
O Trígono Vesical: Um Órgão Sensorial?
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Introdução
O trígono vesical é uma região triangular especializada da bexiga, delimitada pelos óstios ureterais e pela uretra interna. Tradicionalmente considerado uma estrutura passiva, estudos recentes revelam que o trígono participa ativamente na sinalização sensorial, continência urinária e em diversas condições urológicas. Esta revisão narrativa sintetiza o conhecimento atual sobre as características morfológicas, moleculares e transcriptômicas do trígono, discutindo sua relevância fisiológica e clínica, com ênfase em suas implicações para o desenvolvimento de terapias direcionadas, como injeções de toxina botulínica.
Objetivo
Sintetizar o conhecimento atual sobre as características morfológicas, moleculares e transcriptômicas do trígono vesical, destacando sua relevância fisiológica e clínica, e orientar futuras pesquisas e práticas clínicas.
Desenho do estudo
Revisão narrativa
Materiais e Métodos
Busca sistemática nas bases de dados PubMed e Embase por artigos publicados entre 1923 e 2025 relacionados ao campo de estudo do trígono vesical.
Resultados
Estrutura Morfológica do Trígono Vesical: O trígono é uma área triangular localizada na parede posterior da bexiga, formada pela intercalação de musculatura ureteral e vesical. Sua formação depende de contribuições tanto mesodermal quanto endodermal. A musculatura lisa do trígono é composta por duas camadas distintas:
- Camada profunda (músculo trigonal profundo): Formada pela fusão da musculatura ureteral externa com o detrusor externo, constituindo essencialmente a porção posterocaudal do detrusor.
- Camada superficial (músculo trigonal superficial): Camada morfologicamente distinta, composta por feixes musculares contínuos com os ureteres intramurais, que se estende até a uretra proximal.
Histologicamente, o trígono apresenta uma mucosa relativamente lisa, diferenciando-se das rugas presentes no corpo e cúpula vesical. O epitélio é mais fino e menos pregueado, com apenas três camadas celulares. Sob o epitélio encontra-se uma lâmina própria densamente vascularizada e inervada, que sustenta as funções sensorial e imunológica da região. A muscularis própria do trígono contém uma disposição mais organizada e densa de fibras musculares, conferindo rigidez funcional e mantendo a orientação anatômica dos óstios ureterais e uretrais.A arquitetura microvascular do trígono é única: a rede capilar subepitelial é menos densa, com capilares mais finos e disposição mais frouxa em comparação com outras regiões da bexiga, apresentando malhas alongadas e diâmetro mais uniforme.
Inervação: O trígono é a região mais densamente inervada da bexiga, funcionando como um "ponto sensorial crítico". Recebe inervação simpática (segmentos T10-L2), parassimpática (S2-4) e somática, com contribuição significativa de fibras sensoriais mielinizadas (A-delta) e não-mielinizadas (C-fibras).Estudos tridimensionais demonstraram que neurônios sensoriais mielinizados e fibras parassimpáticas pré-ganglionares penetram predominantemente a musculatura detrusora próximo ao colo vesical (posições 3 e 9 horas) e ao redor dos óstios ureterais e crista interuretérica. A densidade de fibras aferentes suburotéliais é particularmente abundante na junção vesicouretral.O trígono apresenta alta densidade de nervos adrenérgicos e moderada de fibras contendo neuropeptídio Y (NPY) e peptídio intestinal vasoativo (VIP). Fibras contendo peptídio relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), somatostatina e leucencefalina estão confinadas ao trígono e uretra. Estudos em animais envelhecidos revelaram diferenças relacionadas à idade na expressão de CGRP nas camadas mucosas trigonais.
Marcadores Moleculares e Receptores: O trígono expressa um conjunto único de marcadores moleculares que refletem suas funções especializadas:
- Proteínas de junção estreita: Claudina-4, ZO-1 e ocludina, que reforçam a integridade da barreira epitelial.
- Matriz extracelular: Colágeno tipos I e III, fibronectina e laminina, contribuindo para resiliência biomecânica.
- Receptores autonômicos: Receptores muscarínicos (M2, M3) e adrenérgicos (α1, β3), facilitando controle autonômico complexo. Os receptores α1-adrenérgicos causam contração e contribuem fisiologicamente à resistência da saída vesical.
- Receptores purinérgicos e canais TRP: P2X3, P2Y2 e TRPV1, sugerindo envolvimento em mecanotransdução e nocicepção. Estudos demonstraram que sintomas de urgência sensorial estão associados ao aumento da expressão de TRPV1 na mucosa trigonal.
Estudos in vitro mostraram que a musculatura trigonal superficial responde maximalmente à estimulação de receptores α-adrenérgicos, mas também apresenta resposta colinérgica significativa, indicando neurotransmissão complexa envolvendo inervação colinérgica, adrenérgica e não-adrenérgica não-colinérgica.
