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Dieta com Baixo Teor de Carboidratos, Sobrepeso/Obesidade e Incontinência Urinária Feminina: Resultados do National Health and Nutrition Examination Survey

Autores do Artigo: 

Wei Lv, Xiaoli Zhao, Lidan Liu

Journal

BMC Women's Health

Data da publicação

Setembro 2025

Autor do Resumo

Editor de Seção

  

Introdução

A incontinência urinária (IU) é uma condição altamente prevalente que afeta aproximadamente 25-45% das mulheres adultas em comunidade, com prevalência aumentando com a idade. A IU é classificada em vários subtipos: incontinência urinária de esforço (SUI), caracterizada por perda involuntária de urina durante atividades que aumentam a pressão intra-abdominal; incontinência urinária de urgência (UUI), caracterizada por perda involuntária de urina acompanhada ou imediatamente precedida por urgência; e incontinência urinária mista (MUI), que combina características de SUI e UUI. A incontinência urinária tem impacto significativo na qualidade de vida, afetando aspectos psicológicos, sociais e econômicos.

Sobrepeso e obesidade são fatores de risco bem estabelecidos para incontinência urinária em mulheres. Estudos epidemiológicos demonstram que cada aumento de 5 kg/m² no índice de massa corporal (IMC) está associado com aumento de aproximadamente 20-30% no risco de incontinência urinária. Os mecanismos propostos incluem aumento da pressão intra-abdominal, alterações na mecânica do assoalho pélvico, inflamação sistêmica e disfunção endotelial. Entretanto, nem todas as mulheres com sobrepeso ou obesidade desenvolvem incontinência urinária, sugerindo que fatores modificáveis, como padrões dietéticos, podem influenciar este risco.

Dietas com baixo teor de carboidratos (LCD) têm ganho crescente interesse como estratégia para perda de peso e melhora de vários marcadores de saúde metabólica, incluindo glicemia, lipídios e pressão arterial. Além disso, dietas com baixo teor de carboidratos podem ter efeitos anti-inflamatórios e podem melhorar a função endotelial. Entretanto, a relação entre padrões dietéticos com baixo teor de carboidratos e incontinência urinária permanece pouco explorada. Estudos prévios sugerem que inflamação sistêmica e disfunção endotelial podem contribuir para incontinência urinária, particularmente através de efeitos na função da musculatura do assoalho pélvico e na inervação sensorial vesical. Portanto, é plausível que uma dieta com baixo teor de carboidratos, através de seus efeitos anti-inflamatórios e metabólicos, poderia atenuar o risco de incontinência urinária associado ao sobrepeso e obesidade.

Objetivo

Avaliar o impacto de uma dieta com baixo teor de carboidratos (LCD) na relação entre sobrepeso/obesidade e incontinência urinária (IU) em mulheres, investigando se escores mais elevados de LCD atenuam a associação entre índice de massa corporal (IMC) elevado e vários subtipos de incontinência urinária (SUI, UUI, MUI e qualquer tipo de IU), utilizando dados da National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) 2007-2018.

Desenho do estudo

Estudo transversal (cross-sectional) utilizando dados da National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) 2007-2018.

O NHANES é um programa de pesquisa contínuo conduzido pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) que coleta dados representativos da população dos Estados Unidos através de entrevistas em domicílio e exames físicos em centros móveis de exame.

Os dados foram coletados em ciclos de dois anos. Para este estudo, foram incluídos dados de múltiplos ciclos do NHANES (2007-2008, 2009-2010, 2011-2012, 2013-2014, 2015-2016, 2017-2018). A análise foi realizada utilizando regressão univariada e multivariada ponderada para examinar a associação entre sobrepeso, obesidade e incontinência urinária dentro de cada grupo de LCD (baixo-LCD e alto-LCD).

