
Parar ou não parar. Enucleação endoscópica da próstata em pacientes em uso de anticoagulantes: resultados de um estudo multicêntrico prospectivo de vida real com 932 casos.
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Introdução
O artigo "Parar ou não parar. Enucleação endoscópica da próstata em pacientes em uso de anticoagulantes: resultados de um estudo multicêntrico prospectivo de vida real com 932 casos". foi publicado no World Journal of Urology em Novembro de 2025. Este estudo aborda a segurança da enucleação endoscópica da próstata (EEP) em pacientes com hiperplasia prostática benigna (HPB) que utilizam anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários, comparando os desfechos entre aqueles que mantiveram a terapia e os que a descontinuaram.
Objetivo
O objetivo principal do estudo foi avaliar a segurança da EEP em pacientes com HPB que mantiveram a terapia com anticoagulantes/antiagregantes plaquetários em comparação com aqueles que descontinuaram. Os objetivos secundários incluíram identificar preditores independentes de complicações hemorrágicas pós-operatórias e avaliar o impacto de diferentes regimes de anticoagulação nos desfechos perioperatórios.
Desenho do estudo
Trata-se de um estudo prospectivo, multicêntrico e de "vida real".
Número de pacientes
Foram incluídos 932 pacientes no total. Destes, 329 pacientes (Grupo 1) mantiveram a terapia com anticoagulantes/antiagregantes, e 603 pacientes (Grupo 2) descontinuaram a terapia antes da EEP.
Período de inclusão
Os pacientes foram recrutados prospectivamente de 30 centros entre dezembro de 2024 e junho de 2025.
Materiais e Métodos
Pacientes com HPB e indicação cirúrgica para EEP, que estavam em uso de qualquer tipo de "afinador de sangue" (antiagregantes, anticoagulantes ou combinação), foram incluídos. A decisão de manter ou descontinuar a terapia foi baseada em consulta multidisciplinar e nas melhores práticas clínicas de cada centro, não havendo um protocolo padronizado para a interrupção. A transição para heparina de baixo peso molecular foi permitida. A EEP foi realizada utilizando diversas fontes de energia e técnicas, conforme a preferência e recursos de cada centro. A retomada dos anticoagulantes/antiagregantes foi individualizada, considerando o risco de sangramento e a resolução da hematúria pós-operatória. A administração intra operatória de 1g de ácido tranexâmico (TXA) intravenoso foi realizada conforme a preferência do cirurgião. A análise estatística utilizou mediana e intervalo interquartil (IQR) para dados contínuos e números absolutos e porcentagens para dados categóricos. Testes de χ² e Mann-Whitney U foram empregados para comparações entre grupos, e regressão logística multivariada para identificar preditores de sangramento.
Desfechos
Os desfechos primários de segurança incluíram complicações hemorrágicas, definidas como necessidade de transfusão sanguínea, reinício de irrigação vesical contínua, retenção de coágulos e cirurgia para controle de sangramento pós-operatório. Outros desfechos avaliados foram tempo de internação hospitalar, resultados funcionais (IPSS, Qmax, PVR), tempos operatórios (total, enucleação, morcelamento, hemostasia), uso de rollerball para controle de sangramento, necessidade de cateterização pós-operatória, reinternações hospitalares (em 30 dias), gravidade das complicações precoces (Clavien-Dindo), incontinência urinária, alteração da hemoglobina em 24 horas, peso do espécime e taxas de detecção de câncer. O seguimento dos pacientes foi de 3 meses.
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
- Inclusão: Pacientes com HPB e indicação cirúrgica para EEP, em uso de qualquer "afinador de sangue" (antiagregantes, anticoagulantes ou combinação), com sintomas do trato urinário inferior (LUTS) refratários à terapia médica ou indicações cirúrgicas absolutas (retenção urinária aguda, infecções do trato urinário recorrentes, hidronefrose bilateral, hematúria recorrente secundária à HPB).
- Exclusão: Pacientes que não estavam em uso de "afinadores de sangue" no momento da inclusão, câncer de próstata, intervenções cirúrgicas concomitantes no trato urinário inferior, irradiação pélvica prévia e ausência de procedimento EEP. Procedimentos cirúrgicos prostáticos prévios não foram contraindicação.
Resultados
A população geral apresentou idade mediana de 70,0 anos e volume prostático mediano de 81,0 ml. O Grupo 1 (que manteve a terapia) teve maiores taxas de comorbidades (diabetes, hipertensão, doença cardíaca isquêmica) e piores parâmetros pré-operatórios (menor Qmax, maior PVR, maior taxa de cateterização pré-operatória).
O Grupo 1 demonstrou tempos operatórios medianos significativamente mais longos (87,0 vs. 70,0 min, p < 0,001), incluindo tempos de enucleação e hemostasia. As complicações relacionadas a sangramento foram significativamente maiores no Grupo 1: reinício de irrigação vesical (14,3% vs. 2,5%, p < 0,001), necessidade de transfusão sanguínea (1,5% vs. 0,5%, p < 0,001) e reinternações hospitalares (10,0% vs. 4,1%, p < 0,001). As taxas de intervenção cirúrgica para hemostasia foram semelhantes entre os grupos (1,8% vs. 2,0%, p = 0,92). Não ocorreram eventos trombóticos maiores.
