento, 33 pacientes (67%) apresentavam cT2N0M0 e quatro (8%), cT4aN0M0. 4 pacientes (8%) apresentaram progressão da doença e iniciaram terapia sistêmica de segunda linha com quimioterapia à base de platina. 29 (59%) foram submetidos a nova RTU de bexiga, e 16 realizaram cistectomia radical. A recusa da cistectomia radical ocorreu principalmente com base na avaliação por imagem. Com o seguimento mediano de 14 meses, 19 dos 49 pacientes atingiram resposta clínica completa (39%; intervalo de confiança de 95%: 25–54%).
Atingiram resposta patológica completa, 25 pacientes (51%). Após seguimento mediano de 14 meses, seis pacientes desenvolveram metástases à distância. Entre os pacientes com resposta clínica completa, ocorreram duas recidivas intravesicais (ypT1 e ypT2). Quatro pacientes do grupo re-RTU realizaram cistectomia radical tardia, com achados variando entre ausência de tumor residual, ypT1N0, ypT2N0 e ypT3N1. Nenhum paciente da coorte re-RTU apresentou metástases.
Na população ITT, a sobrevida livre de eventos em 12 meses foi de 71%, chegando a 91% nos pacientes com resposta clínica completa. A sobrevida livre de metástases em 12 meses foi de 74%. A sobrevida livre de eventos com preservação vesical em 12 meses foi de 38% na população ITT, 91% nos pacientes com resposta clínica completa e 6% nos demais.
O evento grau 3 mais frequente foi diarreia (8%). Não foram registrados eventos de grau 4 ou 5, nem mortes relacionadas ao tratamento. Outros eventos comuns foram anemia (43%), alopecia (61%) e astenia (47%). Um paciente descontinuou o tratamento por evento adverso.
Análises post hoc de biomarcadores não identificaram diferenças genômicas significativas entre os grupos, embora alterações em ERBB2 (42 vs 14%) e maior TMB (12,1 vs 7,9 mut/Mb) tenham sido mais frequentes em pacientes com resposta clínica completa.
Na análise transcriptômica, assinaturas de reparo de mismatch, PD-1 e HER2 associaram-se a maior chance de resposta, enquanto assinaturas estromais e de exclusão imune associaram-se a menor resposta. TROP2 não mostrou associação. A resposta clínica completa foi mais frequente no subtipo luminal (57% vs 33%), enquanto as assinaturas relacionadas a pior resposta foram mais comuns no subtipo Claudin-low.
Conclusão do Trabalho
Os autores concluem que a estratégia perioperatória com sacituzumabe govitecan e pembrolizumabe demonstrou atividade clínica, permitindo a preservação vesical em aproximadamente 40% dos pacientes avaliados, com perfil de segurança considerado manejável. As limitações descritas incluem o tamanho reduzido da amostra, a natureza de braço único do estudo, o tempo de seguimento mediano curto para desfechos de sobrevida a longo prazo e o uso de desfechos substitutos para a resposta patológica.
Comentário Editorial
Os avanços recentes no carcinoma urotelial de bexiga músculo invasivo têm modificado o manejo da doença. O estudo NIAGARA demonstrou ganho em sobrevida livre de eventos e sobrevida global com durvalumabe associado à quimioterapia neoadjuvante baseada em cisplatina, embora sem diferença na taxa de resposta patológica completa em relação à quimioterapia isolada, utilizando critério renal estendido com clearance de creatinina acima de 40 mL/min. Já o KEYNOTE-905/EV-303 avaliou enfortumabe vedotina associado a pembrolizumabe perioperatório em pacientes inelegíveis à cisplatina, demonstrando benefício em sobrevida livre de eventos, sobrevida global e resposta patológica completa de 57,1%.
Nesse contexto, o SURE-02, estudo de fase 2, de braço único, conduzido em centro italiano, avaliou sacituzumabe govitecana associado a pembrolizumabe neoadjuvante, seguido de pembrolizumabe adjuvante, em estratégia de preservação vesical guiada por resposta. A taxa de resposta clínica completa foi de 39%, a resposta patológica completa foi de 51% e o perfil de segurança foi manejável, sem eventos de grau 4 ou 5. Apesar do mérito de explorar prospectivamente a combinação de ADC e imunoterapia nesse cenário, os resultados devem ser interpretados com cautela pelo desenho sem comparador, centro único, baixo número de pacientes, seguimento mediano de 14 meses, análises de sobrevida post hoc e possível viés de seleção, já que a decisão de preservação vesical foi influenciada pela resposta clínica. Estudos de fase 3 comparativos ainda são necessários antes da incorporação dessa estratégia à prática clínica.
Referência
Andrea Necchi, et al. Neoadjuvant sacituzumab govitecan plus pembrolizumab, followed by adjuvant pembrolizumab, in patients with muscle-invasive bladder cancer (SURE-02): a single-arm, phase 2 study. The Lancet Oncology. 2026;27(4):442-451.