Número de pacientes

Um total de 13.733 mulheres foi incluído no estudo. Destas, 6.531 participantes (47,53%) apresentavam escores baixos de LCD, e 7.202 participantes (52,47%) apresentavam escores altos de LCD.

Período de inclusão

2007 a 2018 (dados coletados em ciclos bienais do NHANES)

Materiais e Métodos

Fonte de Dados e População do Estudo: O NHANES é um programa de pesquisa contínuo que coleta dados representativos da população dos Estados Unidos. O programa utiliza um desenho de amostragem estratificado e multietápico para selecionar uma amostra representativa da população civil não-institucionalizada dos EUA. Os dados são coletados através de entrevistas em domicílio e exames físicos em centros móveis de exame. Para este estudo, foram incluídas mulheres com idade ≥20 anos que participaram do NHANES durante os ciclos 2007-2018. Foram excluídas mulheres com dados faltantes sobre incontinência urinária, IMC ou ingestão dietética.

Coleta de Dados:

Avaliação de Incontinência Urinária:A incontinência urinária foi avaliada através de questionário padronizado. Os participantes foram perguntados sobre a presença de perda involuntária de urina. Aqueles que relataram incontinência foram questionados sobre o tipo: (1) incontinência urinária de esforço (SUI) - perda de urina durante atividades como tosse, espirro ou exercício; (2) incontinência urinária de urgência (UUI) - perda de urina acompanhada por urgência; (3) incontinência urinária mista (MUI) - combinação de SUI e UUI. A variável "qualquer incontinência urinária" foi definida como presença de qualquer subtipo de incontinência.

Avaliação de Sobrepeso, Obesidade e LCD: O índice de massa corporal (IMC) foi calculado a partir de medidas de peso e altura obtidas durante o exame físico no centro móvel de exame. Sobrepeso foi definido como 25 kg/m² ≤ IMC < 30 kg/m²; obesidade foi definida como IMC ≥ 30 kg/m². Peso normal foi definido como IMC < 25 kg/m².A ingestão dietética foi avaliada através de entrevista de recordatório de 24 horas conduzida por nutricionistas treinados. Os participantes foram perguntados sobre todos os alimentos e bebidas consumidos nas 24 horas anteriores. As informações foram codificadas e analisadas utilizando o banco de dados de composição de alimentos do USDA.O escore de LCD foi calculado utilizando uma metodologia estabelecida que atribui pontuações baseadas na proporção de calorias provenientes de carboidratos, proteínas e gorduras. Escores mais elevados indicam maior aderência a um padrão dietético com baixo teor de carboidratos. O escore de LCD foi categorizado em dois grupos baseado no valor mediano: grupo baixo-LCD (abaixo da mediana) e grupo alto-LCD (acima da mediana).

Covariáveis Possíveis: Foram coletadas informações sobre características demográficas (idade, raça/etnia, estado civil, nível educacional), fatores de estilo de vida (tabagismo, consumo de álcool, atividade física), história médica (diabetes, hipertensão, doença cardiovascular), e medicações. A glicemia de jejum ou hemoglobina glicada (HbA1c) foi medida para avaliar controle glicêmico. Pressão arterial foi medida durante o exame físico.

Análise Estatística: A análise estatística foi realizada utilizando software estatístico apropriado que contabiliza o desenho de amostragem complexo do NHANES. Foram utilizados pesos amostrais para produzir estimativas representativas da população dos EUA. Análise univariada foi realizada inicialmente para examinar associações entre variáveis independentes e incontinência urinária. Análise multivariada foi então realizada, ajustando para covariáveis potenciais incluindo idade, raça/etnia, estado civil, nível educacional, tabagismo, consumo de álcool, atividade física, diabetes, hipertensão, doença cardiovascular, e medicações. Foram realizadas análises separadas para o grupo baixo-LCD e grupo alto-LCD. Razões de probabilidade (OR) e intervalos de confiança de 95% (IC 95%) foram calculados. Valores de p < 0,05 foram considerados estatisticamente significativos. Análise de subgrupo foi realizada para investigar se associações diferiam por grupos de idade ou outros fatores demográficos.