Os pacientes do Grupo 2 tiveram melhores parâmetros de recuperação precoce, com taxas maiores de retirada precoce de sonda vesical em 24h (43,9% vs. 22,5%, p < 0,001) e menor permanência hospitalar (3.0 vs. 2.0 dias, p < 0,001).
Os preditores independentes de sangramento incluíram tempo operatório mais longo (OR 1,01, p < 0,001) e terapia combinada de antiagregantes/anticoagulantes (OR 2,47, p = 0,04). O ácido tranexâmico intraoperatório foi associado a menores chances de sangramento (OR 0,18, p < 0,001). O Grupo 2 (que descontinuou a terapia) teve estadias hospitalares mais curtas (mediana de 2,0 vs. 3,0 dias, p < 0,001). Curiosamente, a queda mediana de hemoglobina em 24 horas foi paradoxalmente menor no Grupo 1 (0,6 vs. 0,9 g/dL, p < 0,001). Os resultados funcionais de longo prazo (IPSS e taxas de incontinência pós-operatória) foram semelhantes entre os grupos.
Conclusão do Trabalho
Os autores concluíram que a EEP pode ser realizada com segurança em pacientes que mantêm a terapia com "afinadores de sangue", com morbidade aceitável, embora as complicações hemorrágicas sejam mais elevadas. A terapia combinada de antiagregantes/anticoagulantes confere o maior risco, enquanto o ácido tranexâmico reduz as complicações hemorrágicas.
Comentário Editorial
Este estudo multicêntrico e prospectivo de "vida real" aborda uma questão clínica de crescente relevância na urologia: a gestão de pacientes com HPB que necessitam de cirurgia e estão em uso de terapia anticoagulante ou antiagregante. Com o envelhecimento da população, a prevalência de comorbidades cardiovasculares e o uso concomitante dessas medicações aumentam, tornando a decisão perioperatória um dilema complexo entre o risco de sangramento e o risco de eventos tromboembólicos.
Apesar da robustez do desenho prospectivo e do grande número de pacientes, algumas limitações inerentes a estudos observacionais devem ser consideradas. A principal é o viés de seleção, pois a decisão de manter ou descontinuar a terapia foi baseada na preferência do cirurgião e em consultas multidisciplinares, e não em randomização. Isso resultou em diferenças significativas nas características basais dos grupos, com o Grupo 1 (que manteve a terapia) apresentando maior carga de comorbidades, o que pode ter influenciado os desfechos e introduzido um fator de confusão residual. A heterogeneidade dos regimes de anticoagulação, fontes de energia e técnicas cirúrgicas entre os 30 centros também pode ter introduzido variabilidade nos resultados. Além disso, o período de acompanhamento relativamente curto (3 meses) pode não ter capturado eventos trombóticos tardios. A falta de protocolos padronizados para a administração de ácido tranexâmico impede recomendações definitivas sobre sua dosagem e timing ótimos. Por fim, o estudo não permite determinar o melhor intervalo de tempo para reiniciar a terapia anticoagulante.
A grande força deste trabalho reside na sua natureza de "vida real", que confere alta validade externa aos achados, tornando-os mais aplicáveis à prática clínica diária. O estudo confirma que a EEP pode ser realizada com segurança em pacientes que mantêm a terapia anticoagulante, um achado tranquilizador para urologistas e pacientes, especialmente considerando a ausência de eventos trombóticos maiores. A identificação da terapia combinada de antiagregantes/anticoagulantes como o maior fator de risco para sangramento é crucial para o aconselhamento pré-operatório e a estratificação de risco.
Um achado particularmente impactante é a forte associação do uso intraoperatório de ácido tranexâmico com uma redução de 82% nas chances de complicações hemorrágicas pós-operatórias. Este é um dado clinicamente relevante que sugere que o TXA pode ser considerado um componente padrão no manejo perioperatório desses pacientes. O estudo também elucida o "paradoxo" da menor queda de hemoglobina no grupo que manteve a anticoagulação, explicando-o pela ocorrência de sangramento prolongado ou tardio além das primeiras 24h nesse grupo devido à dificuldade de estabilização do coágulo e cicatrização o que pode não ter sido capturado apenas medindo a queda de hemoglobina precoce.
A conclusão final é que este estudo fornece evidências valiosas e de "vida real" que apoiam a segurança da EEP em pacientes que necessitam manter a terapia com "afinadores de sangue". Embora o risco de complicações hemorrágicas seja maior neste grupo, a ausência de eventos trombóticos graves é um ponto chave. A identificação da terapia combinada como de alto risco e, principalmente, o benefício significativo do ácido tranexâmico, oferecem orientações práticas importantes para a tomada de decisão clínica e o manejo perioperatório. Futuros ensaios clínicos randomizados são necessários para estabelecer protocolos padronizados, especialmente em relação ao uso do TXA e às estratégias específicas de manejo de anticoagulação, a fim de refinar ainda mais as diretrizes baseadas em evidências para esta população de pacientes desafiadora.
Referência
Castellani D, Yuen SK, Giulioni C, et al. To stop or not to stop. Endoscopic enucleation of the prostate in patients on blood thinners: outcomes, a real-life prospective multicenter study of 932 cases. World J Urol. 2025;43(1):674. Published 2025 Nov 8. doi:10.1007/s00345-025-06072-8

