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Ensaio clínico randomizado controlado comparando a técnica HoLEP en bloc versus lóbulo por lóbulo: eficácia cirúrgica e resultados de continência precoce

Autores do Artigo: 

Elmorsy YH, Elshal AM, El-Nahas AR, El-Assmy AM, Laymon M.

Journal

Prostate Cancer and Prostatic Diseases

Data da publicação

Setembro 2025

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

O artigo de pesquisa clínica, intitulada "Ensaio clínico randomizado controlado comparando a técnica HoLEP en bloc versus lóbulo por lóbulo: eficácia cirúrgica e resultados de continência precoce", foi publicado na revista Prostate Cancer and Prostatic Diseases em 30 de setembro de 2025. O estudo compara duas abordagens da Enucleação Prostática com Laser de Holmium (HoLEP) – a técnica "en-bloc" e a "lobo-a-lobo" (LBL) – com foco na eficiência cirúrgica, resultados perioperatórios e recuperação precoce da continência. O HoLEP é reconhecido como o padrão ouro para o tratamento da obstrução infra vesical devido à hiperplasia prostática benigna (HPB), especialmente para próstatas maiores que 80 mL, e modificações técnicas têm sido propostas para otimizar os resultados e reduzir a curva de aprendizado.

Objetivo

O objetivo principal do estudo foi comparar a técnica HoLEP en-bloc com a HoLEP lobe-by-lobe (LBL) convencional em termos de eficiência cirúrgica, resultados perioperatórios e recuperação precoce da continência, por meio de um ensaio clínico randomizado.

Desenho do estudo

Trata-se de um ensaio clínico randomizado e controlado (RCT) prospectivo, unicêntrico, registrado em clinicaltrials.gov (ID de Registro: NCT07014969).

Número de pacientes

Um total de 123 pacientes foram randomizados: 60 para o grupo HoLEP en-bloc e 63 para o grupo HoLEP lobo-a -lobo.

Período de inclusão

Os pacientes foram incluídos no estudo entre outubro de 2022 e outubro de 2024.

Materiais e Métodos

Os pacientes elegíveis foram randomizados em uma proporção de 1:1 para receber HoLEP en-bloc ou lobo-a-lobo. Ambos os procedimentos incorporaram a liberação apical precoce (EAR) e a preservação da mucosa esfincteriana. Todas as cirurgias foram realizadas por quatro cirurgiões experientes. O equipamento utilizado incluía um ressectoscópio de fluxo contínuo de 26 F, um gerador de laser Sphinx de 100 W (Lisa Laser, 2 J e 30 Hz para enucleação; 1.5 J e 15 Hz para coagulação) e um morcelador Piranha. As avaliações foram realizadas no pré-operatório e aos 1, 3 e 6 meses de pós-operatório. A análise estatística foi realizada utilizando SPSS versão 20, com testes de qui-quadrado, Kolmogorov–Smirnov, t de Student, Mann–Whitney U e Wilcoxon signed-rank, considerando p < 0.05 como estatisticamente significativo.

Desfechos

  • Desfecho Primário: Eficiência de enucleação (EE), definida como a razão entre o peso do tecido ressecado e o tempo de enucleação (g/min).
  • Desfechos Secundários: Eficiência operatória (peso ressecado/tempo operatório total), uso de energia laser, perda sanguínea, tempo de internação hospitalar, complicações e resultados funcionais (IPSS, QoL, Qmax, PVR e incontinência urinária de esforço [IUE] transitória), recuperação da continência avaliada subjetivamente (ICIQ-UI SF) e objetivamente (teste do absorvente de uma hora).

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

  • Inclusão: Idade ≥ 40 anos, volume prostático entre 80 e 200 mL (medido por TRUS), indicação cirúrgica para HoLEP devido a LUTS refratários ou complicações de HPB (retenção urinária aguda recorrente, hematúria macroscópica, cálculos vesicais, infecções recorrentes ou deterioração do trato urinário superior).
  • Exclusão: Condições neurológicas conhecidas que afetam a função da bexiga, câncer de próstata ou bexiga, coagulopatia (INR > 1.5 ou contagem de plaquetas < 90.000/mL) e escore ASA > 3.

Resultados

  • A técnica HoLEP en-bloc foi associada a um tempo de enucleação significativamente menor (62.5 vs. 74.3 min, P = 0.02), tempo operatório menor (78.6 vs. 94.9 min, P = 0.0007) e menor uso de energia laser (135 vs. 154 KJ, P = 0.014).
  • A eficiência de enucleação foi comparável entre os grupos (1.25 ± 0.49 vs. 1.17 ± 0.62 g/min; P = 0.42).
  • Ambas as técnicas resultaram em melhorias pós-operatórias significativas nos escores IPSS, QoL, Qmax e PVR (todos P < 0.0001), sem diferenças significativas entre os grupos em qualquer visita de acompanhamento.
  • As taxas de complicação foram semelhantes (14.6% vs. 14%; P = 0.8).
  • Aos 3 meses, as taxas de IUE transitória foram baixas e comparáveis (3.8% en-bloc vs. 4% LBL; P = 0.3).
  • Não houve diferenças estatisticamente significativas no tempo de internação hospitalar, tempo de remoção do cateter ou perda sanguínea perioperatória.
  • Em uma análise exploratória de subgrupo para próstatas ≥ 150 mL, a técnica en-bloc apresentou numericamente tempos operatórios e de enucleação mais curtos e menor uso de energia laser. Lesão vesical ocorreu em 4 pacientes lobo-a-lobo versus nenhum no grupo en-bloc, enquanto a IUE foi mais frequente inicialmente no grupo en-bloc (3 pacientes vs. nenhum no lobo-a-lobo aos 2 semanas), mas resolveu-se em sua maioria até 1 mês.

