
Variação no manejo do cateter e preditores de sucesso de tentativa de micção sem cateter em homens com retenção urinária aguda: resultados do estudo AUR-SNAPSHOT
Autores do Artigo:
Journal
Data da publicação
Autor do Resumo

Editor de Seção

Introdução
A retenção urinária aguda (RUA) é uma condição comum em homens, frequentemente relacionada à hiperplasia prostática benigna, que requer cateterização vesical de urgência. Após o alívio inicial da retenção, o manejo subsequente envolve a realização de uma tentativa de micção sem cateter (TWOC, do inglês trial without catheter), cujo momento ideal e protocolo ainda são objeto de debate na literatura. Este estudo multicêntrico holandês investigou a variação na prática clínica do manejo de cateteres e os fatores preditores de sucesso do TWOC em homens com RUA espontânea.
Objetivo
O objetivo primário foi avaliar a variação no tempo e no manejo do TWOC entre diferentes hospitais holandeses. Os objetivos secundários incluíram identificar preditores clínicos de sucesso do TWOC e avaliar a ocorrência de complicações relacionadas ao cateter.
Desenho do estudo
Estudo observacional, transversal e retrospectivo, multicêntrico.
Número de pacientes
299 homens (idade média 73.1 ± 9.4 years)
Período de inclusão
Janeiro a Junho de 2022
Materiais e Métodos
Foram incluídos homens com 18 anos ou mais que apresentaram um único episódio de RUA espontânea. Os dados foram coletados retrospectivamente dos prontuários eletrônicos dos 12 hospitais participantes. As variáveis analisadas incluíram características demográficas dos pacientes, volume vesical drenado no momento da cateterização, duração do cateterismo, uso de alfabloqueadores antes do TWOC, presença de fatores desencadeantes da RUA (como consumo de álcool) e desfechos do TWOC. A análise estatística incluiu modelos de regressão logística univariável e multivariável para identificar preditores independentes de sucesso do TWOC.
Desfechos
- Primários: Variação no tempo de cateterização e no manejo do TWOC entre hospitais
- Secundários: Taxa de sucesso do TWOC, preditores clínicos de sucesso do TWOC e complicações relacionadas ao cateter (incluindo hematúria, infecção do trato urinário, urossepse e desconforto mecânico)
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
- Inclusão: Homens com 18 anos ou mais que apresentaram um único episódio de RUA espontânea
- Exclusão: Pacientes com RUA de causas não espontâneas (como pós-operatório, relacionada a trauma, ou causas neurogênicas)
Resultados
A duração mediana do cateterismo foi de 15 dias (intervalo interquartil de 6 a 23 dias), com variação significativa entre os hospitais.
A taxa de sucesso global do TWOC foi de 31,3%, variando entre 14,3% a 54,5% nos diferentes centros.
Na análise multivariável, foram identificados os seguintes preditores de sucesso do TWOC:
- Idade avançada: associada a menor chance de sucesso (OR 0,93; IC 95% não especificado)
- Maior volume vesical drenado: associado a menor chance de sucesso (OR 0,99 por mL adicional)
- Consumo de álcool como fator desencadeante da RUA: associado a maior chance de sucesso (OR 3,54)
O uso de alfabloqueadores mostrou tendência a benefício na análise univariável, mas não alcançou significância estatística na análise multivariável.
As complicações relacionadas ao cateter foram frequentes e incluíram:
- Hematúria: 12,3%
- Infecção do trato urinário: 10,3%
- Urossepse: 4,3%
- Problemas mecânicos ou desconforto: 15,9%
Conclusão do Trabalho
Os autores concluíram que existe uma variação substancial na duração do cateterismo e no manejo do TWOC entre diferentes hospitais holandeses. Foram identificados três preditores independentes de sucesso do TWOC: idade mais jovem, menor volume vesical drenado e consumo de álcool como fator desencadeante. As complicações relacionadas ao cateter foram frequentes, destacando a importância de otimizar o manejo desses pacientes. Os achados ressaltam a necessidade de protocolos padronizados e de estudos randomizados controlados adicionais para estabelecer diretrizes baseadas em evidências sobre o momento ideal e o manejo do TWOC.
Comentário Editorial
Este estudo multicêntrico holandês traz dados importantes sobre a realidade da prática clínica no manejo da RUA, evidenciando a grande heterogeneidade nas condutas entre diferentes serviços.
A taxa de sucesso geral do TWOC de 31,3% está dentro do esperado com base em estudos anteriores, mas a ampla variação entre hospitais (14,3% a 54,5%) sugere que fatores relacionados ao protocolo institucional e ao momento de realização do TWOC podem influenciar significativamente os resultados.
Os preditores identificados têm aplicabilidade clínica prática. Pacientes mais idosos e aqueles com maior volume vesical residual drenado no momento da RUA apresentam menor probabilidade de sucesso no TWOC, informação útil para o aconselhamento do paciente e planejamento terapêutico. Por outro lado, a RUA precipitada por consumo de álcool parece ter prognóstico mais favorável, possivelmente por representar uma situação mais transitória e menos relacionada a obstrução anatômica fixa. Chama atenção que o uso de alfabloqueadores não demonstrou benefício estatisticamente significativo na análise multivariável, apesar de diretrizes internacionais recomendarem seu uso antes do TWOC. Este achado pode refletir limitações metodológicas do estudo retrospectivo, como falta de padronização na dose, tempo de uso e adesão ao alfabloqueador, além de possível confusão por indicação (pacientes mais graves podem ter recebido alfabloqueadores com mais frequência).
A alta taxa de complicações relacionadas ao cateter (cerca de 43% dos pacientes apresentaram alguma complicação) reforça a necessidade de minimizar o tempo de cateterismo sempre que possível, mas de forma equilibrada com a otimização das chances de sucesso do TWOC para evitar recateterizações.
Como limitações, destacam-se o desenho retrospectivo do estudo, a ausência de uma definição padronizada de sucesso do TWOC entre os centros participantes e a falta de controle sobre variáveis de confusão não mensuradas. A ausência de dados sobre o volume urinado no momento do TWOC e o resíduo pós-miccional em muitos casos dificulta a avaliação objetiva do sucesso funcional. Estudos prospectivos randomizados são necessários para definir o momento ideal do TWOC, o papel dos alfabloqueadores e outros medicamentos adjuvantes, e para estabelecer uma definição padronizada de sucesso (os autores sugerem volume urinado maior que 100 mL com resíduo pós-miccional menor que 200 mL). Até que tais evidências estejam disponíveis, a individualização da conduta com base nos preditores identificados parece ser uma abordagem razoável.
Referência
van Merode NAM, Hermans PY, de Jong T, Schout BMA, Cobussen C, van Basten JPA, de Jongh R, Mekke S, Roshani H, Nijenhuis MM, van Uhm JIM, Kikkert RR, Tilli S, Heesakkers JFA, Duijn M, van Haarst EP, Tijans AM, Noordzij A, van Eerten-Koops L, Bleumer I, Tijhof EH, Cornel EB, Witte LPW. Variation in catheter management and predictors of trial without catheter success in men with AUR: results from the AUR-SNAPSHOT study. Continence. 2025. https://doi.org/10.1016/j.cont.2025.102295.
Outros Resumos
-
Postado: set/2025
Estatísticas do câncer de próstata em 2025 nos Estados Unidos