Desfechos

Desfechos Primários:

  • Incontinência urinária de esforço (SUI)
  • Incontinência urinária de urgência (UUI)
  • Incontinência urinária mista (MUI)
  • Qualquer tipo de incontinência urinária

Desfechos Secundários:

  • Associação entre sobrepeso/obesidade e cada subtipo de incontinência urinária, estratificada por escore de LCD
  • Efeito modificador do escore de LCD na relação entre IMC e incontinência urinária

Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes

Critérios de Inclusão:

  • Mulheres com idade ≥20 anos
  • Participantes do NHANES durante ciclos 2007-2018
  • Dados completos sobre incontinência urinária
  • Dados completos sobre IMC
  • Dados completos sobre ingestão dietética (recordatório de 24 horas)

 

Resultados

Características da População: A população estudada consistiu em 13.733 mulheres com idade média de aproximadamente 45-50 anos. A distribuição racial/étnica foi representativa da população dos EUA. Quanto ao estado nutricional: 47,53% apresentavam escores baixos de LCD, e 52,47% apresentavam escores altos de LCD. A prevalência de sobrepeso foi aproximadamente 30-35%, e a prevalência de obesidade foi aproximadamente 35-40%, variando ligeiramente entre os grupos de LCD.

Associação entre Sobrepeso/Obesidade e Incontinência Urinária de Esforço (SUI): Tanto no grupo baixo-LCD quanto no grupo alto-LCD, sobrepeso e obesidade foram associados com risco aumentado de SUI. Entretanto, a correlação entre IMC e SUI foi reduzida no grupo alto-LCD comparado ao grupo baixo-LCD. Isto sugere que um escore mais elevado de LCD atenua o impacto do sobrepeso/obesidade no risco de SUI.

Associação entre Sobrepeso/Obesidade e Incontinência Urinária de Urgência (UUI): Obesidade foi relacionada com risco aumentado de UUI em mulheres com escores baixos e altos de LCD. Entretanto, mulheres com escore alto de LCD exibiram uma correlação diminuída entre obesidade e risco de UUI, em contraste com suas contrapartes com escore baixo de LCD. Sobrepeso não foi significativamente associado com UUI em nenhum dos grupos.

Associação entre Sobrepeso/Obesidade e Incontinência Urinária Mista (MUI): Risco aumentado de MUI foi encontrado em mulheres com sobrepeso e obesidade que apresentavam escore baixo de LCD. No grupo alto-LCD, obesidade foi significativamente associada com risco aumentado de MUI. Entretanto, quando o escore de LCD aumentava, havia correspondente diminuição no impacto da obesidade no risco de MUI.

Associação entre Sobrepeso/Obesidade e Qualquer Tipo de Incontinência Urinária: Risco aumentado de qualquer subtipo de incontinência urinária foi encontrado em mulheres com sobrepeso ou obesidade, independentemente de escore baixo ou alto de LCD. Entretanto, conforme o escore de LCD aumentava, o impacto do sobrepeso/obesidade no risco de qualquer tipo de incontinência urinária diminuía. Isto sugere um efeito modificador do escore de LCD na relação entre IMC e incontinência urinária.

Análise de Subgrupo: Análises de subgrupo foram realizadas para investigar se associações diferiam por grupos de idade. Os padrões gerais de associação foram similares entre diferentes grupos etários, embora a magnitude das associações tenha variado ligeiramente. Mulheres mais jovens com sobrepeso/obesidade apresentaram risco aumentado de SUI, enquanto mulheres mais idosas apresentaram risco aumentado de UUI e MUI.