Perfil Transcriptômico: Análises transcriptômicas recentes revelaram padrões distintos de expressão gênica no trígono em relação ao corpo e cúpula vesical. Foram identificados 10.261 genes diferencialmente expressos entre o urotelio do corpo vesical e do trígono, confirmando que essas regiões são funcionalmente distintas.O trígono apresenta:
- Aumento de proteínas de junção estreita: Claudina-1 (CLDN1), claudina-4 (CLDN4), molécula de adesão juncional (JAM-1) e E-caderina em comparação com a cúpula.
- Alta expressão de fatores neurotróficos: Neuropeptídio Y (NPY), peptídio intestinal vasoativo (VIP), substância P (SP), peptídio relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), fator de crescimento nervoso (NGF) e fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), correlacionando-se com a extensa inervação sensorial.
- Mediadores inflamatórios elevados: Interleucina-6 (IL-6), interleucina-8 (IL-8) e quimiocinas (ex: CXCL1), sugerindo estado de prontidão imunológica aumentada.
Conclusão do Trabalho
Implicações Funcionais: O trígono desempenha múltiplos papéis na fisiologia vesical:
- Prevenção de refluxo vesicoureteral: A contração da musculatura trigonal durante a micção comprime os óstios ureterais, prevenindo fluxo retrógrado de urina. A estrutura anatômica e o tônus muscular do trígono contribuem para esse mecanismo anti-refluxo. Entretanto, alguns estudos questionam essa função, não tendo detectado atividade elétrica trigonal durante a micção.
- Regulação do fluxo urinário: A mucosa lisa do trígono (em contraste com as rugas do restante da bexiga) permite fluxo eficiente de urina em direção à uretra durante a micção, funcionando como um funil.
- Coordenação neuromuscular: Através da expressão de receptores autonômicos e circuitos neurais locais, o trígono coordena a contração detrusora e o relaxamento do esfíncter durante a micção.
- Sinalização sensorial: Sua densa inervação e expressão de canais TRP sugerem papel crucial na percepção de enchimento vesical e urgência miccional.
Implicações Clínicas: O trígono é frequentemente implicado em diversas condições urológicas:
- Bexiga hiperativa (OAB): Metanálises demonstraram que injeção de toxina botulínica tipo A incluindo o trígono foi mais eficaz que a técnica poupadora de trígono para tratamento de OAB, especialmente em hiperatividade detrusora neurogênica. Entretanto, alguns estudos não encontraram diferença significativa em escore de sintomas ou resposta ao tratamento entre grupos com e sem inclusão trigonal.
- Síndrome de dor vesical/cistite intersticial (IC/BPS): O trígono frequentemente apresenta aumento de densidade nervosa e inflamação, tornando-se alvo terapêutico. Pacientes frequentemente relatam dor suprapúbica, e o trígono pode ser um epicentro de dor. Estudos em animais demonstraram resposta inflamatória mais pronunciada no trígono em comparação com a cúpula.
- Obstrução da saída vesical: O trígono torna-se aumentado e mais sensível devido ao superdistensionamento crônico e aumento da pressão vesical, contribuindo para hiperatividade detrusora e sintomas de urgência.
- Urgência urinária e disfunção neurogênica: A alta densidade de inervação sensorial e expressão de receptores nociceptivos sugerem papel central do trígono nesses sintomas.
Comentário Editorial
Este artigo oferece uma síntese abrangente e atualizada sobre o trígono vesical, consolidando evidências que transformam nossa compreensão dessa estrutura de um simples componente anatômico para um órgão sensorial altamente especializado. As descobertas sobre sua inervação densa, perfil molecular único e padrões transcriptômicos distintos têm implicações práticas significativas para a prática clínica.
Do ponto de vista terapêutico, a compreensão detalhada da inervação trigonal e distribuição de receptores é crucial para otimizar intervenções como injeções de toxina botulínica. A evidência de que a inclusão do trígono em injeções de toxina botulínica é mais eficaz para OAB, particularmente em hiperatividade detrusora neurogênica, reforça a importância de considerar essa estrutura em protocolos de tratamento. Além disso, a identificação do trígono como epicentro de dor em síndrome de dor vesical/cistite intersticial abre perspectivas para abordagens terapêuticas mais direcionadas.
As limitações do artigo incluem a natureza narrativa da revisão, que pode estar sujeita a vieses de seleção, e a escassez de estudos funcionais em humanos que confirmem algumas hipóteses, particularmente sobre o papel do trígono na prevenção de refluxo vesicoureteral durante a micção. Muitos estudos citados foram realizados em modelos animais, cuja extrapolação para humanos requer cautela.
Perspectivas futuras incluem o desenvolvimento de técnicas de imagem avançadas para visualizar a atividade trigonal in vivo, estudos funcionais em humanos para esclarecer o papel do trígono na continência e micção, e investigações sobre como alterações transcriptômicas trigonais contribuem para condições como cistite intersticial e bexiga hiperativa. A integração de dados transcriptômicos com estudos funcionais e clínicos promete revelar novos alvos terapêuticos e estratégias de tratamento personalizadas para disfunções vesicais.
Referência
Andersson K-E, Kanai A, Uvelius B. The Bladder Trigone: A sensory organ? Continence. 2025. https://doi.org/10.1016/j.cont.2025.102309
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