 

Conclusão do Trabalho

Os autores concluíram que o HoLEP en-bloc reduz o tempo de enucleação, o tempo operatório e o consumo de energia laser em comparação com o HoLEP lobo-a-lobo, mantendo segurança, eficácia e resultados de continência precoce comparáveis quando realizada com refinamentos técnicos modernos. Ambas as técnicas oferecem resultados funcionais e de segurança semelhantes, e as descobertas apoiam a flexibilidade na escolha da técnica cirúrgica com base na experiência do cirurgião, sendo a HoLEP en-bloc uma alternativa mais simplificada e guiada anatomicamente.

 

Comentário Editorial

O HoLEP já se consolidou como o padrão ouro para o tratamento da HPB obstrutiva, especialmente em próstatas volumosas. Contudo, a curva de aprendizado longa e a variabilidade nas taxas de incontinência urinária pós-operatória têm sido pontos de discussão. Este ensaio clínico randomizado aborda uma questão relevante ao comparar duas técnicas de HoLEP (en-bloc e lobo-a-lobo ) sob a premissa de que ambas incorporam refinamentos técnicos modernos, como a liberação apical precoce (EAR) e a preservação da mucosa do esfíncter uretral externo.
Como pontos positivos, o estudo é um ensaio clínico randomizado e controlado, o que lhe confere um alto nível de evidência, minimizando vieses de seleção e confusão. A padronização da EAR e da preservação da mucosa esfincteriana em ambos os grupos é um diferencial importante, permitindo isolar o impacto da estratégia de enucleação em si.
A demonstração de que a técnica en-bloc resulta em tempos de enucleação e operatório significativamente menores, além de menor consumo de energia laser, é um achado clinicamente relevante. Isso pode se traduzir em maior eficiência na sala de cirurgia, menor tempo de anestesia e, potencialmente, redução de custos e riscos associados a procedimentos mais longos.
A equivalência nos resultados funcionais (IPSS, QoL, Qmax, PVR) e nas taxas de complicação entre as duas técnicas é tranquilizadora. Isso sugere que, com as modificações técnicas adequadas, ambas as abordagens são igualmente eficazes em aliviar a obstrução e seguras para o paciente.
As baixas taxas de incontinência urinária de esforço (IUE) transitória observadas em ambos os grupos (3.8% para en-bloc e 4% para LBL aos 3 meses) são notáveis e substancialmente menores do que as taxas historicamente relatadas para o HoLEP convencional. Este achado reforça a importância da EAR e da preservação da mucosa esfincteriana na proteção da continência, independentemente da estratégia de enucleação.
O estudo traz algumas limitações pertinentes. Ele foi realizado em um único centro de alto volume e por cirurgiões experientes. Isso pode limitar a generalização dos resultados para centros com menor volume ou cirurgiões em fase inicial da curva de aprendizado da HoLEP.
Os autores reconhecem que o estudo não foi desenhado com poder estatístico suficiente para detectar pequenas diferenças nas taxas de incontinência urinária entre as técnicas. Embora as taxas observadas sejam baixas e comparáveis, estudos maiores e multicêntricos seriam necessários para explorar potenciais nuances.
A eficiência de enucleação, definida como uma razão, possui uma variabilidade inerente que pode ter limitado o poder estatístico para detectar diferenças significativas, mesmo com diferenças claras nos tempos de enucleação.
O período de acompanhamento de 6 meses é adequado para desfechos precoces e intermediários, mas resultados de longo prazo (além de 1 ano) seriam valiosos para confirmar a durabilidade dos benefícios e a estabilidade da continência.
A ausência de avaliação da função sexual é uma lacuna, considerando a relevância desse desfecho para a qualidade de vida dos pacientes submetidos a cirurgias prostáticas.
No geral, este estudo fornece evidências de alta qualidade de que tanto a técnica en-bloc quanto a LBL, quando realizadas com aprimoramentos técnicos como a liberação apical precoce e a preservação da mucosa esfincteriana, são abordagens seguras e eficazes para o tratamento da HPB. A técnica en-bloc demonstra vantagens claras em termos de eficiência cirúrgica, com tempos operatórios e consumo de energia laser reduzidos, sem comprometer os resultados funcionais ou as baixas taxas de incontinência precoce. A escolha entre as duas técnicas pode, portanto, ser guiada pela preferência e experiência do cirurgião, com a técnica en-bloc oferecendo um caminho mais direto e potencialmente mais rápido para a enucleação. 
Os achados reforçam a importância da técnica cirúrgica meticulosa na preservação da continência, um aspecto crucial na recuperação pós-HoLEP. Estudos futuros, multicêntricos e com acompanhamento mais longo, seriam benéficos para validar esses achados em uma população mais ampla e para investigar desfechos de longo prazo, incluindo a função sexual.

 

Referência

Elmorsy YH, Elshal AM, El-Nahas AR, El-Assmy AM, Laymon M. A randomized controlled trial comparing en-bloc vs lobe-by-lobe HoLEP: surgical efficiency and early continence outcomes. Prostate Cancer Prostatic Dis. Published online November 6, 2025. doi:10.1038/s41391-025-01040-0

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