Conclusão do Trabalho

Este estudo transversal de grande escala, utilizando dados de 13.733 mulheres participantes do NHANES 2007-2018, demonstra que um escore mais elevado de LCD pode atenuar o impacto do sobrepeso e obesidade em vários subtipos de incontinência urinária, incluindo SUI, UUI, MUI e qualquer tipo de incontinência urinária. Embora mulheres com sobrepeso ou obesidade apresentem risco aumentado de incontinência urinária independentemente do escore de LCD, a magnitude desta associação diminui conforme o escore de LCD aumenta. Estes achados sugerem que a adoção de um padrão dietético com baixo teor de carboidratos pode ser uma estratégia potencial para mitigar o risco de incontinência urinária associado ao sobrepeso e obesidade em mulheres. Entretanto, pesquisa adicional, particularmente estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados, é necessária para confirmar estes achados e investigar os mecanismos subjacentes.

Comentário Editorial

Este artigo apresenta uma perspectiva inovadora sobre a relação entre padrões dietéticos, peso corporal e incontinência urinária em mulheres, abordando uma lacuna importante na literatura científica.

O achado central de que escores mais elevados de LCD atenuam a associação entre sobrepeso/obesidade e incontinência urinária é particularmente relevante clinicamente. Isto sugere que não é apenas o peso corporal que determina o risco de incontinência urinária, mas também a qualidade da dieta. Para mulheres com sobrepeso ou obesidade que apresentam incontinência urinária, a recomendação de adotar um padrão dietético com baixo teor de carboidratos, além de estratégias de perda de peso, pode oferecer benefício adicional. Este achado é especialmente importante considerando que muitas mulheres com incontinência urinária relutam em submeter-se a procedimentos cirúrgicos ou preferem abordagens não-invasivas.A atenuação diferencial do risco entre subtipos de incontinência é também informativa. A redução mais pronunciada no impacto do sobrepeso/obesidade em SUI com escore alto de LCD sugere que fatores dietéticos podem ter efeitos particularmente importantes na mecânica do assoalho pélvico e na pressão intra-abdominal. Em contraste, a atenuação em UUI e MUI sugere efeitos em mecanismos sensoriais e de armazenamento vesical, possivelmente através de redução de inflamação sistêmica.

Embora o artigo não explore extensivamente os mecanismos, várias hipóteses plausíveis podem explicar os achados. Primeiro, dietas com baixo teor de carboidratos frequentemente resultam em perda de peso, que por si só reduz o risco de incontinência urinária. Segundo, dietas com baixo teor de carboidratos têm efeitos anti-inflamatórios bem documentados, reduzindo marcadores de inflamação sistêmica como proteína C reativa. Inflamação sistêmica tem sido associada com disfunção do assoalho pélvico e alterações na sensação vesical. Terceiro, dietas com baixo teor de carboidratos melhoram o controle glicêmico e a sensibilidade à insulina, fatores que podem influenciar a função neuromuscular. Quarto, dietas com baixo teor de carboidratos podem melhorar a função endotelial, potencialmente beneficiando a perfusão dos tecidos do assoalho pélvico.

As limitações do estudo incluem: (1) desenho transversal, impossibilitando estabelecimento de causalidade; (2) reliance em dados auto-reportados para incontinência urinária e ingestão dietética, sujeito a viés de memória e viés de desejabilidade social; (3) falta de informações sobre severidade de incontinência urinária ou impacto na qualidade de vida; (4) possível confundimento residual por fatores não medidos; (5) generalização limitada, já que NHANES representa principalmente a população dos EUA; (6) falta de informações sobre duração da aderência à dieta com baixo teor de carboidratos ou mudanças dietéticas ao longo do tempo; (7) possível viés de seleção, já que participantes do NHANES podem diferir sistematicamente daqueles que não participam.

Referência

Lv W, Zhao X, Liu L. Low-carbohydrate diet, overweight/obesity and female urinary incontinence: results from the National Health and Nutrition Examination Survey. BMC Women's Health. 2025;25:462. https://doi.org/10.1186/s12905-025-04012-7

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